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Correr na Cidade

"Não se devia realizar uma maratona sem o acompanhamento adequado" - entrevista a Arnaldo Abrantes

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Quem segue estas "coisas" do atletismo e da corrida sabem bem que é Arnaldo Abrantes, atleta de velocidade (100 metros, 200 metros e estafetas 4X100 metros) que já participou em dois Jogos Olímpicos (Londres e Pequim) - e que prepara a ida ao Rio de Janeiro - e que já foi atleta do Sporting e agora é do Benfica. 

Tenho eu a sorte de o ter como meu médico de família. Eu, que odeio ir ao médico, passei a gostar porque aproveitamos a conversa e falamos de corrida. Na minha última consulta de rotina, recentemente, o meu médico, o atleta Arnaldo Abrantes falou-me do seu projeto novo, uma clínica médica e desportiva que aplica a filosofia multidisciplinar da alta competição para os atletas amadores. De corrida e não só. Não resisti e quis saber mais, combinei uma visita ao espaço, a Athletika, para o entrevistar. E tentar saber algumas dicas destes atletas de alta de competição que nos possam ajudar, a nós, atletas amadores. A ler, com atenção:

 

Quando é que a Athletika abriu?
Abrimos no dia 4 de janeiro deste ano.

Quem está por detrás da Athletika?
São pessoas que já se conhecem há muitos anos. Eu, o Ricardo Paulino, fisioterapeuta e o Ricardo Antunes que é o ortopedista aqui na clínica. Temos uma amizade de alguns anos e já partilhamos muitos momentos ligados ao desporto de alta competição. Com a minha entrada na especialidade começámos a falar sobre um projeto diferente que passasse os valores da alta competição para os atletas amadores e para o desporto em geral.

Atualmente, o desporto dito amador está cada vez mais profissional. As pessoas gostam de treinar cada vez mais vezes e gostam de se desafiar e de bater recordes. Por vezes utilizam modelos de treino de alta competição mas não têm o mesmo apoio e suporte que os atletas de alta competição, sobretudo a nível de acompanhamento na recuperação, de nutrição ou acompanhamento médico. E aí surge este projeto e, para já, estamos a ter bons resultados.

Especializam-se nesta tipologia do corredor amador com um nível mais exigente, ou dão consultas a todos?
Damos consultas a todos. E dou o exemplo: temos uma consulta para promover a atividade física a pessoas sedentárias que querem começar a fazer exercício com benefícios para a saúde, ou pessoas com hipertensão ou diabetes e que querem praticar exercício físico de um modo seguro. Depois temos pessoas com patologias que não são relacionadas com desporto, como lombalgias, torcicolos e que vêm ter connosco para as massagens. E ainda temos os que esporadicamente fazem atividade física. Não estamos só focados na corrida, temos também pessoas do BTT, do futebol, de CrossFit, de trail, de ténis, etc. E temos atletas de elite, como o Nélson Évora. Contudo, temos muita experiência no atletismo, é por assim dizer “a nossa praia”.Fotonelson.png

Gostam de seguir uma própria metodologia ou cada caso é um caso?
A nossa filosofia tem sobretudo a ver com o trabalho em equipa multidisciplinar. É possível alguém com dor muscular ir diretamente à massagem, e nessa massagem existir uma dor sobre o qual o massagista tem dúvidas. Nesse caso, e se possível, vai logo falar com fisioterapeuta que avalia a situação para saber se o massagista pode prosseguir ou não. É uma avaliação rápida e gratuita, mas faz parte da nossa filosofia de oferecer a melhor qualidade de serviço ao nosso cliente.Também já nos aconteceu o fisioterapeuta receber um atleta e após o exame objectivo que realizou sentir necessidade de ter uma opinião médica. Assim foi o próprio a falar com o médico e após discussão clínica do caso foi decidido a realização de um exame complementar de diagnóstico, que foi prescrito sem haver uma consulta ou custo adicional. É tal como se faz na alta competição. Para além disso temos parceiros externos, escolhidos tendo em conta esta filosofia. Por exemplo em saúde oral temos parceria com a All Family Dental Clinic. E são parcerias feitas com muito cuidado com profissionais que não inventam patologias quando estas não existem. Outro exemplo é o de não gostarmos de vender 10 ou 20 sessões de fisioterapia. Gostamos de avaliar sessão a sessão e se for necessária só 1 sessão de fisioterapia, melhor para o cliente! Essa é a nossa filosofia.

Os atletas de alta competição têm acompanhamento regular. Que tipo de acompanhamento e que prevenção devem ter os atletas amadores? Exemplo, que corre três vezes por semana e que faz uma prova fim-de-semana sim, fim-de-semana não?
Cada caso é um caso, cada pessoa tem as suas características e depende das patologias de cada pessoa, se por exemplo tem dores frequentes na fáscia plantar ou se tem uma perna maior que outra. Idealmente deve ser feita uma avaliação prévia. No caso daqueles que não têm dor, que não sofrem de patologias aconselhamos as massagens desportivas para recuperação muscular, que é o básico, porque a treinar vai-se fazendo esforços. O que é o treino? É criar pequeníssimas micro ruturas para que o corpo quando descansa, possa regenerar e ficar mais forte. É necessário criar algum stress ao corpo mas não pode ser demasiado senão faz a lesão. Uma consulta médica de seis em seis meses também poderá ser importante para alguns atletas mais dedicados. A maioria dos atletas amadores são pessoas que trabalham e que por vezes descansam pouco, e outras tantas comem mal. Ora esses atletas podem estar a fazer treinos com anemia ou com algum desequilíbrio nutricional. Por isso, e depende muito dos objetivos, aconselho as massagens de quinze em quinze dias ou, se não puder, pelo menos uma vez por mês, para além de uma consulta médica regular, de seis em seis meses.

