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Correr na Cidade

Ode ao Azores Triangle Adventure

 

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Paisagens, pessoas e trilhos. Esta é a tríade que faz dos Açores um dos melhores locais do mundo para correr. E o Azores Triangle Adventure é o expoente máximo.

 

Vão chegando a conta gotas, uns vindo diretamente de Lisboa, outros da Terceira ou de São Miguel. Ao longo de quinta-feira as mais de 130 pessoas que participam vão-se encontrando na cidade da Horta. Tiram as primeiras fotos, sorridentes e nervosos, e partilham experiências, objetivos e dúvidas. São muitas as caras conhecidas o que nos faz sentir um pouco mais em casa e por momentos esquecer que estamos numa ilha longe de casa.

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Dorsal levantado, briefing ouvido, hora de jantar e preparar o material para o começo da aventura, afinal ainda há muito por fazer e algumas arestas por limar, uma prova por etapas tem sempre algumas nuances.  Arrumar e escolher o material a levar foi em si um desafio.

 

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Primeira etapa da prova, Pico. O desafio é alcançar o topo da montanha que imponente se mostra a quem ousa desafia-la. O sol brilhava intensamente, demasiado, e depois de 10km sempre a rolar a bom ritmo começamos a subir, subir, subir até ao nosso destino final. A primeira parte da subida de Criação Velha até à Casa da Montanha foi o momento mais penoso dos 3 dias. A subida por um caminho estreito e sinuoso foi frustrante e durolosa. Valeu-me a vontade do meu colega de aventura, Ulisses, que me incentivou e deu ânimo para continuar com força. Chegados à casa da Montanha foi altura de recuperar forças  e recordar amigos e memórias. Os cerca de 3km até à meta são espetaculares e os mais de 40 pontos de sinalização marcam o caminho até ao ponto mais alto de Portugal. Correr, o termo mais correto será andar, acima das nuvens tem algo de mágico e desperta-nos para o nosso lado mais sonhador.

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Alcançada a meta é hora de festejar, gritar e descansar. A parte mais dura ainda estava para vir, o regresso até à casa da montanha que marca o verdadeiro final da primeira etapa. É preciso ter cuidado na descida e guardar energia e água para esse efeito. Mas antes de descer ainda me faltava subir mais um pouco, afinal o pico do pico estava já ali à mão de semear e era uma oportunidade única que não podia desperdiçar.

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Depois da primeira conquista, hora de regressar para descansar, recuperar e preparar a etapa seguinte. Ainda havia muito para correr. Entre as viagens de barco e autocarro cada espaço serve para dormir, recuperar e acima de tudo conviver e partilhar. Muita conversa, troca de ideias e experiências.

 

Segunda etapa, São Jorge. Depois de uma longa viagem de autocarro é hora de chegar ao ponto de partida, São Tomé. Até ao abastecimento da Fajã dos Bodes são 12km com 1200D- e 750D+, um verdadeiro carrossel de sobe e desce com muita humidade, calor e o sol a brilhar com força. Começamos a etapa com uma descida vertiginosa para momentos depois sermos confrontados com uma subida íngreme sempre expostos ao sol. Primeiro teste à nossa resistência, é hora de cerrar os dentes e avançar metro a metro, com as t’shirts e calções colados ao corpo do suor.

Até à Serra do Topo ainda temos que enfrentar mais uma subida e os seus muitos degraus,  dentro de uma verdadeira floresta fechada, tendo tido nos bastões o meu maior aliado, não os larguei desde o início, quer seja a subir ou a descer.

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A descida até à Fajã de Santo Cristo foi o ponto alto dos 3 dias. Deixei-me ir e corri sem pensar com um sorriso nos lábios a contemplar a paisagem. Chegados a este ponto só restava correr paralelos ao oceano até à meta. Em São Jorge encontramos a verdadeira hospitalidade Açoriana e a maioria dos corredores é convidada a tomar banho na casa de uma senhora, que entre conversa, café e cerveja nos oferece um revigorante banho.

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Esta foi a prova que mais gostei, talvez por ter boas memórias de São Jorge ou já ter percorrido a grande maioria da prova, mas a beleza da ilha, os trilhos junto ao mar e as descidas com paisagens fantásticas fizeram desta prova a minha preferida. 

Segunda etapa concluída, já só faltam 42km para a meta.

