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Correr na Cidade

Review: Puma Faas 500 TR v2 . Finalmente!!!

 

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Aqui no blogue, de vez em quando, acontece. Andarmos a remoer uma review semanas atrás de semanas. Umas vezes por falta de tempo, outras vezes por alguma preguiça - é sempre mais fácil correr do que escrever - ou então porque aquele modelo ficou marcado com algo de bom ou mau que se passou.


E foi o meu caso com estes Puma Faas 500 TR V2. Esta review devia ter sido feita em finais de março, início de abril do ano passado. Precisamente, depois do Ultra do Piódão que fiz com eles - distância e prova mais do que suficientes para vos dar feedback. Mas não. Foram ficando ali no canto da casa onde arrumo as sapatilhas. Olhava para eles constantemente mas como não podia correr em trilhos e as memórias das dores do Ultra ainda estão bem presentes, nunca mais consegui escrever sobre as sapatilhas. A culpa não é delas, claro, é minha. Mas a relação com este modelo é diferente. E explico melhor.

 

Durante os nove meses lesionado dei a maioria das sapatilhas que tinha em casa para os restantes membros da crew. Fiquei reduzido a 2 pares para trail e outros tantos para estrada. Eu sei, é um exagero e queixo-me de abundância, mas ao invés de ficar com todos os que nos fazem chegar para testar, preferi dar.

Não sei porquê, mas nunca consegui dar estes Puma. Era uma espécie de vingança, olhava para eles e pensava: “se eu não corro, vocês também não”. Ao mesmo tempo, e apesar da Ultra me ter ficado "atravessada", foi com eles (e com o Tiago Portugal) que percorri aqueles montes e vales. Hoje em dia essa prova é algo de que não me orgulho – aliás, desfiz-me de qualquer recordação da prova (tshirts, medalha, dorsal) – mas continuei a olhar para eles com algum “carinho” e a serem a única recordação da Ultra presente - isso e a memória das dores no joelho. 

Assim, nove meses depois treinei com eles, várias vezes, uma das quais pelos trilhos da Guarda. Fiz as pazes com ele, e agora, finalmente, escrevo esta review.

 

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CONFORTO

São confortáveis q.b.! Nada de exageros, mas também não são minimalistas. A sola é dura mas protege. Aliás, no modelo anterior, a versão 1, que tem praticamente a mesma sola, enfiei um prego e não chegou ao pé. A palmilha original é bem confortável. A única queixa que tenho foi ter perdido uma unha do pé e a culpa foi minha, ao fim de 53 kms os pés crescem mesmo e devia ter usado umas sapatilhas meio tamanho acima. Para quem faz isto “das ultras” sabe que uma única unha perdida não é nada, por isso, não posso penalizar as sapatilhas por isso. De resto, nada de bolhas, nada de desconfortos. Tantos nesses 53 km, como nos 30km em Sintra ou nos últimos 15km feitos no final de dezembro ou já este ano, por Monsanto, sempre me senti muito bem com eles. E tenho para mim que sapatilhas que não se sentem e não clamam a atenção do corredor, são as sapatilhas ideais.

 

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DESIGN/CONSTRUÇÃO

Adoro o design das sapatilhas. Acho que são das mais bonitas que andam por aí nos trilhos. Na cor que tenho, em encarnado e azul, são mesmo muito bonitas. Sei que a marca continua com o mesmo modelo nas próximas coleções, mas em cores diferentes. Este, a versão 2, é muito bem construído - apesar do upper – parte de cima da sapatilha – ser construída numa espécie de malha mas que nada tem a ver com os knit da Nike, Adidas e até de modelos da Puma. Apesar dessa construção nunca senti os pés mais molhados que em outros modelos, quando passei riachos ou quando chovia. A secagem, por causa do mesmo tecido, é relativamente rápida. Ao fim destes quilómetros todos ainda estão pouco deformados, mas sim, deformam um pouco, sobretudo na frente. Claro que há ali um apontamento ou outro de design que mudava. Mas quando encontrar as sapatilhas de trail perfeitas em termos de design, juro que aviso. Até lá, estas andam muito próximo disso.