 

Há muitos corredores amadores cujos objetivos passam por correr longas distâncias. Vocês também fazem a preparação para uma Maratona a um atleta amador? Alguém que chegue agora ao pé de vós e peça para o preparar para a Maratona de Outubro, é possível?
Fazer uma maratona é um esforço muito grande. Não se devia realizar uma maratona sem o acompanhamento adequado. Algo que está muito em voga agora é a automedicação de anti inflamatórios antes das provas, para os atletas não sentirem dor e fadiga. Isto é um perigo!!! Um atleta vai fazer um grande esforço, vai perder água, e os rins têm de compensar, com o agravar de muitas vezes as provas serem realizadas com muito calor, que juntamente com a toma um anti inflamatório pode provocar uma insuficiência renal aguda. Os atletas tendem ouvir conselhos dos amigos dos amigos ou vão à procura de informação no Google, isso preocupam-nos. A Maratona, tal como os trails longos e os Iron Man devem ser idealmente feitos com acompanhamento médico.Foto - Fisioterapia.png

Em termos de preços, as consultas na Athletika são acessíveis?
Precisamos sempre de avaliar caso a caso para saber que tipo de consultas ou tratamentos iremos realizar, mas, claro, temos preços fixos. Mas posso dizer que temos preços ligeiramente mais baixos à nossa concorrência. Criamos diversos packs, e por exemplo, uma massagem que custa 35 euros por 1 hora, tem 10% de desconto na compra de um pack de 4 massagens. Ou 20% se comprar 8 massagens, chegando aos 30% se comprarem 12 massagens.

E têm algum serviço inovador e diferente?
Temos um serviço de avaliação biomecânica para analisar a técnica de corrida, como amplitude da passada, postura, desequilíbrios, etc. O que é muito útil para a prevenção de lesões. Fazemos o teste em pista ou em passadeira, filmamos de vários ângulos e depois a equipa toda analisa e prepara um relatório. Os ganhos desta análise são muito bons. Por exemplo, numa maratona se ganharmos um centímetro em cada passada o ganho é enorme ao fim das milhares de passadas que damos ao longo de 42 quilómetros.

 

 

 

 

Celebrar as mulheres que correm


E este sábado realizou-se mais um treino Just Girls, organizado pela crew do Correr na Cidade. Evento que, tal como indicámos aqui anteriormente, teve ligações internacionais ao Internacional Women's Day Run onde várias crews de corrida organizaram treinos para mulheres em várias cidade do globo. O nosso treino representou Lisboa e Portugal. 

 

Descrevendo o Just Girls, o 4ª treino nestes moldes (o 1º realizou-se em junho de 2013)  só existe uma palavra: fantástico! Foram 60 mulheres de vários pontos do Barreiro a Massamá, até de Santarém que vieram treinar connosco, com a simpática e sempre disponível Katarina Larsson (atleta do Sporting Clube de Portugal) e com a Sofia Simões da Compressport, que deu o aquecimento e uma aula de fortalecimento do core no final.

Algumas mulheres fizeram caminhada, outras correram 5K e outras 10K, mas o sucesso deveu-se, sobretudo à partilha de experiências e à identificação entre as corredoras, mais ou menos experientes. Foi mesmo fantástico, não é exagero.

 

Para este treino tivemos a ajuda de dois fotógrafos profissionais, um deles faz parte da nossa Crew, o Nuno Ferreira (que inclusive trouxe a sua mulher desde Santarém para correr). As fotos que se seguem (e a do topo deste post) são da autoria, e para conhecerem melhor o seu trabalho basta visitarem a sua página profissional aqui.  Sobre o outro fotógrafo, o Bruno Veiga, falaremos noutro post com as fotos de sua autoria e onde iremos falar do treino com mais detalhe e, não menos importante, das empresas que apoiarem este 4º Just Girls. Voltando às fotos (as do Nuno) publicamos neste post algumas mas se clicarem aqui podem ver muitas mais. 

 

Celebrou-se o Dia Internacional da Mulher e celebrou-se o bem-estar, a saúde e a actividade física. Ou seja, a manhã perfeita de um sábado a cheirar a primavera.

 

 

 