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Terceira etapa, Faial. Chegados ao vulcão dos Capelinhos para o ponto de partida desta última etapa não podemos não reparar nas estacas que assinalam o percurso, subir é a palavra de ordem. Mas poderia ser de outra forma? Depois de um começo plano no Pico, outro a descer em São Jorge, no Faial só poderíamos começar a subir. Até à Caldeira seriam cerca de 15km com 1500D+. Talvez por ser a última etapa senti-me cheio de força e assim que foi dado o tiro de partida arranquei a todo o gás. Ao fim do primeiro quilómetro parei, falei com o meu companheiro de aventura que tinha ficado mais para trás. Dois dedos de conversa e ordem para avançar que nesta etapa iriámos ter ritmos diferentes.

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Após o primeiro abastecimento entramos nas levadas, momento espetacular da prova, trilhos lindos com muitos pontos de água e perfeitos para rolar. Percorri a maioria das levadas sozinho e é um momento que adoro. Acabado este maravilhoso trilho é hora de subir rumo à caldeira. Chegados até aqui podemos respirar de álivio, o pior já tinha passado. Tinha agora metade da distância por percorrer mas quase sempre a descer ou em plano, ainda deu para rolar alguns quilómetros abaixo de 5m/km. 

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A Horta estava à vista e com ela a tão ambicionada chegada à meta, o culminar de 3 etapas e 100km percorridos nos trilhos açorianos. O Triangle Adventure tinha sido conquistado.


Fantástico. Desde os trilhos, sempre bem marcados, às paisagens diferentes e únicas, ao povo açoriano que tão bem recebeu os participantes. 

Uma palavra de apreço para a equipa do Azores Trail Run que está de parabéns pelo trabalho fantástico na organização da prova, sempre bem-dispostos e disponíveis para ajudar.

 

Gosta de trail? Quer conhecer os Açores? Quer participar numa prova por etapas? O Azores Triangle Adventure deve estar no topo da sua lista.

Vem aí o Trail de Bucelas!

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É já no dia 7 de fevereiro que se realiza mais uma edição, a IV Edição do Trail de Bucelas. E quem lá vais estar? Sim, nós, Correr na Cidade que somos, mais uma vez parceiros na divulgação da prova. E vocês? Vão ficar em casa. Têm até ao próximo dia 31 de janeiro para se inscreverem. Nós ajudamos: aqui ou aqui.

E, se repararem bem, esta edição está diferente, uma vez que só há uma distância para o trail 21KMS e depois têm a caminhada de 12 KMS - ideal para quem está a recuperar de lesões ou quer apenas caminhar pela família.

Este é um evento que nos entusiasma sempre. É muito bom e é relativamente perto de Lisboa.  O IV Trail de Bucelas vai ser cronometrado e terá medalhas para os 5 primeiros classificados (femininos e masculinos) da geral​ dos 21 Kms​. 

Ainda não estão convencidos? Vejam como foi no ano passado. Um detalhe importante, segundo a organização, "os lucros deste evento revertem, na integra, a favor da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Bucelas". Ou seja, mais uma boa razão para participarem. Vemo-nos lá?!

 

Local: Bucelas-Largo Espirito Santo
Partida: 9h00

Preço: 
12 euros para o trail
8 euros para a caminhada

 

 

Race Report: Trilhos do Javali

Por Ana Sofia Guerra:

 

No passado dia 12 de Dezembro, Sábado, realizou-se uma das provas de trail que me deu mais gozo de fazer – Trilhos do Javali.

 

Tal como referi no post de apresentação da prova, este evento realizou-se em parceria com a AMCF (Associação de Moradores do Casal das Figueiras – Arrábida Trail Team) e pela Associação de Atletismo Lebres do Sado. E foi o espírito desta parceria que mais se notou nesta prova. Tive a noção que tudo tinha sido feito com paixão pelo trail: desde a escolha dos trilhos, às modestas mas funcionais instalações da Associação, o apoio dado pelo Staff ao longo da prova e pelo facto de ter encontrado alguns nomes importantes do trail running nacional.

 

Mas vou começar pelo início: a partida! Na semana passada tinha ficado combinado que a Bo Irik ia fazer esta prova comigo, não só para puxar por mim como para recuperar a sua condição física. E eu estava deliciada com a ideia. As provas na companhia da Bo são sempre divertidas e cheias de aventura. E esta não fugiu à regra.

 

Ao contrário do que normalmente acontece, não estava nervosa na partida, sabia que tinha treinado pouco e não estava com a forma física de Novembro do ano passado quando foi a prova Arrábida Ultra Trail onde fiz o meu melhor tempo em 15K em trail (2h14). O objectivo não era quebrar este tempo, mas sim dar o meu melhor. E dei!

Lá fomos nós as duas a subir em direcção à serra, com a Bo sempre a puxar por quem estava com mais dificuldades e que acabavam por retribuir este gesto com um sorriso.

