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Correr na Cidade

O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica III

Faltam menos de 2 semanas. No dia 28 de agosto de 2015, cerca de 2300 participantes, entre as quais muitos portugueses, irão dar o tiro de partida do UTMB.

 

Esperamos por relatos e histórias fantásticas de todos os que se aventuram neste prova épica e iremos seguir com atenção o desenrolar da prova e acompanhar os esforços de todos os nossos amigos.

 

Enquanto aguardamos podemos saborear a fantástica aventura do David Faustino e o seu UTMB de 2014. Podem reler aqui a crónica II  e a crónica I.

 

A vontad de um dia estar presente e fazer parte desta comunidade aumenta.

 

Por: David Faustino

 

Meta à vista

O Sábado é passado no meio de paisagens de postal, continuando a alternância de subidas e descidas com o cansaço a ser cada vez mais um companheiro de viagem.

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Durante a tarde, deixamos Italia e entramos na Suiça. Nada muda muito. Subidas, descidas e cada vez mais cansaço. O corpo pede descanso, mas sabemos que ainda falta muito.

 

É talvez a parte da prova que mais me custou. Estamos com mais de 24 h decorridas e ainda faltam cerca de 50 kms. Num ou noutro abastecimento vou pedindo informações sobre a minha mulher. Nem sempre consigo obter resultado, mas vai dando para acompanhar. As últimas informações permitem-me concluir que tem vindo num ritmo relativamente constante e previsível. Isso é bom, vamos lá regressar a França!

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 Cansado

 

A entrada na segunda noite traz-me sensações ambíguas. Se por um lado o corpo já não quer continuar, por outro a mente (e o Garmin) dizem: são dez da noite e já “só” faltam 35 kms. Está quase.

 

O quase é bastante relativo. A parte final do percurso é mais técnica e a progressão mais lenta. A velocidade de progressão já é sempre medida a dois dígitos o km. O percurso eterniza-se. Por outro lado, tendo toda a prova sido feita sem quedas e sem nenhuma dor localizada, agora sinto uma dor aguda no tornozelo direito que toca no sapato a cada passada. Progressivamente, ao longo da noite, a dor torna-se difícil de suportar. Com os bastões até poderia aliviar o apoio no pé, mas sobre bastões já está tudo dito. Aperto o sapato. Alargo os atacadores. Sento-me para repousar. Retiro palmilhas. Volto a apertar o sapato doutra maneira. Nada resulta e o tornozelo já está em tamanho XXL, assim como a dor que dele emana. A dupla Salomon XT Wings 3/tornozelo não se está a entender, para meu desespero.

 

As sensações de prova começam a ser claramente negativas, mas não vou ficar a 20 kms da meta. Faz-se luz! Retiro o Buff, que já não estava a usar, da mochila e coloco-o por baixo da palmilha do sapato, fazendo altura e evitando assim o contacto do sapato com o tornozelo. Já não dói (quase) nada!

 

Sentia que agora dificilmente algo me iria impedir de chegar ao fim, mas estava desgastado por tudo o que se tinha passado e, obviamente, pela distância.

 

Estamos a chegar ao final da noite, estou de rastos, e no abastecimento dizem que faltam menos de 11 Kms e que é sempre a descer.

 

Dificilmente algumas palavras poderiam ter mais impacto em mim: 11 kms, sempre a descer! Invade-me uma estranha sensação de euforia e sinto uma força que me surpreende. Resolvo desatar a correr monte abaixo. Primeiro com alguma cautela, já não corria há algumas horas. A sensação não passa e corro cada vez mais. Passo por pessoas que me ultrapassaram ao longo das minhas dificuldades e que ficam algo perplexas com este renascimento. Alguns inspiram-se e começam a correr também. Um espanhol acompanha-me e, puxando um pelo outro, entramos em Chamonix para os últimos dois quilómetros feitos a 5’30/Km.

 

Naquelas ruas, nos metros finais, sinto gosto em correr, sinto-me feliz por estar ali, doí-me 99% do corpo, mas tenho a cabeça 100% repleta de sensações positivas. Revejo flashes da prova: a chuva, os bastões, onde está a minha mulher, sentado naquela subida a tirar o sapato.

 

Passo a meta. Acabou.

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 Chegada!

 

O Rescaldo

 

Recupero o folgo, vejo o ecrã com a classificação e pergunto pelo dorsal da minha mulher. A previsão de chegada permite-me descansar um pouco até lá. Decido ir para o carro. Entretanto, lembro-me que o prémio de finisher é um colete e que me esqueci do levantar. Volto atrás. A viagem para o carro é infindável. Não há célula do meu corpo que não doa. Chego ao carro, coloco um alarme no telemóvel e instantaneamente adormeço.

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Para o homem comum é apenas um colete made in Vietnam, mas é a peça de vestuário mais desejada do corredor de trail amador.

 

Acordo sobressaltado ao som do alarme, tento calçar-me (dói), troco alguma roupa (dói) e volto à meta (dói).

 

Pouco depois chega a minha mulher e aí terminou realmente o UTMB para mim, para nós.

 

Ainda fomos surpreendidos pela presença junto à meta da proprietária da casa onde ficámos em St Gervais, acompanhada dos filhos. Segui-nos ao longo da prova pela internet e quis estar à chegada para felicitar-nos. Parecia mais satisfeita do que nós próprios com o nosso desempenho. Fiquei sensibilizado e agradecido por alguém se dar ao trabalho de fazer isso, num Domingo de manhã, a pessoas que conheceu três dias antes e que, provavelmente, não voltará a ver. Pequenas coisas, mas que marcam…

 

O que reter desta aventura? Talvez que há coisas que não se contam nem se explicam, têm de ser sentidas. Tenho a sorte de ter comigo alguém que, por mérito próprio, também sentiu o UTMB e por isso não tenho necessidade de explicar como foi ou de justificar porque tinha de o fazer. Aos outros não vale a pena tentar explicar, porque provavelmente não o irão entender.

 

Por isso nunca o fiz… até hoje.