SS de Lisboa 2013 – Race Report: o regresso às corridas

Por Filipe Gil:Vou escrever quebrando as regras jornalísticas e começar pelo menos interessante: a minha lesão. Quem estiver farto de ler sobre este assunto, pode passar umas linhas à frente.Este sábado acordei sem dores, mas com a consciência que a lesão ainda não passou. Com medo de ter de desistir durante a São Silvestre de Lisboa decidi tomar um Voltaren. Antes da prova aqueci bastante o pé (e o resto). Saltei com a ponta dos pés, rodei o pé, e nada de dores. Estava pronto. Os restantes 10K foram feitos sem puxar muito pela má forma física acrescentando três sustos: torci (sem torcer) o pé lesionado por três vezes graças aos buracos no chão da Baixa Lisboeta –apesar de estar muito atento ao que pisava.Apenas no final, na descida do Marquês de Pombal para a linha de meta senti uma pequena impressão no calcanhar e uma dor leve na parte de trás do joelho. Alguma coisa deve estar ligada entre estas duas dores. É uma dor que já tive mais vezes e que sempre liguei com mazelas antigas dos tempos de andebol federado. Talvez tenha de ver isto melhor.20131229-021925.jpgE pronto, se resistiu até aqui, não vai deixar de ler o resto, agora sim, a race report da São Silvestre de Lisboa, edição 2013. Graças aos convites do El Corte Inglés, tive acesso à zona VIP. Não que ligue muito a essas coisas mas é sempre confortável ter comida e bebida à descrição, wc e bengaleiro sem grandes filas. O El Corte Inglés e a HMS sabem mimar quem convida para essa zona. Mas se estive 10 minutos por lá, foi muito, foi o tempo de, juntamente com a minha mulher, comermos uma banana. Depois fomos para a zona sub-60. Entretanto, fui trocando SMS com os restantes corredores da Running Crew que estavam espalhados pelas várias boxes de partida, sem me conseguir encontrar com eles. Aqui um agradecimento especial quer à Garmin quer à Vitalis pelos convites que nos ofereceram e que “espalhei pela equipa e outros convidados deste blog”.20131229-021917.jpgContudo, um dos corredores estava atrasado e bem atrasado – pelas 17h ainda estava pela zona de Benfica/Damaia e ainda tinha que trocar de roupa e encontrar lugar para estacionar o carro na zona do Marquês. Ao telefone decidi deixar o dorsal debaixo de um dos WC’s portáteis do evento (orginal q.b.) . Na esperança que ele chegasse a tempo da partida – coisa que não acreditei.20131229-022316.jpgComecei a correr lado a lado com a Natália (minha mulher), embora tivéssemos combinado não correr juntos. Cada um ia por si e no final encontravamo-nos na tal tenda VIP – a probabilidade de eu desistir com a lesão era muita. Mas lá fomos e seguimos juntos, inadvertidamente, até ao km 4, quando ela me disse: “Vai”. E como as mulheres mandam (quase sempre) lá fui e acelerei um pedaço. Estava a sentir-me bem. O pé, apesar de um ligeiro formigueiro, não manifestava qualquer dor.Depois de fazer a curva de regresso ao centro da cidade, ouvi chamarem por mim. Não é que o Nuno Espadinha tinha conseguido dar com o tal WC e encontrou o seu dorsal?? E já estava a escassos mil metros atrás de mim. Confesso que fiquei surpreso e contente.Continuei tranquilamente num ritmo 5:15 a 5:20 por km. Passei pelo empedrado da nova zona ribeirinha depois do Cais do Sodré e relembrei a Night Run e o mesmo percurso. E, de repente, uma espécie de epifania, lembrei-me de como me doeu a planta do pé nesse tipo de piso. E recordei que a minha lesão já anda aqui há uns meses largos. Confesso que fiquei com medo de ter dores no mesmo local da prova mas os ténis que desta vez levei (Adistar Boost) em conjunto com as palmilhas Ironman para pronadores fizeram muito bem o seu papel e protegeram-me. Nada de dor.20131229-022149.jpgDepois disto começaram as subidas. No Terreiro do Paço quase torci o pé, o mesmo aconteceu na curva da Praça da Figueira e em pleno Rossio. Não evitei o palavrão em voz alta. Continuei no meu ritmo e enfrentei a subida da Avenida da Liberdade com otimismo. Sabia que ia custar mas o que custa mesmo é estar parado sem correr durante semanas. Fiz-me um homem e continuei a acelerar e a ultrapassar corredores – sem entrar em loucuras.20131229-022142.jpgFeita a rotunda do Marquês de Pombal e foi hora de acelerar. Este último km foi feito com uma média de 4:34/km. Mas foi aqui que senti as tais dores no calcanhar e na perna. Tentei abstrair-me da sensação, concentrei-me na descida. Contudo olhei para o Garmin (110) e percebi que não ia fazer abaixo do tempo do ano passado (52 minutos) mas não desanimei e terminei a prova com 54:27. Não foi mau. Podia nem sequer ter terminado, podia ter tido dores, e as coisas podiam ter corrido mal. Fiquei contente.20131229-022210.jpgMal passei a meta fiquei à espera da minha mulher que tinha deixado para trás ao km 4, sensivelmente. Entretanto chega o Nuno Espadinha, que fez uma prova de, basicamente, 11K, se acrescentar a distância extra feita a correr entre o carro estacionado e a partida da São Silvestre. No cronómetro oficial passava da hora de corrida e comecei a ficar relativamente preocupado por não ver a Natália. Tinha-me dito, antes de correr, que não se sentia bem - coisas de senhoras – e fiquei a pensar que poderia ter claudicado na subida da Avenida da Liberdade. Eis senão quando recebo um SMS a dizer: “Estou na tenda VIP à tua espera, onde andas?”. Ou seja, terminou cerca de 1 minuto e 20 segundos atrás de mim, batendo, mais uma vez o seu recorde pessoal da distância. Fantástico! Não tarda mesmo nada e está a fazer os mesmo tempos que eu. Que orgulho.Nota final para a organização. Impecável!! Desde a apresentação dos atletas profissionais ao estilo americano, ao percurso (apenas se devia evitar a Rua do Arsenal por causa do piso), aos abastecimentos, etc. A HMS está de parabéns, a São Silvestre de Lisboa é a melhor prova noturna desta cidade, sem dúvida. E é fantástico correr em Lisboa com luzes de Natal. Quantos aos vencedores oficiais, nesta altura já todos sabem quem são. Para mim são uma inspiração!20131229-022159.jpgQueria aproveitar e agradecer também o apoio do Stefan (que fez uns fantásticos 38 minutos), do Tiago Portugal (abaixo dos 49 minutos), do Nuno Espadinha (que anda às turras com o seu Endomondo para tentar perceber o tempo real que fez), da Carmo Moser (que fez 44 minutos lesionada), para além de outros membros da Running Crew que não puderam vir a esta prova, a sua preocupação com a minha lesão.Quanto a mim e à hora que escrevo este post o efeito do Voltaren já passou e continuo sem dores. Será que a lesão está mesmo a terminar? Os próximos dias, sem corrida serão importantes para que 2014 comece da melhor maneira, no que respeita a corridas. Afinal, gostava que esse fosse o ano da estreia na Maratona.
20131229-022222.jpgSó para ser piroso e mostrar que aparecemos em director na transmissão televisiva de A BOLA TV
 

Inscrições abertas para a 3ª Corrida do Sporting

2196116_orig No próximo dia 1 de Dezembro realiza-se, em Lisboa, a 3ª edição da Corrida Sporting, uma organização do Sporting Clube de Portugal e da Xistarca.Do programa apresentado sabemos que existirá a corrida principal, de 10K, e uma caminhada não competitiva com a distância de 4K. Ambas as provas têm partida – e chegada – no Estádio José Alvalade.O limite de inscritos é de cinco mil na corrida de 10k e três mil na caminha, sendo que as inscrições podem ser feitas na plataforma bilheteiraonline.pt ou nos estabelecimentos associados e núcleos sportinguistas espalhados pelo país.A caminhada tem o custo de 7€ para sócios e 9€ para não sócios. E a corrida custa 10€ para sócios e 12€ para não sócios. Mais informações, aqui.