Íamos super contentes com a prova, com trilhos para todos os gostos e com um Sol e calor atípicos para esta altura do ano. E eis que, algures pelo 5K e num “single track”, deixo de ver a Bo que ia à minha frente e vejo uns pés no ar. Um par de metros mais à frente avisto-a agarrada ao joelho a pensar que tinha partido alguma coisa, mas tudo não passou de um susto e aquilo até nos deu mais “pica” para correr aqueles trilhos a descer a toda a velocidade (minha velocidade, entenda-se). E é isso que consigo fazer bem em provas de trail, descer. Era aí onde ganhava algum tempo.

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No 7K ouvimos a voz do Stefan Pequito, mesmo antes de o ver, e foi uma festa. É sempre bom vermos companheiros de luta, principalmente quando estão como voluntários a dar apoio aos corredores. Eles sabem o quanto esse apoio é importante. Depois da foto, beijinhos e abraços lá seguimos nós sempre divertidas e sorridentes.

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Passo pelo abastecimento o mais rápido que pude, onde gastei cerca de 1 min para beber água fresca e lá fomos nós. E foi nos últimos 5K que senti esse grande apoio do Staff. Tivemos direito a palmas antes duma subida íngreme, fotos fantásticas e, nos últimos 2K aparece a "cereja no topo do bolo" – o apoio do Stefan e do Lino Abel Luz.

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E foi aqui que me esforcei mesmo muito: as minhas pernas não estavam a contrair como deve ser e estava mesmo cansada. Mas a cabeça só me dizia “vamos lá, tu consegues!”. Não é todos os dias que chegamos à meta escoltadas por 2 grandes atletas e com o mesmo sorriso desde o início. Fiz 2h29, mas pouco importa. Para mim é a aventura que conta, não a medalha!

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Em relação a críticas à prova, não tenho nada a dizer. Para um primeiro evento de trail desta organização, com inscrições esgotadas mais de um mês antes, com um notável esforço para que tudo corresse bem e com um Sol maravilhoso que irradiou este dia, dou nota muito positiva! Acredito que o orçamento que tinham disponível não permitia grandes manobras e, mesmo assim, tiveram a ideia de apoiar uma causa social duma instituição. Espero que para o ano tenham a coragem e a audácia de fazer um evento semelhante. E mal posso esperar por esse dia!

 

E agora vou aos agradecimentos: a toda a crew que esteve presente na prova e cujas palmas na meta nos dão mais motivos para continuar a correr, mesmo já tendo terminado a prova; e à Bo Irik, uma mulher cheia de garra, divertida e que nunca me deixou quebrar! Obrigada, Bo!  

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O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica III

Faltam menos de 2 semanas. No dia 28 de agosto de 2015, cerca de 2300 participantes, entre as quais muitos portugueses, irão dar o tiro de partida do UTMB.

 

Esperamos por relatos e histórias fantásticas de todos os que se aventuram neste prova épica e iremos seguir com atenção o desenrolar da prova e acompanhar os esforços de todos os nossos amigos.

 

Enquanto aguardamos podemos saborear a fantástica aventura do David Faustino e o seu UTMB de 2014. Podem reler aqui a crónica II  e a crónica I.

 

A vontad de um dia estar presente e fazer parte desta comunidade aumenta.

 

Por: David Faustino

 

Meta à vista

O Sábado é passado no meio de paisagens de postal, continuando a alternância de subidas e descidas com o cansaço a ser cada vez mais um companheiro de viagem.

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Durante a tarde, deixamos Italia e entramos na Suiça. Nada muda muito. Subidas, descidas e cada vez mais cansaço. O corpo pede descanso, mas sabemos que ainda falta muito.

 

É talvez a parte da prova que mais me custou. Estamos com mais de 24 h decorridas e ainda faltam cerca de 50 kms. Num ou noutro abastecimento vou pedindo informações sobre a minha mulher. Nem sempre consigo obter resultado, mas vai dando para acompanhar. As últimas informações permitem-me concluir que tem vindo num ritmo relativamente constante e previsível. Isso é bom, vamos lá regressar a França!

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 Cansado

 

A entrada na segunda noite traz-me sensações ambíguas. Se por um lado o corpo já não quer continuar, por outro a mente (e o Garmin) dizem: são dez da noite e já “só” faltam 35 kms. Está quase.