 

ESTABILIDADE E ADERÊNCIA

Esta são duas das características mais importantes para as corridas em trilhos. Apesar de achar que este modelo é melhor para provas não muito técnicas, nunca me deixaram ficar mal. Tanto podem ser usadas em trilhos de terra batida ou daquelas descidas/subidas de pedra solta. O piso onde me parecem mais voláteis são nas pedras, sobretudo molhadas. Mas mesmo essa impressão desaparece quando a sola se gasta mais um pouco. Mesmo assim, confesso que umas escorregadelas iniciais fizeram-me ter algum medo. Tudo o resto, é sempre a abrir que esta sola, como já disse, não é para brincadeiras e leva tudo à frente. Em termos de estabilidade, são ténis de passada neutra e não comprometem nada, mesmo para pronadores como eu.

 

AMORTECIMENTO

Dentro destes parâmetros que avaliamos as sapatilhas, talvez seja a característica mais fraca deste modelo da Puma. São ténis duros, mas não incomodam pela sua rigidez.  Penso que são mais simpáticos para corredores leves, em forma e que não tenham grandes problemas com os joelhos. Alguém com excesso de peso pode sentir um pouco a dureza da sola que muitas das vezes é compensada pela excelente palmilha. Mesmo assim, sou da opinião, que corredores em inicio de aventuras no mundo da corrida podem usar este modelo experimentando-os aos poucos, até se habituarem. E dou-me a mim como exemplo, época festiva, uns 2 quilos a mais, ainda alguns problemas no joelho e fiz recentemente um trilho em que desci, desci, desci cerca de 1 hora – depois de ter passado hora e meia sempre a subir. E não senti nada de anormal com estes sapatilhas.

 

PREÇO:

Como indiquei anteriormente não existem nas lojas em Portugal. Mas podem ser compradas na loja online da Puma. No dia em que escrevi este texto, na primeira semana de janeiro, o modelo de inverno, que deve divergir um pouco do modelo primaveril que testei, estava a 65€ + portes. Uma pechincha. São sapatilhas muito boas e com este preço ficam quase irresistíveis, digo eu.

 

AVALIAÇÃO FINAL:

Em suma, são um dos grandes segredos em matéria de sapatilhas de trail. Poucos conhecem este modelo e mesmo a marca Puma não faz grande alarido à volta deles. Mas devia. São das melhores ofertas para fazer distâncias até 53 km (a distância que conheço) e tendo em conta preço/qualidade deviam ser vistos mais nos pés dos trail runners nacionais. Caso para dizer que a marca devia “acordar” para o excelente material que proporciona e que não dá a conhecer. Há vida para lá dos Ignite, ok?

 

Conforto 17/20

Design/Construção 19/20

Estabilidade/Aderência 17/20 

Amortecimento 17/20

Preço: 20/20

Total 90/100

 

E este é o aspeto das sapatilhas após mais de 160 kms:

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A outra banda!

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Por Filipe Gil


Faz no próximo dia 7 de junho três meses! Três “mesinhos”. É obra, não? Três meses de lesão, três loooongos meses em que não corro de jeito. Três meses de aprendizagem. Três meses que nunca mais esquecerei na minha ainda curta vida de corredor.

 

Ok, nestes três meses tive um treino de 30km e uma prova de 53km (a tal Ultra do Piódão). Mas tudo o resto se tem resumido a treinos de 6, 7 ou 10kms (duas vezes, no máximo). Treinos com dor no final e outros sem dor imediata mas com retroativos que surgem após umas horas. Ao mesmo tempo, o último mês foi a altura mais complicada da minha vida profissional: no espaço de apenas uma semana moderei (com rigor, isenção e brio) 6 debates, apresentei duas cerimónias de prémios, e fiz networking quase 24 horas por dia. E isto é apenas para vos contar as coisas menos chatas, porque detrás disto há muito trabalho de backoffice (desde regulamentos, a avaliação de candidaturas e, pasmem-se, duas revistas para fechar). That's life!.

 

Pensei que não ia aguentar, mas aguentei com rigor e tudo correu bem (esta é talvez a frase mais feminina que alguma vez escrevi aqui no blog). Ouvi muitos parabéns e felicitações, mesmo descontando as palmadinhas nas costas daqueles que têm medo que criem má imprensa ao dizer mal ou a apontar defeitos.

