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Correr na Cidade

Corrida do Tejo: Quando a cabeça não tem juízo...

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Por: Filipe Gil 

 

Aqui há uns anos, mais ou menos por volta de 2001/2002 comecei a ganhar uns quilos extra. No início nem notei. Até que um comentário de alguém, que a memória felizmente apagou, abordou a questão: «Sim, tu, como és gordinho...», disse esse alguém. Gordo, eu???? Como é possível? Quando era puto tinha vergonha de ir para a praia por ser tão magro, e nem tinha rabo para as calças, nem as 501 me ficavam bem… Agora passava a ser «gordo». Aliás «gordinho», o que ainda mete mais dó!

 

 

A solução foi ir para o ginásio. O que não resultou. Estar fechado numa sala a fazer máquinas nunca me atraiu. E eis que decidi começar a correr. Porque era barato e porque nunca o tinha feito, a não ser em jeito de pré-aquecimento para outros desportos ou com uma bola à frente. Decidi investigar quais as melhores sapatilhas, escolher os melhores percursos, a melhor roupa, entusiasmei-me e comecei a correr na rua - como via fazerem nos anúncios americanos da Apple e da Nike.  A coisa resultou, apesar de muito gente olhar quando passava certamente a pensar: «Por favor, arranja um jardim para isso!!!». Nunca corri nada de especial mas fui ficando um pouco mais tonificado e com menos barriga. Yes!!!


E eis que a minha vida dá uma reviravolta e vou viver para a Holanda. Os primeiros meses por lá a esquemática foi a mesma: correr uma duas vezes por semana, cerca de meia-hora. O que, claro, é bom para a saúde mas não aquece nem arrefece em matéria de perder gordura – tendo em conta que não fechava a boca para os doces dos Países Baixos.

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Depois com mudança de cidade de Delft para Amesterdão passei a fazer cerca de 14 quilómetros diários de bicicleta para o emprego (ida e volta). E isso bastou para me colocar em forma, sem barriga pela primeira vez em três ou quatro anos. Estava de volta!!! Além disso comecei a jogar futebol de 11 no fantástico clube dos portugueses de Amesterdão. Bastava tudo isto para estar mesmo em forma. E desisti de correr. Lembro-me que em ano e meio corri uma vez, cerca de quatro quilómetros nas docas da capital holandesa. A meio achei aquilo uma estupidez e voltei para casa.

 

Regressado a Portugal, 2006, e passados uns anos depois de me estrear na paternidade, comecei a correr mais a sério - circa 2010. Influenciado pelo amigo Bruno Andrade que na altura já tinha feito Meias Maratonas e Corridas da Árvore. E comecei a correr e a escrever. E a escrever e a correr. Com esse entusiasmo criei, em 2012, com ajuda de amigos, um blogue, este Correr na Cidade – que hoje é ainda um dos principais espaços onde se fala de corrida no país (e com pinta!). 

 

Alegrias, companheirismo, metas alcançadas, sempre a subir. De corridas fantásticas em Santarém, a 55K a arrastar-me pelo Piódão. Até que a partir de um determinado ponto foram muitas desilusões, muitas frustrações, muitas lesões, muita pressão para fazer uma coisa que deixou de me dar prazer – ou que eu deixei que me retirassem o prazer da coisa (ainda não percebi) – e saí do blogue em 2016. Mantive a grande amizade com o resto dos elementos do blogue/runnuing crew e hoje encontramo-nos para fazer várias coisas nas nossas vidas e às vezes até corremos juntos. 

 

E em 2016 criei com o amigo de longa data, o João Coelho,  o blogue Like a Man – dedicado às coisas que andam na cabeça dos homens com mais de 35 anos. Mas o bichinho da corrida foi ficando. Depois de quase um ano lesionado, voltei a correr, a ganhar algum ritmo, a pensar em voltar aos trilhos, a ficar entusiasmado com o «corpitxo» a voltar ao lugar e a voltar a ver os abdominais – ainda que de soslaio. E a ter prazer a correr, aquele prazer fantástico de acabar um treino de 10K a pingar suor e com a felicidade estampada no rosto. Eis senão quando, tau! Num pacato fim de tarde de julho, levo com um carro em cima. Acidente de mota, fémur partido, seis meses no estaleiro de muletas e fisioterapia e uma estaca de titanium no osso de uma das pernas que me vai acompanhar para o resto da vida. Uma espécie de Wolverine!

 
Mesmo assim, voltei a correr. Mas nunca, nunca mais foi a mesma coisa. Acreditem. Sentia (e sinto) impressão na perna (atenção, os médicos mandaram-me correr pelo menos duas vezes por semana para manter os músculos da perna em forma e não ter dores). Mas o prazer foi-se. A maior parte das vezes chego ao fim de dois quilómetros e começo a andar...e a pensar porque estou a fazer aquilo.

 

Com a aproximação da Corrida do Tejo, a New Balance lançou-me o desafio no meu blogue atual (Like a Man) correr a prova. O João já o tinha feito no ano passado e dispensou, e o André, novo elemento do Like a Man, disse logo que não.  Mas aceitei. Convenci a senhora lá de casa, que hoje em dia corre muito mais do que eu, a acompanhar-me. Percebi quem iria aqui do Correr na Cidade e as condições estavam mais do que reunidas. 

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Comecei a preparação, quer dizer, a tentativa de preparação. Treinos muito erráticos. Corria e parava. Parava e voltava a correr. Sem prazer, sem gostar. Irritado porque a máquina não estava a funcionar. Mas parecia estar. Não percebia. Mas continuava a meter na cabeça que apesar de estar fora de forma iria fazer aquela que considero a melhor prova de 10K em Portugal.