 

O quase é bastante relativo. A parte final do percurso é mais técnica e a progressão mais lenta. A velocidade de progressão já é sempre medida a dois dígitos o km. O percurso eterniza-se. Por outro lado, tendo toda a prova sido feita sem quedas e sem nenhuma dor localizada, agora sinto uma dor aguda no tornozelo direito que toca no sapato a cada passada. Progressivamente, ao longo da noite, a dor torna-se difícil de suportar. Com os bastões até poderia aliviar o apoio no pé, mas sobre bastões já está tudo dito. Aperto o sapato. Alargo os atacadores. Sento-me para repousar. Retiro palmilhas. Volto a apertar o sapato doutra maneira. Nada resulta e o tornozelo já está em tamanho XXL, assim como a dor que dele emana. A dupla Salomon XT Wings 3/tornozelo não se está a entender, para meu desespero.

 

As sensações de prova começam a ser claramente negativas, mas não vou ficar a 20 kms da meta. Faz-se luz! Retiro o Buff, que já não estava a usar, da mochila e coloco-o por baixo da palmilha do sapato, fazendo altura e evitando assim o contacto do sapato com o tornozelo. Já não dói (quase) nada!

 

Sentia que agora dificilmente algo me iria impedir de chegar ao fim, mas estava desgastado por tudo o que se tinha passado e, obviamente, pela distância.

 

Estamos a chegar ao final da noite, estou de rastos, e no abastecimento dizem que faltam menos de 11 Kms e que é sempre a descer.

 

Dificilmente algumas palavras poderiam ter mais impacto em mim: 11 kms, sempre a descer! Invade-me uma estranha sensação de euforia e sinto uma força que me surpreende. Resolvo desatar a correr monte abaixo. Primeiro com alguma cautela, já não corria há algumas horas. A sensação não passa e corro cada vez mais. Passo por pessoas que me ultrapassaram ao longo das minhas dificuldades e que ficam algo perplexas com este renascimento. Alguns inspiram-se e começam a correr também. Um espanhol acompanha-me e, puxando um pelo outro, entramos em Chamonix para os últimos dois quilómetros feitos a 5’30/Km.

 

Naquelas ruas, nos metros finais, sinto gosto em correr, sinto-me feliz por estar ali, doí-me 99% do corpo, mas tenho a cabeça 100% repleta de sensações positivas. Revejo flashes da prova: a chuva, os bastões, onde está a minha mulher, sentado naquela subida a tirar o sapato.

 

Passo a meta. Acabou.

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 Chegada!

 

O Rescaldo

 

Recupero o folgo, vejo o ecrã com a classificação e pergunto pelo dorsal da minha mulher. A previsão de chegada permite-me descansar um pouco até lá. Decido ir para o carro. Entretanto, lembro-me que o prémio de finisher é um colete e que me esqueci do levantar. Volto atrás. A viagem para o carro é infindável. Não há célula do meu corpo que não doa. Chego ao carro, coloco um alarme no telemóvel e instantaneamente adormeço.

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Para o homem comum é apenas um colete made in Vietnam, mas é a peça de vestuário mais desejada do corredor de trail amador.

 

Acordo sobressaltado ao som do alarme, tento calçar-me (dói), troco alguma roupa (dói) e volto à meta (dói).

 

Pouco depois chega a minha mulher e aí terminou realmente o UTMB para mim, para nós.

 

Ainda fomos surpreendidos pela presença junto à meta da proprietária da casa onde ficámos em St Gervais, acompanhada dos filhos. Segui-nos ao longo da prova pela internet e quis estar à chegada para felicitar-nos. Parecia mais satisfeita do que nós próprios com o nosso desempenho. Fiquei sensibilizado e agradecido por alguém se dar ao trabalho de fazer isso, num Domingo de manhã, a pessoas que conheceu três dias antes e que, provavelmente, não voltará a ver. Pequenas coisas, mas que marcam…

 

O que reter desta aventura? Talvez que há coisas que não se contam nem se explicam, têm de ser sentidas. Tenho a sorte de ter comigo alguém que, por mérito próprio, também sentiu o UTMB e por isso não tenho necessidade de explicar como foi ou de justificar porque tinha de o fazer. Aos outros não vale a pena tentar explicar, porque provavelmente não o irão entender.

 

Por isso nunca o fiz… até hoje.

O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica I

O Ultra Trail du Mont-Blanc é uma das mecas para os praticantes e apaixonados por trail, sendo para muitos "a prova",  o grande objetivo a concretizar. Sonhamos, planeiamos e treinamos para um dia alinhar em Chamonix de forma a percorrer os 168km, as famosas 100 milhas, que separam o início e o fim desta grande aventura.

 

Com a data da prova a aproximar-se, o Correr na Cidade têm o privilégio de poder partilhar quatro crónicas do David Faustino, um dos corredores nacionais com mais provas feitas e que conta com vários anos de experiência, que retratam todas as etapas, desde a preparação para a prova até à passagem da meta. O David partilha connosco a sua história do UTMB de 2014 que desde já agradecemos.