O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica II

Esta é a história do David Faustino e a sua epopeia no Ultra Trail de Mont-Blanc em 2014. Depois da fantástica crónica 1 que podem reler aqui fiquem com o ínicio da prova do David.

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  A primeira de muitas subidas

Por: David Faustino

 

Início da prova

 

Os primeiros minutos foram estranhos. Estava compactamente rodeado de corredores, o que me fez lembrar a saída da maratona de Boston, mas eram pessoas que pareciam não ir correr, carregadas de mochilas, bastões, a parar para se despedir do filhos, a tirar uma selfie com o grupo de amigos, ou seja transmitindo uma atmosfera que nunca tinha sentido após o tiro de partida. Depois havia aquele olhar estranho que não era o da habitual concentração com algum nervosismo à mistura, este transmitia um medo mal dissimulado. Parecia que algo de mal lhes ia acontecer… Havia muita emoção no ar que se transmitia entre os participantes, mas que também vinha do muito público que, apesar da chuva, estava presente para o pai, a filha, o amigo ou apenas para apoiar esta gente colorida que se lançava numa volta pela montanha… para mais tarde voltar ao mesmo ponto de partida.

 

Após esses momentos iniciais, lentos em progressão, mas ricos em emoção, comecei a sentir o apelo da razão que me lembrou que existiam tempos de corte a cumprir e que, passados 10 minutos, tinha percorrido apenas cerca de 500 metros. Assim, com um passo de corrida em que o ritmo foi gradualmente aumentando, fui passando pelos menos apressados de forma a colocar-me junto dos corredores anónimos que estavam no ritmo que me parecia adequado para a prova que pretendia fazer. Penso que este foi um ponto determinante para o meu desempenho. Estar no grupo certo, com referenciais adequados, permite-nos aferir se estamos rápidos (então mas eles não estão a acompanhar porquê?) ou se estamos distraídos e a ficar lentos (ainda agora estávamos juntos e agora eles já ali vão!). No primeiro ponto de controlo (13 Kms) estava na posição nº666, no final cheguei em 508º. Havendo cerca de 30% de desistências, isso significa que consegui o objetivo de ser regular durante a prova.

 

O percurso inicial é bastante adequado ao natural esticar do pelotão nos primeiros quilómetros. Plano até aos 10 Kms (sim o UTMB tem 10kms planos!), feito em asfalto e estradões, permite correr sem limitações. Após essas facilidades iniciais, apresenta-se a primeira subida da prova, com cerca de 800 m de D+ em 4 Kms. É a primeira de muitas, sente-se pela cautela na abordagem, retiram-se bastões das mochilas e o pelotão estica-se ainda mais. Chove copiosamente e eu opto por não retirar ainda os bastões, dada a pouca tecnicidade do terreno.

 

Percorridos estes primeiros quilómetros, a sensação é de que a prova decorre com muita naturalidade por um percurso lógico e natural, que praticamente dispensa marcações. É o que resulta de estarmos a realizar um caminho pedestre utilizado há várias décadas por caminhantes. Claro que eles demoram um pouco mais, normalmente cerca de uma semana, mas passam pelas mesmas dificuldades carregados com enormes mochilas e por vezes até mesmo com crianças pequenas. Durante a prova cruzamo-nos com eles recorrentemente e trocamos incentivos mútuos. Percebe-se que a organização não arriscou no desenho da prova. Pegou num percurso existente e devidamente implementado no terreno, acrescentando-lhe abastecimentos, suporte logístico e uma vertente competitiva. Estava inventado o UTMB! Simples e apelativo. O sucesso acabou por ser fruto dessa simplicidade, do crescimento da modalidade e da notoriedade que a prova soube angariar. Talvez fosse bom que, por cá, algumas organizações aprendessem também a fazer provas simples e lógicas, aproveitando percursos existentes. Acredito que existe potencial e mercado.

 

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 Início da primeira noite depois de St Gervais

 

Voltando à prova, a chuva foi a nota dominante do início de prova, dificultando principalmente nas descidas mais ingremes e tornando ainda mais pesada a carga que temos de transportar às costas. Iniciei a minha primeira noite numa subida que nos conduzia de St. Gervais (Km 21) ao Refuge Croix du Bonhomme (Km 45) com 2.000m positivos. Foram quase cinco horas de subida contínua. Estava na hora de retirar os bastões da mochila.

 

Pé ante pé

 

Como já tinham começado as verdadeiras subidas, não havia dúvidas de que estava na hora de utilizar os bastões. É consensual que o UTMB é das provas onde eles são mais úteis, devido ao elevado acumulado e às características dos caminhos, na sua maioria pouco técnicos, que facilitam a sua utilização. Não há ninguém na prova que não os utilize, exceto talvez alguns atletas do top ten. Para todos os restantes, são o equipamento mais importante logo a seguir aos sapatos. Os meus já tinham sido companheiros de várias outras provas de montanha realizadas anteriormente e estavam devidamente experimentados. Retiro o primeiro da mochila e puxo energicamente pelo cordão que vai segurar os três segmentos para garantir coesão ao conjunto. Talvez energicamente esteja aquém da realidade. Deve ter sido mesmo à bruta… Fiquei com o fio partido nas mãos e vejo os segmentos tubulares de carbono a resvalar pelo monte abaixo. E com eles, o meu coração…

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 À noite, após um abastecimento na primeira grande subida

 

Fiquei algum tempo parado para perceber o que tinha acontecido. Depois mais algum tempo para perceber o que deveria fazer. Depois disso estava tudo claro outra vez: os bastões só são úteis quando os temos e os podemos utilizar. A primeira parte era verdadeira, a segunda não. O que não tem remédio, remediado está! No abastecimento seguinte peço fita adesiva para juntar (e não perder) os segmentos que entretanto tinha recuperado, no ponto de troca de roupa em Coumayeur ficaram os bastões, o partido e o outro, que já nem tentei abrir.