NM entrevista o Sr. Atletismo: "O Sporting é importante devido ao atletismo não ao futebol"

A revista Notícias Magazine publica este domingo (20 de janeiro) uma entrevista ao Sr. Atletismo, Moniz Pereira.O título da entrevista é fantástico"O Sporting é importante devido ao Atletismo, não ao futebol". Leiam aqui a entrevista na íntegra ou no site do Diário de Notícias:
Foi atleta de sete ofícios, treinador, escritor de canções para fado... Mas a sua maior paixão - desde os 7 anos - foi a que lhe deu a alcunha: Sr. Atletismo. Aos 91 anos, cinco filhos, onze netos e quatro bisnetos, garante que o atletismo português está a passar a pior fase de sempre. E fala da crise no seu Sporting.Entrevista por Alexandra Tavares Teles Fotografia de Gerardo Santos/Global Imagens
Está a um mês de fazer 92 anos. Qual é a receita da longevidade?_Primeiro, estou muito satisfeito por ter nascido, segundo, gosto muito de viver. Todos os dias aprecio o que é bonito - a natureza, as senhoras. Vejo muito gente que não é assim, pessoas com os olhos cansados, olham mas já não veem. A educação física também deve ter ajudado.E mais?_Há coisas que nunca fiz, não sei se tem alguma coisa que ver com a longevidade. Por exemplo, nunca bebi um copo de vinho. Branco ainda provei mas tinto, nunca, sou incapaz. Nunca deixei de comer sopa e bebo café com leite todos os dias.Nunca fumou?_Fumava Tiparillo, uma espécie de boquilha e cigarro. Mas era só uma vez por dia, geralmente à noite, depois deixei. Talvez tenha sido quando tuberculizei.Como reage às doenças?_Cumpro integralmente as ordens dos médicos. É num instante que fico bom. Em dez meses recuperei da tuberculose.Teve medo de morrer?_Não. Reajo à doença como a qualquer outra adversidade: sou positivo, preocupo-me em arranjar forma de dar a volta por cima. A minha mulher, que tem 90 anos, é como eu.É família com muita longevidade. Aos 80 andava muito preocupado com a doença da mãe._A família é muito grande e alguns têm tido uma vida longa. Infelizmente nem todos.No dia a dia, em que mais sente a idade?_Nos nomes. Lembro-me de tudo menos dos nomes das pessoas, por vezes de pessoas da minha família. Nessas alturas tenho de perguntar à minha mulher.O que é que a idade não modifica?_Muito pouca coisa. No meu caso talvez a teimosia, mas a idade vai modificando. Somos nós que temos de nos adaptar às diversas idades. Há uma grande diferença entre ter 30 ou 70 ou entre ter 60 e 90.Soube lidar bem com a idade?_Penso que sim. Sou muito antigo mas não sou velho. Se fosse velho estava a fazer crochet e não me metia nestas coisas todas, não teimava como teimo.Ainda sai muito de casa?_Agora, muito menos.Ainda se levanta diariamente às sete da manhã?_Não, mas no campeonato de atletismo de pista coberta em Pombal - nunca falhei um - sou o primeiro a chegar. Começa logo no dia da partida para Pombal. Sou o primeiro a chegar ao Sporting. Dou o exemplo, mesmo agora.Anda há quase setenta anos a marcar o atletismo português. O que tenciona fazer nos próximos setenta?_Farei o que me deixarem fazer. Porque há pessoas que não deixam. Bem diz a minha mulher que o meu maior defeito é a teimosia. Consegui, sempre fui conseguindo. E até consegui coisas que muita gente considerava impossíveis.O que quer fazer que não o deixem?_Há que tratar do atletismo. Nesta fase da minha vida já não posso fazer o que fazia. Com 91 anos não devo levantar-me às sete da manha para ir para Monsanto com os atletas, ao frio e à chuva, senão morro. Ora isso não me convém. Não posso, portanto, ser o treinador que já fui, mas ainda posso fazer muito pelo atletismo e neste momento ando muito preocupado com o estado da modalidade. Além disso, e apesar de não saber escrever uma nota, também sou músico e continuo a fazer músicas. Todos os dias espero que amigos meus que cantam fado venham cá a casa escolher músicas para gravar. No final da entrevista, toco a última que fiz.Já vamos à música. Preocupado com o atletismo porquê?_O atletismo português está a atravessar a pior fase de sempre. Está mal como nunca esteve. Este ano vai ser um horror, não há nada - não há dinheiro, não há pista coberta, não há contactos internacionais -, e sem contacto internacional isto é impossível. Estou preocupadíssimo. O atletismo português nunca esteve tão mal e temos atletas juniores de categoria que se começassem a treinar já para os Jogos Olímpicos podiam fazer figura daqui a quatro anos.Há muitos atletas juniores de qualidade?_Vários atletas de valor. Tanto rapazes como raparigas que deviam estar já a treinar diariamente.Falando de raparigas, lamenta nunca ter treinado uma grande atleta?_O atletismo é uma modalidade complexa. O lançamento de peso, por exemplo, não tem nada que ver com os 100 metros. Nem os 100 metros com os 110 barreiras. São vários desportos. Não tinha possibilidade de treinar atletas de disciplinas que não domino.Faltou-lhe uma fundista..._Sim, nunca calhou. Mas o importante é que Portugal teve Rosa Mota, uma atleta com a categoria de Carlos Lopes. Estão ao mesmo nível.Carreira de treinador: em que momento tinha a certeza de que estava a treinar alguém que iria atingir um nível mundial? _O conhecimento da modalidade é fundamental. Nunca fui um atleta de carreira internacional, mas pratiquei muitas modalidades. E isso ajudou-me sempre a reconhecer o talento. Quando um atleta tem talento e vontade de trabalhar é meio caminho andado.O que distingue um grande atleta?