Com isso a New Balance ofereceu umas sapatilhas brutais para fazermos a prova (a versão masculina do modelo igual às da Bo Irik). Nota 10 para as sapatilhas, como dizem os amigos brasileiros. Mas nota menos 10 aqui para o suposto corredor. Notei que as coisas iriam ser difíceis, não tanto pela forma física que já está a melhorar, mas porque tudo na corrida me começou a irritar. Bloqueei. E, caro corredor e leitor do Correr na Cidade, se chegou até aqui, obrigado. O que vai ler daqui para a frente é pura embirração da minha parte. Se quiser, quando se cruzar comigo faça-me uma rasteira ou chame-me nomes. Mas não leve a peito. Tenho esta estranha mania de dizer o que penso. Cá vai disto:

 

Irrita-me o «bando» da corrida, do qual já fiz parte. Irrita-me as expressões usadas e aquela falsa ideia de que o mundo da corrida é tudo amigo, simpático e é cheio de amor e companheirismo só porque suamos juntos. Aqueles avisos nos treinos de que há uma pedra fora da calçada, um pilar que toda a gente viu há mais 500 metros mas que alguém não se esquece a avisar repetidamente. Ou que se deve para virar à direita ou à esquerda quando nem sequer há outras hipóteses de caminho. Ou aquela voz estridente a dizer: "é descida, cuidado, vamos desceeeeeer". Apre!!!! Como se a corrida fosse o local onde todos os homens e as mulheres são bons e se preocupam com o próximo. A terra prometida em calções de lycra. Nããã..., não creio. 


Fiz dois treinos com a organização da Corrida do Tejo (e que aconselho a participarem nos próximos anos se forem à Corrida do Tejo) irritei-me com os instrutores do aquecimento – fizeram-me lembrar aqueles vendedores de colchas das feiras portuguesas. E irritou-me as conversas dos parceiros que treinavam ao meu lado. Só falavam de corrida e mais corrida e mais corrida. Da sapatilha X ou Y que viram usar e que permite ultrapassar as lesões, do calção adelgaçante em desconto na Decathlon, da prova que vai acontecer em «Catrapumba de Baixo» e que o Tó Mané já ganhou ou do último modelo de buffs que usam enfiados na cabeça como se fosse um preservativo usado. 


Com este tipo de irritação na cabeça, e caro corredor, mais uma vez, a culpa não é sua, é inteiramente minha, percebi que a coisa, na Corrida do Tejo, ia correr mal. Meu dito, meu feito. Eu disse que sou um gajo teimoso!!! E apesar do ambiente da prova estar fantástico, da assistência estar ao rubro – nunca vi tanta gente a aplaudir -, da paisagem ser ma-ra-vi-lho-sa, perdi qualquer réstia de prazer na prova a partir do km 2. Acabou ali. O resto foi arrastar a falta de ego até à praia de Carcavelos. Não tivesse eu gente à minha espera na meta e ali, ainda antes de Paço D'Arcos, tinha voltado para trás.

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Já passaram por isso? Já tiveram esta sensação?


Na prova, linda como o é todos os anos, irritei-me comigo, esquecendo desta vez o pessoal da corrida. LOL. Irritou-me a minha fraqueza psicológica. Irritou-me mesmo muito. E de vez em quando ainda pensava: «corre gordo que assim ficas mais magro»; mas logo era assaltado pela ideia: «vou deixar de correr, vou deixar de participar em provas, isto não é para mim, onde é que está o prazer nisto?». É uma vergonha ter sido do Correr na Cidade e agora estar a andar a passo no meio da prova a ver passar por mim todas os outros, desde as pessoas que faziam um esforço terrível, aos tipos que me irritam. Até a uma senhora que de lenço na cabeça passou por mim a correr levemente e a sorrir e que me pareceu estar a recuperar de uma doença oncológica. Engoli em seco. E senti-me muito pequenino e mimado.

 

Com tudo isto a borbulhar na cabeça como se fosse uma pastilha de Gurosan, fiz o pior tempo de uma vida numa prova de 10K: 1h05m - e que ainda seria pior se o Tiago Portugal não puxasse por mim no último quilómetro. Terminei a prova, amarrei o burro, não aceitei a medalha de participação (achei que não a merecia) e lá me reencontrei comigo mesmo envolvido em 5 litros de suor que não teimavam em parar de me cair pelas costas. Ouvi umas palavras de incentivo e preocupação com os meus amigos que foram fazer a prova, mas tudo me soou como soa a professora do Charlie Brown! E sempre com a mesma ideia: onde está o prazer da corrida? Como é que tiro prazer disto? Como é que já fui um grande entusiasta e hoje em dia acho isto para outros.

 

Se era falta de forma? Não! Estou com três quilos a mais, não é por isso. E vi pessoas 20 anos mais velhas a passarem por mim como se estivessem na faixa da Via Verde. Está tudo na cabeça! Tudo. E, como veem, se deixarmos, ela prega-nos partidas valentes. 

 

E tal como há Halibut para a parte interna das minhas coxas que ainda estão maceradas depois dos 10 km na marginal, devia existir uma pomada para voltar a ter prazer na corrida.  Gostava tanto. E como me conheço isto ou vai ou racha. Ou reganho o prazer de correr muito em breve ou deito a toalha ao chão e desisto e dedico-me a outra coisa qualquer. Será que consigo dar a volta a este bloqueio mental e voltar a correr com prazer? 

 

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