E todo este stress sem correr. Ou a correr muito pouco. Foi muito duro. E eu que adoro trabalhar (pensar) enquanto corro, e aí (e no duche) que tenho sempre as melhores ideias. Mas já passou e tudo correu melhor do que alguma vez havia corrido.

 

Isto tudo porque ainda ando com problemas no meu joelho direito, tal como os leitores mais assíduos sabem, eles que surgiram no dia 7 de março após um treino de 30km pelos trilhos de Sintra. E, claro, um pouco agravados pela insistência de fazer os 53km do Piódão, dos quais 44 foram com dor contínua. Já falei disso no meu texto sobre o Ultra do Piodão,onde relatei toda a verdade (ou se preferirem: toda a estupidez). Decidi contar tudo como aconteceu sem omitir nada.

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 A meio do treino de Sintra. O pior ainda estava para vir. Life's a Beach!

 

Todo o sangue, suor, lágrimas e anti-inflamatórios estiveram lá. E falo deste último ponto porque existiram leitores que tomaram aquelas linhas como um verdadeiro tratado à  ingestão de químicos para correr. Houve ainda que depois de uma segunda ou terceira leitura só à quarta perceberam que, afinal, aquele" malandro" estava a incentivar outros a tomarem anti-inflamatorios. Confesso que estou indeciso entre chamar-lhe iliteracia ou apenas...parvoíce.

 

Quantos há que o fazem mesmo e não dizem a ninguém, e depois relatam epopeias heróicas que fazem arrepiar até as pernas depiladas de quem os lê? Quantos há que não fazem umas “batotas” para terem mais endurance, força e resistência? É uma área cinzenta, não vou por aí. Quero acreditar que todas as performances que leio são fruto de muito treino e "stamina". Certo?!

 

Atenção, não me estou a queixar das críticas. Estou habituado, sou jornalista há 15 anos e se há profissão que tem culpa de tudo o que de mal acontece no mundo é esta. Aliás, prefiro uma boa crítica sustentada do que palmadinhas nas costas com medo da tal "má imprensa". Por isso critiquem à vontade, mas façam-me um favor, leiam bem e sustentem-na. Não sejam preconceituosos e não inventem o que não está escrito, nunca defendi o uso de anti-inflamatórios, nem nunca o farei. Apenas relatei o que aconteceu. Nú e crú. 

 

Mas para os interessados que ainda estão aí a ler este texto, aqui vai o ponto de situação da minha lesão. Sobretudo para aqueles que estão a passar o mesmo que eu e sabem bem e sentem na pele o que é não correr. E não é para terem peninha.

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É ali que dói.

Depois de várias tentativas de corrida, após períodos de descanso, e novas tentativas de corrida, onde ao final de 7/8km o joelho começava a doer, fui a um ortopedista habituado a desportistas e especialista em joelhos. Contei-lhe timidamente dos 53km ao que me disse: “Fez não fez? Então está feito, vamos lá tratar isso”. Gostei e confiei no senhor. 

Desfeitas as duvidas sobre eventuais problemas no menisco fiz uma ressonância magnética. Que, após uma semana e meia depois indicou o seguinte:

- Discreto síndrome da banda ilio-tibial
- Microquisto de Baker
- Sequelas de rotura parceria de LCP em grau 1 a 2, em 3.

 

Esta última lesão é graças a várias anos de jogar andebol a nível federado e ao facto de jogar na posição de pivot (a atacar, defendia a central) e, maioritariamente, rematar em queda por cima dos joelhos. Sim, havia joelheiras, mas que é que convence um puto de 17/18 anos a usá-las. Nessas idades somos todos imortais e invencíveis...

 

E pronto, vamos lá então curar esta síndrome chato que, mesmo assim, dando tanta chatice é “ligeiro” - devem estar a gozar comigo!!! 15 sessões de fisioterapia com ultra sons, laser, técnicas especiais (espero que sejam brandas) e massagem técnicas (medo!). Serão, no mínimo, cinco semanas de sessões. 