_O gosto pelo que faz e o prazer com que o faz. Não vale a pena apostar em quem não gosta de atletismo, em quem falta aos treinos, em quem não quer saber daquilo para nada. Sempre lhes disse: «Não precisam de gostar tanto como eu, mas para treinar comigo tenho de acreditar que gostam muito de atletismo, têm de querer fazer o que eu digo e não o que vocês acham, de acreditar que eu é que sei.»Uma regra para o sucesso do treino._Começa no cumprimento dos horários. E no exemplo do treinador. E eu dou sempre o exemplo.O que faz um grande treinador?_Dar o exemplo. Eu ia para a chuva, para o meio do campo. Sempre me irritou ver alguns treinadores de futebol - estrangeiros, muito bons, para os portugueses o que é estrangeiro é sempre muito bom - exigir o que não faziam. Não vou dizer nomes, mas vi fazer isso no Sporting: marcavam o treino para as 9h00 e apareciam às 09h10. Proibiam o vinho e eles já com as bochechas vermelhas, mandam deitar às 11 da noite e eles iam para a paródia.É lendária entre os atletas a sua assiduidade aos treinos. Nunca faltou a um treino?_Só faltei uma vez a um treino porque uma senhora atirou o meu carro de pernas para o ar.Quando estavam em estágio, como era a relação treinador-atletas?_Sempre ao lado deles. Quando me propunham ir para hotéis de cinco estrelas eu dizia sempre: «E os meus atletas.» Ai não?, então eu vou com eles para o centro de estágio. E as regras eram para cumprir. Se o treino era às nove, cinco minutos antes já eu estava na pista. E a quem chegava às 09h03 e dizia bom-dia eu respondia: «Boa-tarde.» Três minutos chegam para dar uma volta à pista. E fazia treinos bidiários. Em dias de prova, treinava de manhã , fizesse chuva ou sol. Eu nunca ficava na bancada. Estava no meio do campo à chuva. «Lá está o gajo.» diziam eles.Era de trazer os atletas cá para casa?_Não.Nem os problemas?_Nunca.Lembra-se da primeira vez que viu o Carlos Lopes correr?_Muito bem. Ele ficou em terceiro Foi no campeonato português de juniores de crosse. Ele ficou em terceiro e eu achei logo que ele tinha grandes possibilidades, que corria bem, com grande facilidade. No final, não fui falar com o vencedor. Fui falar com ele.Em que ano?_Não me fale em anos.Começou a treinar em 1945 a pensar num dia em que um atleta seu conquistasse uma medalha olímpica. Trinta e nove anos depois conseguiu. _É verdade, fui um dos impossíveis que atingi. O Lopes foi um atleta fabuloso, mas só conseguiu ser o melhor atleta português de todos os tempos porque fez tudo quanto eu quis. Portou-se otimamente. Se me saia um malandrão, eu não conseguia fazer nada dele.Considera o Lopes o maior de todos os tempos mas, no entanto, disse de Fernando Mamede: «É a máquina humana mais perfeita que conheci.»_Não vamos falar do Mamede. O Fernando Mamede foi um atleta de grande categoria, mas são duas pessoas completamente diferentes.Mas lembra-se de ter dito isso?_Disse-o porque o Fernando Mamede conseguiu ser o melhor do mundo nos 10 000 metros e recordista de Portugal de 4x400 metros. Era uma máquina de velocidade e resistência. Era uma máquina excecional e raríssima. Mas uma coisa é a parte física, outra é a parte mental.O Carlos Lopes é o seu maior sucesso. O Mamede é o seu fracasso?_O Mamede só foi um fracasso para quem não percebe nada de atletismo e não gosta dele. O Fernando Mamede também fez o que ninguém fez. Ser tão bom nos 10 000 metros como na estafeta é um feito único. Não há mais nenhum. E não falo só de Portugal. Mas, depois, havia a parte psicológica.Mas não é aí que entra o treinador? Aparentemente, nunca conseguiu contrariar a fragilidade psicológica de Fernando Mamede. _Era impossível. Veja-se os Jogos Olímpicos de 1984. Antes dos jogos passou dois anos a dar cabo dos adversários em diversos meetings. Chega aos jogos e falha Obriguei-o a participar, mas sabia o que ia acontecer. Só dizia que não era capaz de correr.Foi o seu maior desalento?_Essa prova foi muito triste. No final, os jornalistas deram o Mamede por acabado. E eu disse-lhes: «Nem pensem nisso, daqui a 15 dias, no Meeting de Zurique, vai vencer.» E venceu os 5000 metros, a competir com os mesmos atletas dos jogos.Com outra robustez emocional teria chegado onde?_Muito longe, porque tinha fisicamente o que os outros não tinham. Em contrapartida, faltava-lhe o que o Lopes tinha. O Lopes era o contrário. Quanto mais responsabilidade, melhor resposta. Nunca duvidou de que ganhava.Mesmo a medalha de ouro olímpica, na maratona, em 1984?_Claro. Apesar de ele ter sido atropelado na véspera, fomos para lá a pensar na medalha. Apanhei um susto doido, mas vi que não era grave e pudemos continuar. Psicologicamente era muito forte e sabia muito bem o que queria, ao contrário do Mamede. Mas já chega de Lopes e Mamede.Nélson Évora também já ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Mas não o incluiu nos melhores de sempre. Que pensa da nova geração?