 

Quanto a bastões, estávamos entendidos. Vendo as coisas pela positiva, era menos uma coisa a atrapalhar. Agora era só acreditar nisso, continuar pelas subidas e descidas e esquecer o incidente. É certo que por vezes era difícil dado que alguns companheiros de caminho, mais curiosos e faladores, perguntavam porque não trazia bastões, que nesta prova davam muito jeito, que o pior estava para vir…

 

A noite foi-se desenrolando numa lógica de sobe e desce de dimensões a que não estamos habituados por cá. Tudo é maior. Não será forçosamente mais difícil, mas as subidas sobem mais e as descidas descem mais. Estamos agora do lado italiano e a montanha é imponente em tamanho e beleza. Com a primeira manhã e após uma descida longa e sinuosa (talvez aquela de que mais gostei), chega o ponto de troca de roupa, Courmayeur.

 

Estávamos com um pouco menos de 80 Kms e ia com cerca de 14 horas e meia. Salvo os bastões, estava tudo dentro do programado. Recolhido o nosso saco no exterior, entra-se num pavilhão. Aqui troco roupa, sapatos e aproveito para, desta vez, comer sentado. Há muita gente por todo o lado, no chão, nos balneários, junto às portas. Opto por uma paragem rápida para não perder o ritmo e porque acredito que quanto mais tempo se está parado, mais difícil é voltar à corrida. Foram exatamente 30 minutos.

 

À saída vejo um companheiro destas andanças, o Aires Barata, e pergunto-lhe se viu a minha mulher. Diz-me que está um pouco atrás e fico mais reconfortado. Está tudo a correr bem, vamos lá acabar com isto.

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 Novo ânimo depois de Coumayeur

O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica I

O Ultra Trail du Mont-Blanc é uma das mecas para os praticantes e apaixonados por trail, sendo para muitos "a prova",  o grande objetivo a concretizar. Sonhamos, planeiamos e treinamos para um dia alinhar em Chamonix de forma a percorrer os 168km, as famosas 100 milhas, que separam o início e o fim desta grande aventura.

 

Com a data da prova a aproximar-se, o Correr na Cidade têm o privilégio de poder partilhar quatro crónicas do David Faustino, um dos corredores nacionais com mais provas feitas e que conta com vários anos de experiência, que retratam todas as etapas, desde a preparação para a prova até à passagem da meta. O David partilha connosco a sua história do UTMB de 2014 que desde já agradecemos.

 

Serão sem dúvida uma leitura obrigatória para todos os que este anos irão marcar presença e para quem sonha um dia realizar esta prova.

 

Por: David Faustino

 

O meu UTMB

O caminho para a linha de partida (I)

 

A sigla UTMB é das que mais faz sonhar o corredor de trail amador. Só o nome da prova que representa, em si mesmo, já impõe respeito: Ultra Trail du Mont Blanc.

 

Do ponto de vista técnico, o UTMB é uma prova de carácter competitivo, com um percurso circular de 168Kms a partir de Chamonix (França) e que passa por três países à volta da montanha mais alta da Europa ocidental, tendo cerca de 9.800 m de acumulado positivo. A prova tem um tempo limite de 46 horas, mais do dobro do tempo tipicamente realizado pelo primeiro (20 horas e alguns minutos) e quem chegar a meio do pelotão demorará cerca de 41 horas. Pelo percurso existem 12 barreiras horárias à saída de alguns dos 17 abastecimentos.

 

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 O percurso do UTMB

 

Assim, foi com alguma naturalidade que, após alguns anos de corrida em estrada e algumas experiências numa modalidade que se estava a iniciar em Portugal, o trail, decidi também eu tentar obter o meu lugar nessa aventura.

 

E digo tentar obter, porque aqui entram vários fatores: o timing da inscrição, a experiência do corredor (traduzida em pontos obtidos em provas reconhecidas pela organização) e a sorte de cada um. Assim, creio que a minha primeira intenção em participar ocorreu durante a primavera de 2012, mas depressa me apercebi que as inscrições tinam fechado em Dezembro, assumindo um erro de principiante… Dezembro de 2012, no prazo correto e com os pontos necessários para a pré-inscrição (na altura eram 7 pontos obtidos num máximo de 3 provas, nos 2 anos anteriores à inscrição) eu e a minha mulher formamos uma equipa para entrar no sorteio (essa é uma das características interessantes da prova, podemos formar equipas para as quais o resultado do sorteio será sempre igual para todos os membros). Situação ideal para mim, que me permite garantir uma ida à prova em família! Mas no sorteio para a prova de 2013 a sorte foi madrasta e recebemos um email convidando-nos a participar na TDS (119 Kms, 7250 m D+) ou a aguardar mais um ano, adquirindo um fator que multiplicaria por dois as nossas probabilidades de aceder ao UTMB. Um sonho, é um sonho, e 119 Kms não são 100 milhas, por isso a opção pelo sorteio para 2014 foi óbvia!

 

Dezembro de 2013, com os pontos em dia, fator 2 para o sorteio e com a garantia de que iria ao UTMB em 2014 ou 2015 (porque à terceira é de vez, isso é, após dois sorteios desfavoráveis a organização garante o acesso na terceira inscrição, caso os candidatos mantenham os pontos necessários), fiz novamente o pré-registo para o sorteio em equipa com a minha mulher.

 

No dia 15 de Janeiro chega o tão esperado email:

 

“Bonjour David FAUSTINO, Vous êtes pré-inscrit pour la course UTMB®.  Le tirage au sort a été effectué et nous avons le plaisir de confirmer votre inscription à la course UTMB® ! Vous devez maintenant finaliser votre inscription, à partir du 15/01/2014 et avant le 27/01/2014.”

Tenho de reconhecer que este processo tem um mérito: quando conseguimos o nosso lugar na prova, ficamos satisfeitos em pagar os 207€ (valor de 2014) da inscrição! Sim, porque no dia em que conseguimos um dos 2.300 dorsais sorteados (existem depois cerca de 200 adicionais

 

para elites, convidados, etc) entre os cerca de 10.000 candidatos ficamos com a impressão que a parte mais difícil do UTMB já está feita. Mas não é bem assim…

 

O caminho para a linha de partida (II)

 

Recuperado da emoção do sorteio, após as felicitações dos amigos que acompanharam o processo, trocadas algumas mensagens com os conhecidos que também lá estarão, vem a primeira tomada de consciência: não sei se alguma vez lá voltarei, por isso quero fazer uma prova decente!