 

Vou fazer isto e pôr em prática toda a literatura e sapiência que ganhei sobre esta síndrome. E ainda vou continuar a fazer aquilo que nunca tinha feito em três anos de corrida e que comecei recentemente: reforço muscular. Sim, agora “meti” ginásio nisto da corrida. Trabalho para fortalecer o core e para reforçar as pernas para os trails e ultra trails futuros. Acho que só tenho a ganhar com isto. O dinheiro que gasto no health club, ou na ginástica como gosto de dizer, espero poupar na cura de lesões. Vou também continuar a fazer umas sessões de massagens e acunpuntura com a Dr.ª Sara Dias. Equipa que ganha não se mexe!

 

Com isto tudo, e sem correr, decidi por bem abdicar, com muito custo, da prova do Louzan Trail. Se no Piódão queria provar muita coisa a mim mesmo, nesta não. Estarei a terminar o tratamento nessa altura e não quero esperar muito mais tempo para voltar a correr a 100%. Ouvir o corpo é importante. E aprendi a lição – isso e fazer MESMO alongamentos. Vai ser muito chato porque é um running trip da crew daquelas que, certamente, deixará boas memórias.E se há coisa que gosto é ir com a minha familia/crew pelos caminhos de Portugal...


Entretanto, na semana passada fui a uma consulta antes de iniciar a fisioterapia. Já tinha o diagnóstico feito, mas como é "obrigatório" passar pela consulta lá fui novamente consultado e analisado. Por motivos de educação e respeito profissional não vou indicar o nome do médico, mas tive esta conversa:

 

O médico: "Então faz jogging, é?"
Eu: "Não. Eu corro. E maioritariamente em trail, ou seja, nos trilhos"
O médico: "hummm!

 

 Entretanto esteve a analisar o joelho. Pediu-me para saltar, para agachar e apalpou, esticou, encolheu, tocou. E disse o médico: "Tem flexibilidade a mais para o meu gosto. E tem os joelho laços".

 

Confesso que achava que era bom ter flexibilidade. Depois de me ver os joelhos disse-me:

"Não acho que seja da banda ilio-tibial, acho que há aí qualquer coisa dos tempo do andebol, mas tudo bem, vamos lá fazer isso". "Se não resultar, já sabe: o Cristiano Ronaldo também vai abandonar a carreira aos 35...Olhe, dedique-se à bicicleta".

 

Saí de lá com uma daquelas raivas...e passadas umas horas fui correr para Monsanto com o meu amigo Tiago Portugal. O treino correu bem e sem dores. Eu acredito na minha recuperação e que só irei fazer bicicleta como metodologia de treino.

 

Aos leitores que começam agora a ter as suas primeiras lesões, aconselho-vos seriamente a irem sempre a médicos ortopedistas, ou de outra especialidade, ligados aos desporto. Tudo o resto acha isto tudo da corrida uma pavoíce. Será inveja?

 

Boa corridas.

 

 

Sou Ultra Maratonista (a conclusão)

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Por Filipe Gil:

 

Uma vez nos 25km, e a sensivelmente meia da prova, rejuvenesci. Mal sabia eu que o pior estava mesmo para vir. Do último abastecimento até ao seguinte, nos 31 quilómetros, o meu joelho piorou bastante. Ainda corri no estradão, e quando este ficou plano voltei a sorrir com os pés. Mas depois veio uma descida manhosa em que conseguia ter a velocidade de uma octogenária. Doeu muito, muito, muito. Quando a descida acalmou e já a andar a direito, sem desnível, o meu joelho continuou a doer. E falhou por duas vezes. De  um momento para o outro, ia caindo duas vezes…a andar. Preocupante. E ali estive mesmo à beira de desistir.


Pensei que estava a arranjar um problema muito grande e que entre a vergonha de não ter terminado e uma ida à faca e uns meses de muletas sem correr, conseguiria suportar melhor a vergonha. Até o Tiago olhou para mim e disse: “Se achas que não consegues, mais vale terminares por aqui”.