_São ótimos atletas, de categoria internacional, quer o Nélson quer a Naide [Gomes], que falharam estes Jogos porque estavam lesionados. E porque estavam lesionados? Porque o único país onde há provas de pista ao ar livre é Portugal. Nomeadamente em Lisboa. De resto, é sempre em pista coberta e nós não temos pista coberta. Resumindo, ninguém liga nenhuma ao atletismo.Em que lugar coloca Fernanda Ribeiro?_Logo a seguir. Foi uma grande atleta. Agora, não foi tão boa quanto a Rosa Mota e o Carlos Lopes.Mas os resultados foram muito semelhantes._Muitas vezes foram iguais, mas não foi tanto como a Rosa ou o Lopes. No entanto, foi uma das grandes atletas portuguesas. E eu, recordo, dou-me bem com todos eles.O que deitou a perder Vanessa Fernandes?_Quer mesmo a minha opinião? Não souberam poupá-la. A Vanessa fez demasiadas provas, ora o triatlo não é brincadeira nenhuma. Abusaram da pequena.Nas mãos de que atleta mundial colocaria a defesa da sua honra?_No Lopes. Primeiro, porque o Lopes não falhava, segundo porque comigo primeiro estão os portugueses e só depois os outros. O problema é que não damos aos atletas portugueses o que os outros têm. Esperamos uma pista coberta há dez anos. O Nélson e a Naide lesionaram-se porque treinam ao frio. Fez-se uma pista coberta em Espinho e não há lá atletismo há mais de um ano. Política. Enquanto isto for assim é muito difícil, mas eu gosto das coisas difíceis. Não desisto.Há ou houve em Portugal alguém a quem caiba melhor o nome de «senhor atletismo»?_Não sei. Agora sou muito bem aceite, mas também há pessoas que não me podem ver.Porquê?_Já tenho perguntado, mas não me sabem explicar. Sei é que, quando acabei o curso de INEF e fui convidado para treinar o atletismo do Sporting, um jornal fez-me uma entrevista em que me perguntaram qual era o objetivo da minha vida. E quando eu disse que era ver um atleta meu ganhar uma medalha olímpica e ouvir o hino português num estádio olímpico logo me chamaram louco. «Este gajo é maluco, isso é impossível.» Também houve quem, anos mais tarde, me tivesse dito que eu tive foi a sorte de ter sido muito bem tratado no Sporting. Pois, esquecem-se sempre de dizer que a sorte dá muito trabalho. Basta ser uma palavra feminina para termos de ser nós a ir atrás dela.Em que altura da vida percebeu que tinha gosto pelo desporto?_Desde sempre. Eu morava no primeiro andar do número 163 da Rua Gomes Freire. Tinha uma varanda grande, onde fazia salto em altura, salto à vara - a vara era um pau - isto com 7 ou 8 anos. Descendo da varanda chegava-se ao quintal, um quintal pequeno, mas eu pedi ao meu pai para tirar os canteiros e fazia os campeonatos no quintal. Ia para a varanda, descia pelo quintal, dava a volta à nespereira e voltava para o mesmo sítio. Eram trinta e tal metros. Com os meus irmãos e primos, simulava o salto em comprimento e inventei o duplo salto porque o tamanho do quintal não dava para o triplo. E ainda guardo os resultados desses campeonatos que tinham dois espetadores atentos: a minha mãe e o Mário Soares, que morava por cima de mim, no segundo andar. Era mais novo do que eu quatro anos e foi sempre espetador. Nunca quis participar.A sua imagem de marca é de boné e de cronómetro ao pescoço. _Cronómetro sempre. Desde miúdo. Os outros levavam uma bola para a praia, eu levava um cronómetro. Mandava-os correr e eu sempre a cronometrar. Guardo, ainda hoje, os resultados de todas as provas em que entrei. Tempos, lugares, tudo. Dos campeonatos do quintal ao campeonato do mundo de veteranos, na Suécia.E são centenas de provas. Li que participou nos campeonatos universitários nas modalidades de futebol, basquetebol, andebol, hóquei em patins, atletismo voleibol e natação. De que modalidade gostava mais?_Atletismo e voleibol. O vólei, hoje, é para gigantes. Eu tenho um metro e sessenta e oito mas chegava. O meu voleibol é mais bonito.Gostaria de ter sido um grande atleta?_Nunca pensei nisso. Sou conhecido em toda a parte porque além de ter sido treinador de atletas que bateram recordes em todo o mundo fui professor do curso de treinadores em Espanha e em França. Além disso, não tinha físico para isso. É preciso físico e eu não tinha velocidade nem resistência suficientes. Tinha habilidade, cheguei a entrar no decatlo. Não fui o primeiro mas também não fui o último. Fazia as coisas de que gostava e o decatlo não é brincadeira. Nos 1500 metros fui a assobiar, que era para disfarçar.Em 1945, terminou o curso do INEF e foi para o Sporting. Foi dos primeiros licenciados a treinarem..._Julgo até que não havia outro. Não quero dizer que fui o primeiro porque posso estar enganado, mas fui dos primeiros. Sou sócio do Sporting desde que nasci - fazia lá ginástica e voleibol. Quando acabei o curso convidaram-me para ser treinador do Sporting no atletismo.É o sócio número dois. _Sim, e o meu irmão era o número quatro.Quem era o treinador do futebol na altura, recorda-se?_De futebol não falo, bem basta o tempo que lhe é dedicado nos jornais e na televisão.O melhor jogador de sempre do Sporting?_Se me perguntar pelos melhores atletas sei-os todos. Os melhores jogadores... o Sporting teve bons jogadores, mas quem teve mais destaque foram os atletas. Sim, o Sporting está muito mal no futebol, mas o Sporting não é só futebol. O Sporting está muito bem em todas as modalidades menos no futebol. E de futebol não falo.Até porque neste momento não é fácil a um sportinguista falar do futebol, certo?