 

Decente, para mim, significa sem sofrimento, com capacidade de disfrutar da prova e sentido que estou num nível físico adequado para terminar dentro do tempo limite. Assim, para servir de formação inicial sobre o que é o UTMB, vivido na primeira pessoa, resolvi começar por ler os relatos de quem por lá já tinha passado, destacando o do Carlos Fonseca e o do Paulo Pires. São abordagens e experiências diferentes, ambas excelentemente narradas, mas com finais distintos. O Carlos foi barrado em Courmayeur com um pouco menos de 80 Kms de prova e por chegar 7 minutos depois do tempo limite. O Paulo fez uma prova regular e bem planeada, com pouco mais de 39 horas, ou seja com margem para imprevistos.

 

Foram leituras esclarecedoras que me ensinaram duas coisas: a prova é exigente e não perdoa grandes erros ou distrações, no entanto está ao alcance de alguém com alguma experiência e que se prepare corretamente.

 

Munido destes princípios, comecei a planear o meu ano de 2014 de forma a chegar em condições àquele que seria para mim o evento do ano, não deixando de planear esta preparação de forma a manter o mais importante: o gosto de correr.

 

A partir de Janeiro o grosso da minha preparação foi feito com provas de média/longa distância, tendo efetuado 14 Ultras, das quais três com 3 dígitos: 101 Peregrinos, Bandoleros (155Kms) e o OMD (160 Kms). Reconheço que não sendo um método de treino muito convencional, dada a elevada carga derivada da distância, o facto de encarrar estas provas sempre com bastante tranquilidade e com um ritmo moderado, permite minimizar o desgaste provocado pelas mesmas. Além disso, estes Kms dão experiência e confiança, sabemos que conseguiremos lidar com aquilo que iremos encontrar na prova alvo. A participação nestas provas decorreu sem percalços ou, melhor dizendo, sem as tão temidas lesões que num instante deitam tudo a perder.

 

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 Em Andorra, em preparação para o UTMB

 

Houve apenas uma prova que não correu exatamente como previsto, a Mitic, uma prova de 112 Kms realizada em Andorra em meados de Julho. O objetivo era realizar um último grande teste, cerca de seis semanas antes do UTMB. Mas na realidade, apenas reforcei a minha ideia sobre a alta montanha: não perdoa. Por motivos vários, terminei a minha prova aos 44 Kms e com 13h40 mins de prova! Do mal o menos, a organização atribuía uma classificação a quem terminava neste ponto e era atribuído um diploma de conclusão duma maratona de montanha. E que montanha! Técnica, difícil, com 3.500 D+ nesses 44 K e diria mesmo perigosa nalguns pontos. O encontro com a minha mulher durante a prova (normalmente corremos separados) que estava a passar pelas mesmas dificuldades também facilitou a tomada de decisão. Retirámos as lições necessárias, porque o que corre bem melhora a nossa preparação e autoconfiança, mas nos restantes casos o importante é aprender e saber evitar os mesmos erros.

 

Adiante. Feita a restante preparação, faltava apenas fazer-se à estrada e rumar a Chamonix!

 

O caminho para a linha de partida (III)

 

Cheguei com a minha mulher a Chamonix na terça-feira anterior à prova de forma a ter algum tempo para descansar, já que a mesma se iniciava na sexta à tarde. Na prática não ficámos exatamente em Chamonix, optámos por St Gervais, que estando próximo (20 kms) nos dava um pouco mais de distanciamento relativamente ao frenesim que se vive na cidade na última semana de Agosto. Alem disso, era também ponto de passagem e local de abastecimento da prova e permitiria ter uma pequena noção do que iriamos encontrar no percurso.

 

Fizemos dois treinos ligeiros, um na terça e outro na quarta. Para que a quinta fosse um dia de descanso total, fomos levantar os dorsais ao final do dia de quarta, encontrando uma cidade que, nesses dias, vive e respira trail. Em Chamonix, tudo aponta para as várias provas em curso ou que irão decorrer, sentindo-se uma atmosfera mais próxima das grandes maratonas internacionais do que daquilo a que estou habituado na montanha. Não sei se gosto, mas que é imponente, isso é.

 

Voltando aos dorsais, o levantamento tem de ser feito acompanhado com a mochila em condições de corrida, ou seja com uma lista tamanho A4 de equipamento obrigatório, que vai desde gorro, luvas, calças e casaco impermeáveis (com especificações bem definidas de impermeabilidade e respirabilidade), frontais, recipientes, manta térmica, etc, etc e etc… Aqui fica a minha preferência pela lógica americana da participação nestes eventos: cada um é responsável por si, e leva o que entender como necessário. A organização é responsável por cumprir com o que oferece no programa da prova e nada mais. Na inscrição para essas provas assinamos documentos que garantem que estamos informados do facto e pronto. Mas como, seguindo a minha opinião, não me seria permitido participar nesta prova, vamos lá respeitar as regras e ir carregadinhos e ordeiramente para a fila. Após um controlo aleatório de algum desse material obrigatório, é entregue o tão desejado dorsal.

 

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 A lista do material obrigatório (são controlados artigos aleatoriamente no levantamento do dorsal e o atleta deverá apresentar os que têm uma seta)

 

Falta agora apenas regressar à base para os últimos preparativos que incluíam escolha de roupa adequada às condições climatéricas (que se apresentavam variáveis), preparação do saco para muda de roupa em Courmayeur e descansar o mais possível antes de, provavelmente, duas diretas consecutivas.

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 Em Chamonix, após o levantamento do dorsal

 

Sexta-feira 29 de Agosto, o dia D. Ao final da manhã, ida para Chamonix para tentar um local não muito distante da partida para estacionar, o que não é tarefa fácil quando um meio relativamente pequeno está repleto de corredores, acompanhantes, meios de comunicação e organização. Após a entrega do saco para Courmayeur, fomos à pasta-party oferecida pela organização onde encontrámos alguns elementos da comitiva portuguesa com destaque para o Carlos Sá, sempre simpático e acessível para todos. Nesta fase do dia, as pulsações já estavam 50% acima do normal.