 

Segui e cheguei ao abastecimento dos 31km, “o abastecimento das bifanas” e encontrei o Nuno Alves e o Nuno Espadinha prestes a arrancar. Deu-me ânimo, mais uma vez. Eles não estavam a 100% mas eu estava bem pior. Sentei-me, pedi para o Espadinha me ajudar num alongamento e a perna melhorou um pouco. Mas já doía também a subir. Bebi mais Coca-Cola, fingi que comia uma bifana, enchi a boca de batatas fritas e laranja e segui. O Tiago Portugal olhou para mim e disse: “a próxima subida é a mais difícil de todas. O ano passado tive de parar uma série de vezes, vamos?”. Suspirei e anuiu com a cabeça.  

 

Na subida parei entre 5 a 10 vezes. Perdi a conta. Não porque o joelho me doesse – claro que doía – mas era o cansaço. São cerca de 400 metros a subir e é tal a inclinação que levei uns 40 minutos a fazê-la. Aqui decidi tomar um Voltaren para as dores (já tinha tomado um de manhã, antes da prova). Encontrei o Eduardo Pinto a meio da subida que aproveitou e tirou a foto abaixo – que me diz muito. Eu a olhar para o cume da serra, de mãos nas ancas. Nesta subida pensei que nunca mais iria fazer aquela prova novamente, que é muito dura para a minha preparação, que era uma verdadeira estupidez. Claro, ao chegar ao topo me esqueci-me disto tudo e tive pressa de tentar começar a correr -  tanto quanto o meu joelho deixasse. Nessa altura já com 34 a 35 km nas pernas, bati o meu recorde de distância (que vinha dos 33km da Louzan). Em vez de desistir pensei que, pelo menos faço os 42 kms da Maratona, e depois logo se vê.

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Então começamos a descer e a dor mais aguda a voltar. Contudo, ao longe vi o Nuno Espadinha e o Nuno Alves, o terreno começou a ficar um pedaço plano e aí acho que fiz o meu kms mais rápido a cerca de 5/20 minutos/km. Nada mau para quem estava com o “joelho ao peito”.

 

Apanhamos os Nunos no abastecimento seguinte. Ou melhor, eles esperaram um pouco por nós. Daí até ao km 40 fomos os 4. Foi bom, na palhaçada, a tentar correr, a trote, a andar, a cantar, etc.. Eu olhava para os bastões do Alves e mordia-me de inveja. Talvez com eles, teria menos dor e melhor suporte. Mas ainda não foi aqui que senti mesmo a falta, foram uns kms mais à frente.

 

Chegados ao km 40, faltavam 10 para acabar. Senti que já ninguém me tirava o “título” de Ultra. Mais Coca-Cola. Mais um SMS para casa a dizer, “estou nos 40km, já só faltam 10, estou bem! Bjos”. Mais batatas fritas e mais laranja. Depois dessa subida começamos a descer até deparar com uma descida de pedra solta, muito inclinada. Fiquei parado a olhar lá para baixo. Aqui foi uma das partes que mais me custou. Se tivesse bem, teria feito aquilo “a abrir” como estava com o joelho muito massacrado, demorei uns 10 minutos, ou mais.

Nunca desejei tanto ter bastões para usar. Foi muito penoso. Mais lágrimas de dor na cara. A dúvida de terminar voltou ali mesmo. Outros corredores passavam por mim e perguntavam ser eram caibras. Se precisava de alguma coisa. Lembro-me de uma corredora, vestida de amarelo que com a sua voz rouca me disse: “inclina o corpo para a frente e deixa-te ir”, enquanto me deixou a respirar o pó da sua passagem. Fiquei irritado!!

“Menina, eu sei correr, e descer é uma das coisas que faço melhor, inclinar o corpo…bonito, como se eu não soubesse”, pensei enquanto me contorcia de dores. Ela não teve culpa, a minha figura geriátrica prestava--se a esses comentários. Parecia aqueles corredores que nunca correram muito e tentam logo fazer Ultra, “à campeão” e a meio dão “o berro”, para não utilizar uma expressão mais gástrica.

“Não, minha cara menina, eu sou runner e prestes a ser ultra runner. Viste o meu boné  Dirtbag Runner, faço Ultras antes de tomares o pequeno-almoço”. Esta irritação distrai-me com estes pensamentos parvos e deu-me forças para continuar a correr. Passei a marca da maratona e comecei a ganhar algum respeito por mim. Mais à frente o Tiago dizia-me, “já estamos nos 46km, já és ultra maratonista”. Eu sorria, mas sabia que só o seria ao chegar ao Inatel do Piódão – a meta da prova.