_Já que faz essa provocação: neste momento o que está mal não é o Sporting mas o futebol do Sporting. São coisas distintas.Mas sem equipa de futebol forte o Sporting tenderá a desaparecer. Ou não?_Claro que não. O Sporting não é um clube de futebol. É um clube que também tem futebol. As pessoas julgam que o futebol é que é importante quando o Sporting é conhecido em toda a parte do mundo devido aos atletas de atletismo. Os melhores atletas que treinei no Sporting bateram recordes do mundo, da Europa e de Portugal em diversos países. O Sporting conquistou 16 vezes a taça dos clubes campeões europeus de crosse, quatro delas em Portugal, quatro em Inglaterra, quatro em Espanha, quatro em Itália. O Carlos Lopes foi campeão de crosse em Nova Iorque, levou lá o nome do Sporting. Fui seis vezes à São Silvestre com os meus atletas e ganhámos as seis vezes. Portanto, foram os atletas do atletismo que espalharam o nome do clube por todo o mundo. Não foi o futebol. As pessoas, na sua loucura pelo futebol, não percebem isso. Mais, o atletismo é a única modalidade que tem medalhas de ouro olímpicas.Jogos Olímpicos. Esteve em 12, de 1948 (Londres) a 2000 (Austrália). Tem um enorme armário em que cada gaveta corresponde a uma dessas viagens. Quer começar por onde?_Pela Londres do pós-guerra. Recordo-me de que choveu torrencialmente nesses jogos mas fiquei bem instalado. Iam buscar-nos de autocarro para treinar. Foram uns jogos muito importantes para mim. Vi as provas todas. Foram selecionados quatro atletas do salto em comprimento e do triplo salto - eu treinava três deles - e escrevi à federação dizendo que me propunha ir aos Jogos sem receber dinheiro só para assistir e tratar dos treinos dos quatro atletas. E eles aceitaram.A primeira medalha portuguesa do atletismo foi conquistada nos Jogos de Montreal, Canadá, em 1976. Como foi a preparação desses jogos?_Em 1975, pela primeira vez, o Estado português pediu-me para fazer um plano de preparação olímpica. Tive a sorte de encontrar quem acreditasse em mim. Foi-me proporcionado tudo o que pedi. Muitos contestaram, a começar pelos jornalistas, sobretudo os que não percebiam de mais nada a não ser de futebol. Um deles chegou a titular o seguinte: «Moniz Pereira está no Algarve com os seus atletas a gastar o dinheiro do povo.»Como lhe respondeu?_Telefonei-lhe e pedi-lhe que me explicasse o que entendia por povo. Sim, porque o Carlos Lopes tem o exame de instrução primária e era empregado numas bombas de gasolina e o Fernando Mamede também tem o exame de instrução primária e trabalhava no jornal do Sporting a ajudar, ou seja, não estávamos a falar do conde de Beja ou do duque de Viseu. Ele lá respondeu que não tinha dito aquilo. Pois não, «escreveu-o, o que é muito pior». E foi assim que isto começou. Com alguma oposição.Carlos Lopes traz do Canadá a medalha de prata dos 10 000 metros. _As coisas correram muito bem e os resultados excederam a expectativa. As minhas, até. Nunca pensei que pudessem ser tão bons. Finalmente, tínhamos uma medalha olímpica para o atletismo português e nenhum atleta foi eliminado à primeira, não fizeram má figura. Fiquei muito contente quando no aeroporto o secretário de Estado do Desporto anunciou que eu ia ser homenageado pelo governo. Lembrei-me logo de quem me tinha acusado de andar a gastar o dinheiro do povo. Procurei-o, mas soube que tinha morrido. Foi castigo, pensei. E pronto, esta história está contada.Nos Jogos Olímpicos, qual é a prova por que mais espera?_Gosto de todas.Prefere a velocidade ou a resistência?_Não tenho preferência. Gosto do calendário todo. Até de lançamentos.Se os jogos de Los Angeles foram os mais gratificantes, que edição o desiludiu?_Os Jogos do México foram aldrabados. Provas de atletismo a 2000 metros de altitude só para saltadores e velocidade. A altitude é péssima para os corredores de 5000 e de 10 000 metros. E a prova é que essas provas foram ganhas por atletas que nasceram e viveram lá e que ninguém conhecia.E Munique?_Foi uma desgraça. Isso foi uma guerra e eu de guerras não sei nada. Estava no hotel, no décimo e tal andar, e vi chegar uma camioneta com alguns desses assassinos. Morreram, aquelas coisas de política de que não percebo nada. Durante dois dias pararam os Jogos e eu fiquei até ao fim. Foi muito mau, muito mau. Mas não sei falar sobre isso. Sei que assisti à chegada de alguns bandidos.Viveu os tempos Segunda Guerra Mundial, a ditadura de Salazar, o 25 de Abril, a adesão portuguesa à União Europeia, a mudança de moeda, a atual crise. Que momento destaca?_De política não percebo nada. Sou ao contrário de Mário Soares: ele não sabe nada de desporto e eu não sei nada de política. Mas somos amigos. O momento mais doloroso destes 90 anos foram as mortes de pessoas da minha família.Para 2013, quantos desejos?_Que a minha vida continue como até agora, sem problemas, que o atletismo que neste momento vive o pior momento de sempre - nunca foi tão maltratado - melhore. E que o tempo seja a nosso favor e a paz vingue.Como conciliava as viagens e as ausências com a família?