 

Última ida ao carro para vestir o equipamento definitivo e trazer a mochila. Afinal o carro não ficou assim tão perto e ainda se gastam cerca de 20 mins para cada lado… Resultado, estamos a ficar em cima da hora e já em passo acelerado para a linha de partida. Feito o aquecimento forçado, chegámos um pouco após as 17h00, para uma partida prevista para as 17h30. Não havia mais remédio do que ficar no fim do enorme pelotão e sem direito sequer a visualizar o arco de partida. Não iria ser isso que iria estragar o momento. Por outro lado as enormes nuvens com tonalidades que variavam entre o preto escuro e negro carregado, essas sim já me pareciam poder fazê-lo. Cerca das 17h25 começa a chover copiosamente e, num momento com uma sincronização digna de uma coreografia de cerimónia de abertura dos jogos olímpicos, cerca de 2500 pessoas retiram apressadamente impermeáveis das mochilas. 17h31, apercebo-me do início de movimento da massa humana e ainda estou a apertar a mochila. Despeço-me da minha mulher e cada um inicia a sua aventura, que nesta fase ainda consistia em avançar sem pisar e ser pisado, movendo-se ao ritmo da massa humana compacta que nos rodeava. Ás 17h38 passo pela linha de partida ao som de Vangelis.

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 A partida chuvosa do UTMB 2014

5 Dicas para fazer ultra trails

Pedimos ao corredor David Faustino que, com a sua experiência nas corridas (quer em estrada quer nos trilhos) nos desse algumas dicas para quem se quer iniciar nas longas distâncias, nos chamados ultra trail – ou trail ultra, para sermos mais corretos. Estas são as dicas de um dos portugueses com mais quilómetros nas pernas da atualidade.

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Por David Faustino:

 

Após algum tempo a correr, é natural querermos alcançar novos objetivos. Na estrada trata-se quase sempre de querer melhorar tempos numa determinada distância e no trail quase sempre de aumentar a distância percorrida.

 

Assim, a primeira ambição séria dum corredor de trail é passar a ser um "ultra corredor", ou seja correr pelo menos 43 Kms.Ficam aqui 5 dicas para quem pretende dar esse passo, de forma a que a experiência decorra da melhor forma:

 

Definir um objetivo realista - pensar iniciar-se nas ultras numa prova de 100Kms é possível, mas será seguramente uma experiência dolorosa, mesmo que bem sucedida. Escolher uma primeira prova moderada em distância (50 Kms p.e.) e com um acumulado positivo confortável. Preferir uma altura do ano sem temperaturas extremas, nem num local de características geográficas que dificultem a progressão ou que exponham em demasia aos elementos (vento, neve, sol,etc).

 

Ter a preparação de base necessária - se não se está à vontade com distâncias até 75% da prova alvo, deverá ser reavaliado o objectivo.

 

Treinar em condições de prova - isso é com o material a usar, nas horas em que a prova irá decorrer, em condições climatéricas parecidas com as esperadas no dia da prova. Se possível, reconhecer o percurso em duas ou três etapas, nos últimos treinos antes da prova.

 

Treinar a parte mental - numa ultra o tempo de prova não se mede em minutos, mas sim em horas. Assim haverá que preparar-se para a ansiedade pré-prova, a euforia da partida, as dúvidas do meio da prova, o desânimo dos dois terços da distância, em que até a alma nos doí, e a sensação absolutamente única (e como tal, própria a cada corredor) de atravessar a meta. Essa montanha russa emocional deve ser do conhecimento do atleta, de forma a que a mente possa manter sempre o controlo sobre o corpo.

 

Ser Positivo - Ninguém tem de ser um ultracorredor, é uma vontade própria e não uma obrigação. Assim, em todos as fases anteriores, devemos pensar na sorte que temos em passarmos tempo a fazer aquilo de que gostamos, em estarmos em locais únicos e vê-los como poucos o conseguem fazer. Quer o objectivo final seja alcançado, quer algo imprevisto tenha adiado o sonho, devemos manter a postura inicial que nos levou a querer tentar e repetir todo o processo, sabendo que agora estamos mais fortes e mais preparados.

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Race report: 1º Albufeira Night Trail

Por: Luís Moura

 

Em Portugal associamos o trail running a correr no meio da montanha, entre árvores, rios e grandes declives verticais.Mas uma boa parte do país tem outras características geológicas que podem ser aproveitados para também se praticar trilhos.

Neste caso especifico a costa algarvia, onde não existindo nenhum ponto de elevação muito alto, tem algumas serras e permite umas voltas engraçadas.

 

Foi neste espírito que no passado fim-de-semana participamos na primeira edição do Albufeira Night Trail, a convite dos organizadores,  a INATEL, e da associação O Mundo da Corrida. Ao recebermos as primeiras informações da prova deu para perceber imediatamente que 650D+ numa prova de 47 Km só podia querer  dizer que o ritmo da prova iria ser alucinante comparando com os ritmos normais a que estamos habituados nos trilhos. Diria até mais próximo de um ritmo de estrada elevado do que de um trilho leve.

Tendo em conta essa informação, o planeamento de treinos no ultimo mês foi feito nessa direcção, onde reduzi os treinos com grandes subidas/descidas e privilegiei mais treinos em estradão e alcatrão com vista a subir um pouco a parte cardio. Inclusive fui fazer a Meia-Maratona dos Descobrimentos no fim-de-semana anterior como preparação. Depois da surpresa do tempo final nesse dia, viria o impacto na prova que falo em detalhe mais à frente, mas como é evidente, aquele tempo muito rápido na Meia fez mossa.

 

Prova

Chegamos a Albufeira perto das 21h30m e fomos directos levantar o dorsal  nas instalações fantásticas do Inatel. O Kit estava bem composto com um apito, camisola da prova, revista da praxe e uma lanterna minúscula que deveria ser para alguma emergência na prova, mas a minha por exemplo já vinha quase sem carga na pilha.