 

Serão sem dúvida uma leitura obrigatória para todos os que este anos irão marcar presença e para quem sonha um dia realizar esta prova.

 

Por: David Faustino

 

O meu UTMB

O caminho para a linha de partida (I)

 

A sigla UTMB é das que mais faz sonhar o corredor de trail amador. Só o nome da prova que representa, em si mesmo, já impõe respeito: Ultra Trail du Mont Blanc.

 

Do ponto de vista técnico, o UTMB é uma prova de carácter competitivo, com um percurso circular de 168Kms a partir de Chamonix (França) e que passa por três países à volta da montanha mais alta da Europa ocidental, tendo cerca de 9.800 m de acumulado positivo. A prova tem um tempo limite de 46 horas, mais do dobro do tempo tipicamente realizado pelo primeiro (20 horas e alguns minutos) e quem chegar a meio do pelotão demorará cerca de 41 horas. Pelo percurso existem 12 barreiras horárias à saída de alguns dos 17 abastecimentos.

 

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 O percurso do UTMB

 

Assim, foi com alguma naturalidade que, após alguns anos de corrida em estrada e algumas experiências numa modalidade que se estava a iniciar em Portugal, o trail, decidi também eu tentar obter o meu lugar nessa aventura.

 

E digo tentar obter, porque aqui entram vários fatores: o timing da inscrição, a experiência do corredor (traduzida em pontos obtidos em provas reconhecidas pela organização) e a sorte de cada um. Assim, creio que a minha primeira intenção em participar ocorreu durante a primavera de 2012, mas depressa me apercebi que as inscrições tinam fechado em Dezembro, assumindo um erro de principiante… Dezembro de 2012, no prazo correto e com os pontos necessários para a pré-inscrição (na altura eram 7 pontos obtidos num máximo de 3 provas, nos 2 anos anteriores à inscrição) eu e a minha mulher formamos uma equipa para entrar no sorteio (essa é uma das características interessantes da prova, podemos formar equipas para as quais o resultado do sorteio será sempre igual para todos os membros). Situação ideal para mim, que me permite garantir uma ida à prova em família! Mas no sorteio para a prova de 2013 a sorte foi madrasta e recebemos um email convidando-nos a participar na TDS (119 Kms, 7250 m D+) ou a aguardar mais um ano, adquirindo um fator que multiplicaria por dois as nossas probabilidades de aceder ao UTMB. Um sonho, é um sonho, e 119 Kms não são 100 milhas, por isso a opção pelo sorteio para 2014 foi óbvia!

 

Dezembro de 2013, com os pontos em dia, fator 2 para o sorteio e com a garantia de que iria ao UTMB em 2014 ou 2015 (porque à terceira é de vez, isso é, após dois sorteios desfavoráveis a organização garante o acesso na terceira inscrição, caso os candidatos mantenham os pontos necessários), fiz novamente o pré-registo para o sorteio em equipa com a minha mulher.

 

No dia 15 de Janeiro chega o tão esperado email:

 

“Bonjour David FAUSTINO, Vous êtes pré-inscrit pour la course UTMB®.  Le tirage au sort a été effectué et nous avons le plaisir de confirmer votre inscription à la course UTMB® ! Vous devez maintenant finaliser votre inscription, à partir du 15/01/2014 et avant le 27/01/2014.”

Tenho de reconhecer que este processo tem um mérito: quando conseguimos o nosso lugar na prova, ficamos satisfeitos em pagar os 207€ (valor de 2014) da inscrição! Sim, porque no dia em que conseguimos um dos 2.300 dorsais sorteados (existem depois cerca de 200 adicionais

 

para elites, convidados, etc) entre os cerca de 10.000 candidatos ficamos com a impressão que a parte mais difícil do UTMB já está feita. Mas não é bem assim…

 

O caminho para a linha de partida (II)

 

Recuperado da emoção do sorteio, após as felicitações dos amigos que acompanharam o processo, trocadas algumas mensagens com os conhecidos que também lá estarão, vem a primeira tomada de consciência: não sei se alguma vez lá voltarei, por isso quero fazer uma prova decente!

 

Decente, para mim, significa sem sofrimento, com capacidade de disfrutar da prova e sentido que estou num nível físico adequado para terminar dentro do tempo limite. Assim, para servir de formação inicial sobre o que é o UTMB, vivido na primeira pessoa, resolvi começar por ler os relatos de quem por lá já tinha passado, destacando o do Carlos Fonseca e o do Paulo Pires. São abordagens e experiências diferentes, ambas excelentemente narradas, mas com finais distintos. O Carlos foi barrado em Courmayeur com um pouco menos de 80 Kms de prova e por chegar 7 minutos depois do tempo limite. O Paulo fez uma prova regular e bem planeada, com pouco mais de 39 horas, ou seja com margem para imprevistos.