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Entretanto o relógio dizia 48km e a meta parecia ainda longe. Aqui estávamos a correr em plano. Sim, leram bem, a correr. Corríamos 2 a 3 minutos, e parávamos 30 segundos. O cansaço da dor fazia a sua mossa, mas o resto do corpo estava estupidamente bem. Ao fundo via o Eduardo Pinto a correr, o Nuno Alves e o Nuno Espadinha como pontinhos no horizonte. Olhámos para trás para ver se a Rute e a Bo vinham por ali, mas nada.

 

As coisas estavam-se a compor. O Pedro Luís liga-nos, goza comigo, no seu estilo muito próprio. O Tiago diz-lhe que o meu joelho já era, e que só conseguia correr a direito. Entretanto começamos a descer. O Tiago avisou que ainda existia mais  um posto de abastecimento. Acho que ele está a gozar comigo, o meu GPS marca 49 quilómetros, o hotel da Inatel nem à vista ainda estava. Aqui irritei-me, cheguei a falar alto com o Tiago: “Achas que estou a fingir? Achas que estou a ser maricas!?”-  Desculpa Tiago, foram as dores. Se eu não descarregasse em ti, não o podia fazer com mais ninguém.

 

Descemos com dificuldade, eu, ele estava bem, e fomos ultrapassados por mais corredores, uns com mais 20 quilos que eu….em cada perna. Via o Tiago a fechar os olhos de frustração. Senti-me mal. Mas estava a pensar só em mim e no meu joelho. Terminada a descida…nova descida, em caminhos de cabras. Tivesse eu bem e tinha voado por ali com um sorriso nos lábios. Mas fiz aquela última descida da prova de novo com lágrimas nos olhos. O joelho estava mesmo a ceder. Cheguei ao último abastecimento, onde só comi uma laranja, e queria acabar o mais rápido possível. E começava a anoitecer.


Depois do abastecimento e mesmo só a caminhar o meu joelho volta a ceder. Doía tudo, mal me conseguia mexer. Não estava a acreditar que ainda faltavam 3 quilómetros, afinal os 50km passaram a 53km, e ia ficar por ali. Como é que eu diria em casa que não conseguia fazer aqueles kms finais de subida, como iria dizer aos amigos: “berrei a 3 kms do final”. Era uma história dramática de mais para o meu gosto.

 

Ainda pensei pedir ao Tiago para me ir buscar uns bastões algures – e que falta me fizeram! Mas preferi pedir-lhe um Brufen. Comprimido tomado e passados uns minutos a dor amainou. Pude caminhar sem muita dor, o que já não acontecia há mais de 20 minutos. Começou a escurecer, e durante cerca de 1,5km um morcego juntou-se a nós. Voava ao nosso lado com aquele voo nervoso típico dos morcegos. Escurecia ainda mais, mas optamos por não usar frontal. O desejo do Tiago era chegar de dia, o que não foi possível, mas ao menos ninguém nos iria ver de luz na cabeça!

 

Chegamos finalmente à Aldeia do Piódão, faltava uma subida tramada de escadas e inclinações para a meta. Feita a muito, muito custo. Nem me lembro de respirar nessa parte. Chegados ao hotel, olhei para o Tiago para vir comigo, mas ele disse-me para ir sozinho e gozar o momento. Passei o pórtico. Parei vi o Pedro Tomás a vir ter comigo e desatei a chorar. A dor era muita, mas ter passado 8 horas com dores agudas num joelho foi uma conquista tremenda. Masoquismo? Talvez. Mas resiliência, determinação, teimosia, e força de querer, sobretudo.

Finalmente tinha provado a mim próprio que conseguia fazer um feito na corrida, mesmo com muita adversidade. Há muitos corredores, e ainda bem, mas não há muita gente a correr esta distância. Já podia dizer à minha mulher e filhos, e amigos e colegas que tinha corrido 53km. Foram 10h30m. Sei que podia ter feito menos 1 hora, talvez, se estivesse bem, mas isso fica para o próximo ano. Entretanto chegavam a Bo e a Rute. Que campeãs! Sempre no seu ritmo.