Depois de uma boa noite de sono e de um pequeno reconhecimento por Albufeira, fomos almoçar em frente ao mar e relaxar um pouco antes de se iniciar a preparação para a prova que começou pelas 16h.

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O tempo estava um pouco "fechado", com algumas nuvens mas nada de muito pesado. Caiu um pouco de chuva 30 minutos antes do arranque mas já era previsto. Como estávamos no Algarve, com a partida da prova ainda durante o dia e com uma temperatura "menos fria" do que no resto do país, optei por ir um pouco mais leve apenas com um corta-vento, luvas e cinto de hidratação pequeno. Objetivo:  era levar o menos peso possível para o ritmo elevado previsto para a prova.

Quase 50 atletas na box da partida criada na praia em frente ao Inatel e às 16 horas em ponto arrancámos.

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Inicialmente fizemos +/- 650 metros ao longo da praia e depois foram quase 2 km a subir até sairmos de Albufeira e entrarmos em trilhos pelo meio dos terrenos de cultivo e pasto.

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( Partida foi lá ao fundo no edifico azul e percorremos o areal até este edifício branco grande na esquerda )

 

Por esta altura destacou-se um conjunto de 7 atletas que durante os km's seguintes iriam definir 3 grupos distintos. Um corredor que avançou e começou a distanciar-se dos restantes, depois 3 elementos no encalço dele e por fim eu e mais 2 elementos já separados uns metros uns dos outros -  mas sempre com um ritmo similar.

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Até ao primeiro abastecimento aos 6,5km o ritmo andou sempre perto dos 4:05/4:15km, muito rápido para uma corrida tão comprida. Nenhum dos 7 usufruiu deste abastecimento.

De seguida entrámos num sobe e desce por estradões até ao abastecimento dos 15km, a média andou muito perto dos 4:40/km. Por esta altura os 4 primeiros rolavam já longe do meu plano de visão e fui seguindo em 5º.

Parei no abastecimento dos 15km para encher o bidão de água e o atleta que vinha atrás de mim passou-me no minuto que lá estive. Novamente ninguém da frente parou no abastecimento.

Do abastecimento dos 15km até ao abastecimento dos 21km foi um segmento com a altimetria quase sempre a subir de uma maneira ligeira. Por esta altura nada na corrida se passou em termos de ritmos ou classificações, uma vez que que naturalmente os corredores com ritmos diferentes já estavam encaixados.

 

Pouco depois junta-se a mim outro corredor e ultrapassa-me antes de chegarmos ao abastecimento dos 28km, no topo de Paderne onde a prova de 20km arrancou. Nesta altura chego com cerca de 20 minutos de atraso em relação ao primeiro e novamente fico a encher o bidão de água e comi rmarmelada e um pedaço de banana com sal. Mais atrás na subida tinha ingerido 80ml de magnésio liquido porque as pernas começavam a acusar um pouco o esforço da Meia Maratona do fim-de-semana anterior -  para além de que aqueles 7km iniciais a ritmos elevados não ajudaram em nada.

 

Segunda metade da prova

Arranquei de Paderne em 7º e lá comecei a fazer o ataque para o alto do Castelo. Nesta parte da corrida as marcações estavam muito distantes umas das outras. Adicionando o facto de estar noite cerrada com muitas nuvens, a visibilidade ser muito muito baixa, o que me  obrigou a usar o frontal com muita intensidade. Aqui o  ritmo teve de ser necessariamente  um pouco mais baixo sempre à procura da próxima fita no meio das árvores, com várias opções de caminhos à nossa frente.

 

Pelo km 30 chego ao topo da serra junta ao Castelo. Dois minutos antes passa por mim um jipe da Cruz Vermelha com três elementos de prevenção a perguntar se estava na prova dos 47km. Abanei afirmativamente com a cabeça enquanto seguia porque estava a triturar uma barra de cereais com chocolate... e que bem que me estava a sentir a ingerir aquele  repasto no meio do escuro até ser interrompido por aqueles holofotes do jipe...

Com várias tropelias pelo caminho por causa da lama, fiz 2km a andar nas subidas mais íngremes para descansar um pouco as pernas. Mas mesmo assim ainda deu para passar aos 30km com 2h37m de prova. Muito elevado o ritmo para uma prova tão comprida e logo no fim-de-semana seguinte a um esforço grande da Meia dos Descobrimentos.

Depois do topo da serra, apanhamos uns 2km de trilhos. A única coisa que me passou pela cabeça foi "trilhos !!!!!! ". Ao fim de 30km, o primeiro troço da prova onde nos sentíamos de facto a fazer um trail puro... ui que sorriso apareceu na cara... Aí foi a descer até um riacho grande que tivemos que atravessar, molhando os pés  com água pura e gelada, porque até aqui já tínhamos apanhado vários km's de lama fina e escorregadia e por esta altura os pés andavam frios e húmidos, mas agora era mesmo água em grandes quantidades.

Depois de passar o riacho, uma subida de uns 45D+ em cerca de 300 metros. Uma brutalidade para quem já ia em quebra física. Fui devagar a tentar recuperar as pernas, que por esta altura já começaram a doer bastante. A fatura do esforço inicial e da prova do fim-de-semana passada estava a aparecer e com o meu nome no destinatário.

 

Estradões e frio

Depois entrámos novamente em estradões, mas agora em mistura de pisos, a intercalar com muito alcatrão.

Por esta altura já era noite cerrada, com muito vento frio gélido estava a fazer mossa no meu corpo e na minha mente. A juntar ao cansaço das pernas, comecei a perder o ânimo por estar a tremer de frio.  E, sem pensar, fui abrandando o ritmo. Ao km 33, 34 e 35 andava a rodar bem acima dos 6/km. As pernas pareciam dois blocos de cimento que não se queriam mexer. Foram uns km's muito complicados, sozinho no meio do escuro cheio de frio com dores enormes e a pensar em coisas que normalmente não deixo entrar no meu pensamento enquanto corro. Parecia que tinha recuado dois anos na minha preparação. Fui abaixo e desci muito o ritmo.