 

Foram leituras esclarecedoras que me ensinaram duas coisas: a prova é exigente e não perdoa grandes erros ou distrações, no entanto está ao alcance de alguém com alguma experiência e que se prepare corretamente.

 

Munido destes princípios, comecei a planear o meu ano de 2014 de forma a chegar em condições àquele que seria para mim o evento do ano, não deixando de planear esta preparação de forma a manter o mais importante: o gosto de correr.

 

A partir de Janeiro o grosso da minha preparação foi feito com provas de média/longa distância, tendo efetuado 14 Ultras, das quais três com 3 dígitos: 101 Peregrinos, Bandoleros (155Kms) e o OMD (160 Kms). Reconheço que não sendo um método de treino muito convencional, dada a elevada carga derivada da distância, o facto de encarrar estas provas sempre com bastante tranquilidade e com um ritmo moderado, permite minimizar o desgaste provocado pelas mesmas. Além disso, estes Kms dão experiência e confiança, sabemos que conseguiremos lidar com aquilo que iremos encontrar na prova alvo. A participação nestas provas decorreu sem percalços ou, melhor dizendo, sem as tão temidas lesões que num instante deitam tudo a perder.

 

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 Em Andorra, em preparação para o UTMB

 

Houve apenas uma prova que não correu exatamente como previsto, a Mitic, uma prova de 112 Kms realizada em Andorra em meados de Julho. O objetivo era realizar um último grande teste, cerca de seis semanas antes do UTMB. Mas na realidade, apenas reforcei a minha ideia sobre a alta montanha: não perdoa. Por motivos vários, terminei a minha prova aos 44 Kms e com 13h40 mins de prova! Do mal o menos, a organização atribuía uma classificação a quem terminava neste ponto e era atribuído um diploma de conclusão duma maratona de montanha. E que montanha! Técnica, difícil, com 3.500 D+ nesses 44 K e diria mesmo perigosa nalguns pontos. O encontro com a minha mulher durante a prova (normalmente corremos separados) que estava a passar pelas mesmas dificuldades também facilitou a tomada de decisão. Retirámos as lições necessárias, porque o que corre bem melhora a nossa preparação e autoconfiança, mas nos restantes casos o importante é aprender e saber evitar os mesmos erros.

 

Adiante. Feita a restante preparação, faltava apenas fazer-se à estrada e rumar a Chamonix!

 

O caminho para a linha de partida (III)

 

Cheguei com a minha mulher a Chamonix na terça-feira anterior à prova de forma a ter algum tempo para descansar, já que a mesma se iniciava na sexta à tarde. Na prática não ficámos exatamente em Chamonix, optámos por St Gervais, que estando próximo (20 kms) nos dava um pouco mais de distanciamento relativamente ao frenesim que se vive na cidade na última semana de Agosto. Alem disso, era também ponto de passagem e local de abastecimento da prova e permitiria ter uma pequena noção do que iriamos encontrar no percurso.

 

Fizemos dois treinos ligeiros, um na terça e outro na quarta. Para que a quinta fosse um dia de descanso total, fomos levantar os dorsais ao final do dia de quarta, encontrando uma cidade que, nesses dias, vive e respira trail. Em Chamonix, tudo aponta para as várias provas em curso ou que irão decorrer, sentindo-se uma atmosfera mais próxima das grandes maratonas internacionais do que daquilo a que estou habituado na montanha. Não sei se gosto, mas que é imponente, isso é.

 

Voltando aos dorsais, o levantamento tem de ser feito acompanhado com a mochila em condições de corrida, ou seja com uma lista tamanho A4 de equipamento obrigatório, que vai desde gorro, luvas, calças e casaco impermeáveis (com especificações bem definidas de impermeabilidade e respirabilidade), frontais, recipientes, manta térmica, etc, etc e etc… Aqui fica a minha preferência pela lógica americana da participação nestes eventos: cada um é responsável por si, e leva o que entender como necessário. A organização é responsável por cumprir com o que oferece no programa da prova e nada mais. Na inscrição para essas provas assinamos documentos que garantem que estamos informados do facto e pronto. Mas como, seguindo a minha opinião, não me seria permitido participar nesta prova, vamos lá respeitar as regras e ir carregadinhos e ordeiramente para a fila. Após um controlo aleatório de algum desse material obrigatório, é entregue o tão desejado dorsal.