Vesti o corta-vento, sorvi duas canjas e liguei para a Natália. Mal conseguia falar de emoção, ela do outro lado preocupada, eu sem conseguir falar. Recompus-me e contei a experiência. Ela estava orgulhosa, e contente, mas preocupada. Disse-me logo que tinha arranjado o contacto de um dos melhores ortopedistas para ver o meu joelho. Depois da conversa para matar saudades, juntei-me aos amigos e celebramos.

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No quarto do hotel, despi-me e fiquei a olhar para os ténis durante um par de minutos. Companheiros fiéis de 53kms sofridos. Sem grandes mazelas nos pés. Nada de fascites, nada de bolhas. Impecáveis. Que jornada. Não sou agarrado a objetos, mas não pude deixar de olhar para eles com emoção. Mas sou despegado, vão agora ajudar o Stefan Pequito nos seus kms do MIUT2015. Estes sapatos foram feitos para andar e não para estarem parados.


Depois tivemos direito a uma massagem pelo Pedro Luís, que devia profissionalizar-se e ganhar dinheiro com isso. Brutal. Juntamo-nos no hotel e jantamos todos juntos, bebemos muita cerveja, e às 22h30m já estava na cama a tentar dormir. Estava exausto, mas com um sorriso na cara.

Hoje, terça-feira, as dores no joelho continuam, sobretudo a descer escadas, mas, dois dias depois o sorriso interno de ser ultra maratonista ainda persiste e vai continuar por algum tempo. Na segunda-feira, ontem,  fui visitar a Drª. Sara Dias ao Espaço Saúde de Corpo e Alma e começámos o tratamento de recuperação do meu joelho.

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Vai demorar, se calhar vou ter que visitá-la mais umas três vezes, mas já sinto melhoras. Devo estar duas semanas sem correr, se tudo correr bem, mas acho que valeu a pena. Fazer uma ultra, e com dor, é muito mental. Foi uma espécie de via sacra que me fez crescer como pessoa. Fiquei apaixonado pela distância dos 50km. Talvez volte um dia ao Piódão e tente fazer a corrida sem dor.  Talvez.

AGRADECIMENTOS

O primeiro para a minha família. Mulher, filhos, mãe, sogros, irmã e cunhado. Sem eles não tinha conseguido ter tempo para preparar isto. Em segundo lugar para o Tiago Portugal que me aturou durante os 53km. Abdicou da sua corrida para me ajudar. Dificilmente tinha terminado se não tivesse a sua companhia dele por perto. Duas vezes vasilei e a presença dele foi importante.

Os amigos e à crew, principalmente aqueles com quem treinei mais nos meses de preparação, o Nuno Malcata, o Nuno Espadinha, o Rui Alves Pinto – espero não me estar a esquecer de ninguém. Um abraço especial ao Pedro Luís, que me ajudou fantasticamente no final da prova. Um luxo!

E à restante crew&friends que me deram conselhos e que seguiram a prova de longe. Somos mesmo uma família! Agradecer também ao Filipe Semedo e à sua marca Puma por terem acreditado num corredor amador, muito amador, e me terem permitido testar material de primeira qualidade.

 

Os próximos objetivos já estão a ser delineados na minha cabeça, já cá andam. Esta viagem e estas crónicas terminam aqui.  Agora vou continuar a fechar os olhos de vez em quando e continuar a ver-me passar a meta do Piódão.

Sou Ultra Trail Runner, porra!

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Ler a 1ª parte desta crónica

Crónica X: Nunca tiveram medo de correr?

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Por Filipe Gil

 

Isto não anda bem! Se me perguntassem qual das piores coisas que me podia acontecer na preparação para o Ultra do Piódão, responderia imediatamente que era uma lesão. Uma daquelas impeditivas que até me faria desistir da viagem e provavelmente não arredaria pé de Lisboa.