 

A seguir ao abastecimento dos 35km, aparece o corredor que vinha em 8º. Era o David Faustino que vinha no seu ritmo tranquilo e estável. Viu-me a sair do abastecimento quando ele estava a chegar e acelerou para apanhar-me mais à frente. Chegou perto de mim e fez aquilo que era preciso. Fez aquilo que "Eu" precisava. Deu-me um novo alento ao longo de 3 ou 4km onde foi sempre a falar comigo e a sentir que eu não estava bem.

Por esta altura íamos a médias de 5:35/5:45km e as pernas estavam mesmo KO. Aos poucos com o incremento do ritmo comecei a pensar em outras coisas, já que não estava sozinho agora. A mente voltava a controlar o corpo. O David Faustino a sentir que estava melhor foi embora devagar. Só o voltei a apanha-lo no abastecimento dos 41km. Novamente enchi o bidão de água e comi banana com sal.

 

O retorno à corrida

Parti no encalço dele e apanhei-o cerca de 1km à frente. Sentia-me fresco e coloquei um ritmo bem mais alto. Estava de volta!!! Por esta altura vi um frontal mais ao longe.  Era o espanhol que me tinha passado logo a seguir ao abastecimento dos 15km, mas  que,  naquele momento, seguia à minha frente num passo muito lento. Perguntei-lhe se estava tudo bem, respondeu "Todo Bien" e segui.

 

No espaço de 2min saltei de 8º para 6º novamente. Mas mais importante do que isso, tinha retomado o ritmo e o gosto por estar ali. O facto é que entramos em km's  mais protegidos do vento e o corpo aqueceu um bocado. Comecei a desfrutar do que estava a fazer. Comecei a sorrir para comigo mesmo. Comecei a fazer aquilo que gosto, e era para isso que ali estava. Comecei a rolar e senti que o David Faustino tinha ficado ligeiramente para trás - depois da meta disse-me que ficou a ajudar o Espanhol. Para quem anda sempre a perguntar o que é o espirito do trail, este é o espirito do trail! Ser altruísta e ajudar aqueles que estão a necessitar de um pequeno empurrão ou de um conforto, nem que seja psicológico e momentâneo. Prejudicar um pouco o seu andamento e um tempo final para dar pequenas ou grandes ajudas a quem está a precisar delas.

 

Eu não acredito em ajudas para fazer um trail a 100%. Partir em grupo de 3 ou 4 pessoas e fazer 40 ou 80km sempre em grupo. O trail ou trilhos, como preferirem, tem que ser mais do que isso. Tem que ser uma experiência singular e pessoal. Tem tudo a ver com o que batalhamos, com o que sentimos e com o que ficamos depois da experiência.

 

Em casos particulares faz todo o sentido ter pequenas recargas de energia durante uma prova, mas tem que ser sempre sem retirar a totalidade da experiência que é fazer um trail mais longo. Toda  a parte de autoconhecimento, autosofrimento e autodisciplina tem que ser feita a solo. Com treino, dedicação e humildade. As provas são apenas o reflexo dos treinos.

 

Daqui o meu respeito e sincero obrigado por pessoas como o David Faustino partilharem as suas experiências connosco. Ter alguém que tem muita experiência em  ultras e  corrida, não só é um prazer mas uma regalia podermos ouvir e aprender com quem sabe e já passou por muito mais do que nós.

 

Final do túnel

Começo a ver luzes de uma cidade e percebi estávamos já a chegar a Albufeira. Entramos pela zona da camionagem, seguimos cerca de 2km por um jardim, quase sempre a descer e entramos nas traseiras do Inatel. Pelas ruas por onde passávamos, as poucas pessoas que se cruzavam connosco ficavam a olhar como se alguém com as nossas vestimentas e cheios de lama até meio das pernas fosse uma coisa completamente diferente do habitual.

Avistei a recta final que passa mesmo em frente ao hotel e que estivemos a fazer o reconhecimento antes da prova, passar por baixo do túnel de acesso e entrar na areia. Aqui foi a única surpresa da prova, pois pensei que iria acabar no mesmo ponto onde começou, mas a organização pregou-nos uma partida e moveram a chegada para a esquerda fazendo-nos percorrer quase 100 metros de areia para depois subir para uma escadaria do edifício que permite o acesso à praia.

Muita luz e algumas pessoas à espera. O speaker anuncia o meu nome e apercebo-me da presença da Liliana e do Nuno Malcata, com máquinas nas mãos a eternizar o momento. Um ou outro atleta ainda lá estava mas devido ao frio e ao vento forte e gélido, todos os atletas depois de passarem a meta desapareciam para o conforto do lar ou do hotel para tomar banho e aquecerem.

albufeira_07

 

Afinal e a Meia Maratona ?

Confesso que senti um pouco o peso da Meia-Maratona dos Descobrimentos, feita no fim-de-semana anterior. Não foi feita em esforço máximo, mas foi um grande esforço do ponto de vista cardio e muscular. Passei a maior parte da semana com algumas dores nos bíceps-femoral e tive que controlar e preparar a recuperação para os 47Km.

No fim, confirmou-se o que pensávamos dois meses antes da prova. Foi uma prova muito rápida, talvez rápida demais para se aproveitar muitos dos pormenores com que fomos contemplados. O primeiro classificado fez os 47KM em 3h44m. Isto é ritmo de maratona de estrada! Muito rápido para um trail, mesmo com pouca altimetria. O meu Garmin deu 700D+ no final.

 

No final cheguei com 4h26m e uma média de 5:33/km. Muito acima da média de estrada mas alta para um trilho e para um piso que tinha muitos km's de lama.

albufeira_09

Fica a questão no ar: se não tivesse feito a Meia-Maratona tão rápida na semana anterior, será que não teria feito o Night Trail de Albufeira mais rápido? Talvez. Ou quase de certeza.

 

Estou convencido que seria muito fácil retirar 15/20min ao tempo final devido aos +/-3km que fiz a pé nas subidas mais íngremes enquanto recuperava as pernas. Daí a importância de se planear as provas, os treinos, os períodos de descanso e a alimentação. Daí andar sempre a bater na mesma tecla. O macro planeamento dos ciclos de carga de treino ajuda muito a obter melhores resultados.