 

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 A lista do material obrigatório (são controlados artigos aleatoriamente no levantamento do dorsal e o atleta deverá apresentar os que têm uma seta)

 

Falta agora apenas regressar à base para os últimos preparativos que incluíam escolha de roupa adequada às condições climatéricas (que se apresentavam variáveis), preparação do saco para muda de roupa em Courmayeur e descansar o mais possível antes de, provavelmente, duas diretas consecutivas.

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 Em Chamonix, após o levantamento do dorsal

 

Sexta-feira 29 de Agosto, o dia D. Ao final da manhã, ida para Chamonix para tentar um local não muito distante da partida para estacionar, o que não é tarefa fácil quando um meio relativamente pequeno está repleto de corredores, acompanhantes, meios de comunicação e organização. Após a entrega do saco para Courmayeur, fomos à pasta-party oferecida pela organização onde encontrámos alguns elementos da comitiva portuguesa com destaque para o Carlos Sá, sempre simpático e acessível para todos. Nesta fase do dia, as pulsações já estavam 50% acima do normal.

 

Última ida ao carro para vestir o equipamento definitivo e trazer a mochila. Afinal o carro não ficou assim tão perto e ainda se gastam cerca de 20 mins para cada lado… Resultado, estamos a ficar em cima da hora e já em passo acelerado para a linha de partida. Feito o aquecimento forçado, chegámos um pouco após as 17h00, para uma partida prevista para as 17h30. Não havia mais remédio do que ficar no fim do enorme pelotão e sem direito sequer a visualizar o arco de partida. Não iria ser isso que iria estragar o momento. Por outro lado as enormes nuvens com tonalidades que variavam entre o preto escuro e negro carregado, essas sim já me pareciam poder fazê-lo. Cerca das 17h25 começa a chover copiosamente e, num momento com uma sincronização digna de uma coreografia de cerimónia de abertura dos jogos olímpicos, cerca de 2500 pessoas retiram apressadamente impermeáveis das mochilas. 17h31, apercebo-me do início de movimento da massa humana e ainda estou a apertar a mochila. Despeço-me da minha mulher e cada um inicia a sua aventura, que nesta fase ainda consistia em avançar sem pisar e ser pisado, movendo-se ao ritmo da massa humana compacta que nos rodeava. Ás 17h38 passo pela linha de partida ao som de Vangelis.

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 A partida chuvosa do UTMB 2014

La Bouillonnante: 104km...que afinal tiveram que ser só 54km

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Por: Tiago Portugal


A minha 2.ª Ultra Maratona no estrangeiro:

                              

  • 00h00 de 25 de abril de 2015 em Bouillon (se preferirem Bulhão em português), Bélgica.
  • 104km que, por motivos pessoais, tive que encurtar para os 54km, mas já explico mais à frente.

 

Esta história começou em janeiro deste ano, altura em que em conjunto com o meu irmão Frederico nos inscrevemos(foi mais ele que nos inscreveu) para participarmos nos 104km do Trail de La Bouillonnante, uma prova com 4000D+ e que era o palco do campeonato belga de ultra-trail, uma espécie de MIUT à la Belga.

 

Era a primeira vez que eu e o meu irmão iríamos tentar alcançar os três dígitos, 100km de distância, cada vez se quer mais, e fazê-lo em conjunto tornava a prova ainda mais especial. Infelizmente, em meados de abril, soube que teria que estar em plenas condições físicas no fim do mês o que me pôs num dilema complicado. Se por um lado queria tentar concluir a prova, por outro poderia estar a prejudicar e a pôr em causa o meu futuro profissional e pessoal. Tive que decidir entre a glória presente e a perspetiva de um futuro mais risonho: optei pela segunda, afinal provas há muitas.

 

Foi então que, quarta-feira dia 22 de abril, parti para a Bélgica já sabendo que ia dar por concluída a minha prova no abastecimento dos 54km, o que já não é mau.

 

Aproveitei o dia de quinta e sexta-feira para passear por Bruxelas e descansar um pouco.Vim a saber tive muita sorte e apanhei dois dias atípicos em Bruxelas: sol e calor.

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Sexta-feira arrancámos às 19h30 para Bouillon, a cerca de 180km de Bruxelas, para irmos tranquilos. Definimos estratégias e tentámos atenuar a ansiedade natural antes de qualquer corrida, seja de 100 ou 10km. O Frederico me contou que treinar com desnível é uma tarefa difícil na Bélgica. A região onde decorreria a prova é uma das poucas onde se consegue ter desnível, mas montanhas nem vê-las. Seria tudo feito na floresta e com um perfil de prova tipo “serrote”, sempre a subir e a descer.  