Felizmente – e vou bater na madeira três vezes – não foi isso que aconteceu. Mas as coisas não andam bem. Sobretudo com o meu joelho direito. Quem tem lido estas minhas crónicas já deve ter percebido que na da semana passada vos escrevi sobre uma dor que surgiu no treino longo que fiz em Sintra, perto do quilómetro 30, e que repetiu a mesma sensação que tive ao quilómetro 30 no Louzan Trail e que me fez descer muuuuuito devagar por causa das dores.
Ora bem, depois desse domingo, fiz um treino no Jamor e à mínima subida oudescida, a dor voltou a surgir. Decidi descansar até ao treino THE PACK na passada quinta-feira.

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Os primeiros quilómetros de treino correram muito bem, no THE PACK. Apesar do ritmo não ter sido estonteante, fui correndo bem. Ora mais à frente, ora mais atrás quando me “relembrava” que estava ali para guiar o treino e não para curtir, apenas.

Às tantas começo a sentir uma pressão e impressão na tal parte do joelho direito. Uns quilómetros mais – o treino teve muitas subidas técnicas – comecei a ter dores valentes. Tantas que tive de parar. Acabei o treino mais cedo, encurtei a distância e na companhia do Nuno Malcata fiz o resto do percurso a andar e a correr – sim, porque em terreno plano a dor não surge. Aliás, houve uma altura em que estava bem “solto” e a ganhar ritmo.

Fiquei assustado, e durante sexta, sábado e domingo não me mexi. Podia tê-lo feito, nem que fosse por hora a hora e meia. Mas confesso que ando “borrado de medo” de ter uma lesão do tipo das que falei no início desta crónica. Muito medo. E com isso perdi, por dias, a vontade de correr. Estou a falar a sério. Durante o fim-de-semana a minha mulher até me perguntou se não ia correr. Eu respondi que não, não me apetecia…por cauda do joelho. Era isso, mas não só. O prazer de correr esteve ausente durante uns dias, e confesso que até hoje ainda não voltou.

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Entretanto marquei consulta para a passada segunda-feira, mas que teve de ser adiada por motivos pessoais. Não sei o que se passa com o meu joelho. Falei com o Stefan Pequito que me indicou que poderá ser o facto de usar palmilhas duras para pronação nos trilhos, e com a natural e necessária rotação do joelho nos trilhos, o facto de haver aquela barreira não está a ajudar o joelho no seu movimento natural. O facto é que este é o meu pé menos pronador. Não sei se não devo abdicar do uso das palmilhas nos trilhos. Assim, estou a pensar seriamente usar os Puma Faas 500 TR sem palmilhas da IronMan para pronadores. Cómodos eles são. 

Mas na passada segunda-feira, sem ida à consulta,  aproveitei e fiz um ligeiro treino, e coloquei a mesma subida no Jamor que me tinha doído oito dias antes. Resultado: não doeu. Não senti nada no joelho. Mas voltei a parar depois de 4 quilómetros. Voltei a andar durante um pedaço, sem vontade de correr. A fazer frete. E a crescer em mim um sentimento que vou ao Piódão fazer nada. Que vou desiludir amigos, a família, a marca que me apoiou, etc.

 

No início desta preparação estava com força e muitas dúvidas. A meio e até há cerca de duas semanas tinha a certeza que estava em forma para fazer uns 50 quilómetros sofridos, mas, mesmo assim confortáveis. Agora, o sentimento ronda os pensamentos de “o que vou lá fazer?”; ou “vou atrasar o pessoal com a minha má preparação física”; “porque é que me meti nisto”; “odeio correr tão mal”. And so on….

Não será que vou fazer uns bons 30 quilómetros e depois chego aquele ponto, dos 30K, e fico por ali?

 

Esta semana vou ter dois treinos mais longos – nunca ultrapassando os 20km  - e serão decisivos para perceber se este joelho volta a chatear para o Piódão. Se devo colocar bandas de kinésio, se devo levar comprimidos de anti inflamatório para a prova. Etc. Mas sobretudo, serão decisivos para vencer este medo de correr, medo de falhar, este medo puro do "estou quase a ser bom" mas fico-me pelo quase e nunca sou bom em corrida nenhuma....

Contudo, sei de um truque para acabar este "RunnersBlues", se resultar conto-vos na próxima semana. Até lá!

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