 

 

E a 2ª edição da prova ?

A prova no geral foi bem conseguida. O percurso tentou percorrer diversos pisos e os abastecimentos nos 47km foram suficientes. Havia em quantidade e diversidade. Não havia necessidade de mais sinceramente, já que a prova foi muito rolante. No entanto, houve problemas nos abastecimentos da prova dos 20km por terem sido colocados mais tarde do que era suposto, o que fez com que a maior parte dos elementos dos 20km passa-se por eles... sem eles lá estarem. Um ponto muito importante a rever em próximas edições.

 

Quanto às marcações, houve alguns pequenos problemas. Em algumas zonas notou-se que os habitantes literalmente mexeram nas fitas. Tanto arrancadas como cortadas, muitas não estavam no sitio. Em alguns pontos, a distância entre fitas para uma prova nocturna era um pouco elevada e levantou algumas dúvidas sobre o trajecto.

 

Os marcadores tinham na parte inferior um elemento reflector, mas revelou-se pequeno, visto que em alguns sítios onde a fita enrolava ou desaparecia no meio dos ramos dos arbustos onde estavam colocados esse elemento deixava de ser reconhecível. Prender as fitas nas duas pontas ou aumentar ligeiramente o ponto reflector resolve 99% destes problemas encontrados.  O material plástico utilizado também não é a melhor opção durante este período do ano em que a chuva abundante faz com que a fita enrole sobre si mesma mais rapidamente, havendo menor material a ser identificável pelo corredor.

 

Deixo a sugestão para numa próxima edição do evento:  que o grupo dos 47Km saía com maior diferença horária face aos dos 20km. É sempre mais interessante quando os primeiros do longo chegam com outros corredores do curto a chegar e ter mais pessoas concentradas na meta. Se antes de chegarem os dos 47km, os dos 20km chegam e vão às suas vidas, perde-se um pouco da envolvência e do apoio humano.

Aumentar de 30 minutos para 60 minutos a diferença na partida pode ser o suficiente para ajudar neste aspecto e permite também que o dos 20km consigam assistir à partida da prova longa...

 

No geral,  foi um fim-de-semana bem passado com mais três elementos da crew. Deu para passear por Albufeira, pela praia e por sítios muito curiosos de observação, o que aliado às provas é o que de bom tem os trilhos. Percorrer o nosso país e descobrir todas as coisas maravilhosas que tem para nos oferecer e que muitas vezes nos esquecemos que estão ali.

Temos muito o hábito de pensar que a galinha da vizinha dá melhores ovos. O que temos que aprender é a gostar do que temos e do que fazemos para retirar o máximo do que existe nesta vida.

 

Boas corridas, Boas festas e até 2015 que agora é altura de descansar as pernas até Fevereiro/Março.

Um treino muito especial

david.jpg

Por Filipe Gil:

Esta 4ª feira, dia 15 de outubro, vai decorrer um treino muito especial. Faça chuva ou sol, a crew do Correr na Cidade em conjunto com o David Faustino e a sua mulher, Isabel Moleiro, vamos, juntos, treinar nos trilhos de Monsanto. É tão especial que lhe chamamos Premium Edition. E porquê, perguntarão vocês?

 

Pela simples razão que este casal de corredores é do melhor que há por aí, em vários aspetos. David Faustino já correu mais de 60 maratonas, metade delas em estrada e outras tantas nessa distância ou maior em trilhos.

 

Recentemente estiveram no Ultra Trail du Mont Blanc, para fazer a distância maior. Mas não é só por isso, a sua simpatia, dedicação e abordagem à corrida de ambos é maravilhosa. Digo isto pela experiência que já tive de treinar duas vezes com o David e a Isabel. Merece mesmo a pena. É daqueles treinos imperdíveis, tanto para os mais experientes como para os que agora se querem iniciar nos trails. No último treino que alguns membros da crew fizerem com este casal por Monsanto - a preparar este treino (sim, nós preparamos os nossos treinos antes de os fazermos convosco) - aprendi mais de trail do que em leituras seguidas de sites da especialidade.

Perguntei ao David o que pretende ele fazer com este treino, e respondeu-me assim: 

"Vejo o treino da próxima quarta como uma sessão de "free running" ou seja, livre, sem objectivos pré-definidos (excepto a distância). A ideia é a partilha da experiência que é correr em liberdade na natureza. Para mim, o objectivo da corrida é limpar a cabeça e terminar a transpirar mas com um sorriso. É isso que vamos tentar fazer... Gosto do vosso lema "ninguém fica para trás" e este será seguramente seguido. De resto nada de recomendações especiais, há água pelo percurso, apenas é necessário o calçado adequado e o frontal.O percurso dos homens e mulheres será pensado de forma a que o percurso feminino (ou de quem se sinta pouco à vontade para arriscar um pouco mais) não seja muito diferente e nos possamos cruzar pelo caminho várias vezes".

Já Isabel Moleiro, que será responsável pelo treino das senhoras, disse-nos que o treino de quarta-feira será um "percurso fácil, onde o objectivo é encarar um treino em trilho/terra com a mesma naturalidade duma saída em estrada. O ritmo será ajustado a todas as participantes."

fotografia 2.JPG

Estão reunidas todas as condições para ser um grande e excelente treino de trail. Oportunidades destas não surgem todos os dias. Vemo-nos esta 4ª feira?

 

Ficha técnica do treino:

Hora do encontro: 19:20
Local: Porta do Centro Comercial Twin Towers.
Partida: 19:30

Daí iremos em direcção ao parque de estacionamento do Bairro da Serafina, junto à rotunda. Aí podem "apanhar-nos". Fazemos aqui um compasso de espera de 5 minutos, no máximo. E subimos para os trilhos de Monsanto guiados por David Faustino e Isabel Moleiro.

Tipologia de treino: trail. Obrigatório o uso de frontal e de ténis de trail (sobretudo porque haverá alguma lama devido às chuvas).

O treino deverá demorar cerca de 1h30m, e terminará no mesmo parque de estacionamento.

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