 

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À meia-noite em ponto, os 276 participantes arrancaram ao som dos tambores do castelo de Bouillon para a escuridão da floresta. Durante cerca de duas horas ainda pensei que não fosse chover. Como estava enganado...

 

Optámos por fazer a prova juntos até ao primeiro abastecimento e arrancámos a bom ritmo. Cheguei ao 30km com 3h42 em 98.º posição. Utilizei o singular porque, cerca de 4km antes, o meu irmão acelerou um pouco o ritmo até ao abastecimento. A razão? Simples, ficámos os dois sem água e isotónico, completamente secos. Esta prova até à base de vida ao km 54 só tinha um abastecimento aos 27km. Não estou habituado a provas deste tipo em que temos que ir em semi-autosuficiência e a gestão da hidratação correu menos bem. Ao km 26 ficámos os dois sem nada para beber, mas olhámos para o relógio e pensámos que daí a 1km o problem estaria resolvido.

Chegados ao km 27 e nada de abastecimento. Km 28 e nada de abastecimento. A boca a secar e o stress a aumentar. Aqui o Frederico decidiu aumentar o ritmo, pelo que percebi, chateado por não ter trazido mais água. Km 29 e abastecimento nada, e no sítio onde estava não me parecia que o dito estaria ali ao virar da esquina. E eis que finalmente, ao km 30, vislumbrei o abastecimento. Para quem já ficou sem água, sabe que não é fácil e aumenta muito o nível de ansiedade.

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 Apesar de ter levado muita água, não chegou para as minhas necessidades.

Após reabastecer de água e isotónico, ingerir uns salgados e trocar de t-shirt, pois estava encharcado até ao osso, chovia sem parar há quase duas horas, chuva essa que persistiu quase continuamente durante todo o dia, recomecei a correr.

 

Nesta altura já tinha decidido em seguir sozinho, afinal ia ficar pelos 54km enquanto o objetivo do Frederico eram os 104km. Nem 100 metros depois do abastecimento deparei-me com uma subida, das mais ingremes que fiz até à data. Foram 20 minutos de puro sofrimento, comecei a sentir o coração a bater com mais força, parecia que o conseguia ouvir, passado uns minutos sentia a pulsação no cérebro - nunca me tinha acontecido. Chegado ao cume, parei para descansar durantes uns minutos e tentar baixar o ritmo cardíaco.

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Comecei a caminhar e segui caminho atrás de dois atletas, seguimos a 50 metros uns dos outros, em fila indiana durante uns bons 10km. A partir das 04h00 começou a cair um nevoeiro cerrado, não via mais do que 5 metros à minha frente. A minha própria respiração dificultava a visão pois criava uma névoa que ficava a pairar no ar. A solidão da noite, a escuridão, a chuva constante e o frio fizeram-me ficar desanimado e a sentir-me derrotado pelas condições que enfrentava. Até ao amanhecer corri e andei sozinho. Nas subidas pegava em paus que faziam às vezes dos bastões - bela ajuda me deram mas ainda não foi desta que me converti. Assim que consegui tirei o frontal, estava farto de andar com aquilo na cabeça e troquei o buff molhado que tinha por um seco. Passei por um participante holandês numa subida que estava praticamente a dormir em pé e mal andava, troquei umas palavras com ele, ofereci-lhe um gel com cafeína e segui caminho. 

 

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7h42m e 31 segundos depois de ter iniciado a prova cheguei finalmente ao 54km e à base de vida de Sugny. Aproveitei e troquei para uma roupa seca que tinha deixado no saco, mudei de sapatilhas e comi uma canja. Durante alguns  minutos ainda pensei em continuar. Via os atletas a seguirem caminho e a vontade de ir com eles era muita, mas tive que me conter, não podia arriscar. 

 

Resultado final: os objetivos foram cumpridos, cheguei a meio da prova, 54km, sem mazelas e a sentir-me bem e com força. A prova estava bem organizada mas os trilhos em Portugal são muito, mas muito mais bonitos. Os portugueses são muito mais animados a correr e conversam mais, e ainda bem. Não gosto de correr à chuva. Um pouco ainda vai, mas agora levar com quase 7 horas de chuva já é demais! Aproveitei para visitar o meu irmão e Bruxellas, e fiquei com boa impressão da cidade. 

 

Tenho hoje a certeza que fiz bem em parar naquela altura, provas existem muitas e por vezes temos que optar entre o que queremos fazer e o que precisamos de fazer

 

Boas corridas a todos.

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