_Cheguei à conclusão de que faltei muitas vezes a problemas de família por estar nos Jogos ou nos campeonatos. Devia ter estado presente e não estive. E, portanto, para compensar resolvi fazer os congressos da família Moniz Pereira. Fizeram-se já dez congressos. Reunião familiar num hotel, sexta, sábado e domingo, com campeonatos de ténis de mesa, de natação, campeonatos de cartas, enfim, alguns tocam piano, outros cantam. Agora é mais difícil porque a família está cada vez maior e há pessoas que não têm dinheiro para isso.Casou com uma colega de curso. _Entrámos no INEF no mesmo dia e por lá andámos quatro anos (somos o terceiro curso). Temos cinco filhos, quatro raparigas e um rapaz, onze netos e quatro bisnetos. O meu filho jogou râguebi no CDUL, fez atletismo, todas as minhas filhas fizeram ginástica no Sporting e a minha mulher jogou voleibol no Sporting. E tenho também uma filha licenciada em Educação Física.Casou em que ano?_Em 1946. Estamos casados há 56.Quando a conheceu, o que mais gostou dela?_Gostei de tudo. Estivemos quatro anos juntos no INEF, a participar em eventos em conjunto. As festas do fim do ano, os campeonatos universitários. No INEF reunia em minha casa as pessoas que gostavam de música e ensaiava as músicas do Liceu Camões. E quando havia festa do INEF ia para o palco reger com uma batuta.E casou com uma sportinguista?_Também. E filhos e netos do Sporting.Saudades da Lisboa desses tempos?_Algumas. Gostei muito de estar no Liceu Camões. Desse tempo tenho saudades, fazíamos hóquei em patins, já fazíamos coisas. O Palácio Foz foi a primeira sede do Sporting. Ainda joguei ténis de mesa no Palácio Foz no Campeonato de Lisboa em segundas categorias e ganhámos. O meu pai era o representante de uma marca de carros e ia com ele experimentá-los no Campo Pequeno.E o que mudou no Sporting que lhe deixa saudades? O que sentiu quando soube que o novo Estádio do Sportng não ia ter uma pista?_Isso é de loucos. Nos éramos campeões da Europa de atletismo e depois fazem um estádio sem pista para o atletismo. Foi uma coisa que me tramou.Mas tendo o Estádio Nacional perto de Lisboa..._Fui diretor do Estádio Nacional. Naquela zona vivi trinta anos. Quatro anos como aluno, 27 como professor do INEF e cinco como diretor do Estádio Nacional. Aquilo é a minha casa. Mas o Sporting precisava de uma pista.Vamos ao fado. Dos que fez, qual é o que a sua mulher prefere?_Não tem preferência. As músicas são como os nossos filhos.Ela é a musa inspiradora?_Claro que é. Ou foi. Agora já tenho novidades acerca dessa senhora. Sei tudo.Nunca o acompanhou aos Jogos?_Nunca, por causa dos filhos.Sendo ela licenciada na mesma área, trocavam opiniões sobre o treino?_A minha mulher é especialista na parte pedagógica e de recuperação e deu formação em educação física teórica a professores do ensino primário. Não é especialista em treino.Toca piano diariamente?_Sempre.Quanto se senta ao piano, qual é a primeira música que toca?_Toco piano todos os dias. A musica é como o desporto, é preciso gostar-se muito. No Liceu Camões cheguei a ter 19 a canto coral. Fazia a primeira, a segunda e a terceira voz (já a Matemática era capaz de ter 9). Nunca soube escrever música, mas tenho muito bom ouvido. Quem me escrevia as músicas era o Jorge Machado. Enquanto eu tocava ele ia escrevendo. Depois, encantado, ia à Sociedade Portuguesa de Autores registar. E foi assim que as coisas começaram, em 1960. Sem saber nada de música, tenho mais de cem músicas registadas na SPA, algumas cantadas por grandes fadistas, como a Lucília do Carmo, para mim a maior fadista de todos os tempos.Maior do que Amália?_Não faço comparações.Quanto tempo leva a compor um fado?_Depende. Muito pouco tempo, por vezes.Tem mau feitio?_A minha mulher diz que quando não me fazem as vontades, tenho. Mas não sou de me queixar. Engulo.Foi um pai severo, com muitas regras, como para com os seus atletas?_Eduquei os filhos e os atletas da mesma maneira. E nunca tive muitas regras.Ao longo dos 91 anos, qual foi o maior elogio que recebeu?_Sei que tenho sido muito bem tratado e que me elogiam às vezes de mais. Mas vou contar a história de um recorde que é meu: já era o treinador do Sporting de atletismo e do voleibol quando começou o campeonato nacional de voleibol e o Benfica veio pedir-me para aceitar ser o árbitro dos jogos do Benfica. Já viu? Hoje acabava tudo à pancada. Mas eu conhecia aquela gente toda, éramos amigos, depois dos jogos íamos jantar ao Café Império. Todos juntos e sem problema. Eu nunca fui anti-Benfica e senti-me elogiado por todos me acharem incapaz de uma aldrabice. Hoje isto não é desporto.Um dos seus fados mais conhecidos é Valeu a Pena, letra e música suas. «Valeu a pena /ter vivido o que vivi /valeu a pena /ter sofrido o que sofri /valeu a pena /ter amado/ quem amei / ter beijado quem beijei.» Valeu a pena? _Acabo como comecei: gosto muito de ter nascido. E daqui a uns dias, nos meus 92 vou jantar a uma casa de fados com a família. Uma das minhas netas canta muito bem e depois eu também canto. E o Carlos do Carmo, que é meu amigo e sempre meu convidado, também vai cantar e eu também canto. O que é preciso é cantar e celebrar. 

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