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Correr na Cidade

Sou Ultra Maratonista (a conclusão)

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Por Filipe Gil:

 

Uma vez nos 25km, e a sensivelmente meia da prova, rejuvenesci. Mal sabia eu que o pior estava mesmo para vir. Do último abastecimento até ao seguinte, nos 31 quilómetros, o meu joelho piorou bastante. Ainda corri no estradão, e quando este ficou plano voltei a sorrir com os pés. Mas depois veio uma descida manhosa em que conseguia ter a velocidade de uma octogenária. Doeu muito, muito, muito. Quando a descida acalmou e já a andar a direito, sem desnível, o meu joelho continuou a doer. E falhou por duas vezes. De  um momento para o outro, ia caindo duas vezes…a andar. Preocupante. E ali estive mesmo à beira de desistir.


Pensei que estava a arranjar um problema muito grande e que entre a vergonha de não ter terminado e uma ida à faca e uns meses de muletas sem correr, conseguiria suportar melhor a vergonha. Até o Tiago olhou para mim e disse: “Se achas que não consegues, mais vale terminares por aqui”.

 

Segui e cheguei ao abastecimento dos 31km, “o abastecimento das bifanas” e encontrei o Nuno Alves e o Nuno Espadinha prestes a arrancar. Deu-me ânimo, mais uma vez. Eles não estavam a 100% mas eu estava bem pior. Sentei-me, pedi para o Espadinha me ajudar num alongamento e a perna melhorou um pouco. Mas já doía também a subir. Bebi mais Coca-Cola, fingi que comia uma bifana, enchi a boca de batatas fritas e laranja e segui. O Tiago Portugal olhou para mim e disse: “a próxima subida é a mais difícil de todas. O ano passado tive de parar uma série de vezes, vamos?”. Suspirei e anuiu com a cabeça.  

 

Na subida parei entre 5 a 10 vezes. Perdi a conta. Não porque o joelho me doesse – claro que doía – mas era o cansaço. São cerca de 400 metros a subir e é tal a inclinação que levei uns 40 minutos a fazê-la. Aqui decidi tomar um Voltaren para as dores (já tinha tomado um de manhã, antes da prova). Encontrei o Eduardo Pinto a meio da subida que aproveitou e tirou a foto abaixo – que me diz muito. Eu a olhar para o cume da serra, de mãos nas ancas. Nesta subida pensei que nunca mais iria fazer aquela prova novamente, que é muito dura para a minha preparação, que era uma verdadeira estupidez. Claro, ao chegar ao topo me esqueci-me disto tudo e tive pressa de tentar começar a correr -  tanto quanto o meu joelho deixasse. Nessa altura já com 34 a 35 km nas pernas, bati o meu recorde de distância (que vinha dos 33km da Louzan). Em vez de desistir pensei que, pelo menos faço os 42 kms da Maratona, e depois logo se vê.

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Então começamos a descer e a dor mais aguda a voltar. Contudo, ao longe vi o Nuno Espadinha e o Nuno Alves, o terreno começou a ficar um pedaço plano e aí acho que fiz o meu kms mais rápido a cerca de 5/20 minutos/km. Nada mau para quem estava com o “joelho ao peito”.

 

Apanhamos os Nunos no abastecimento seguinte. Ou melhor, eles esperaram um pouco por nós. Daí até ao km 40 fomos os 4. Foi bom, na palhaçada, a tentar correr, a trote, a andar, a cantar, etc.. Eu olhava para os bastões do Alves e mordia-me de inveja. Talvez com eles, teria menos dor e melhor suporte. Mas ainda não foi aqui que senti mesmo a falta, foram uns kms mais à frente.

 

Chegados ao km 40, faltavam 10 para acabar. Senti que já ninguém me tirava o “título” de Ultra. Mais Coca-Cola. Mais um SMS para casa a dizer, “estou nos 40km, já só faltam 10, estou bem! Bjos”. Mais batatas fritas e mais laranja. Depois dessa subida começamos a descer até deparar com uma descida de pedra solta, muito inclinada. Fiquei parado a olhar lá para baixo. Aqui foi uma das partes que mais me custou. Se tivesse bem, teria feito aquilo “a abrir” como estava com o joelho muito massacrado, demorei uns 10 minutos, ou mais.

Nunca desejei tanto ter bastões para usar. Foi muito penoso. Mais lágrimas de dor na cara. A dúvida de terminar voltou ali mesmo. Outros corredores passavam por mim e perguntavam ser eram caibras. Se precisava de alguma coisa. Lembro-me de uma corredora, vestida de amarelo que com a sua voz rouca me disse: “inclina o corpo para a frente e deixa-te ir”, enquanto me deixou a respirar o pó da sua passagem. Fiquei irritado!!

“Menina, eu sei correr, e descer é uma das coisas que faço melhor, inclinar o corpo…bonito, como se eu não soubesse”, pensei enquanto me contorcia de dores. Ela não teve culpa, a minha figura geriátrica prestava--se a esses comentários. Parecia aqueles corredores que nunca correram muito e tentam logo fazer Ultra, “à campeão” e a meio dão “o berro”, para não utilizar uma expressão mais gástrica.

“Não, minha cara menina, eu sou runner e prestes a ser ultra runner. Viste o meu boné  Dirtbag Runner, faço Ultras antes de tomares o pequeno-almoço”. Esta irritação distrai-me com estes pensamentos parvos e deu-me forças para continuar a correr. Passei a marca da maratona e comecei a ganhar algum respeito por mim. Mais à frente o Tiago dizia-me, “já estamos nos 46km, já és ultra maratonista”. Eu sorria, mas sabia que só o seria ao chegar ao Inatel do Piódão – a meta da prova.

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Entretanto o relógio dizia 48km e a meta parecia ainda longe. Aqui estávamos a correr em plano. Sim, leram bem, a correr. Corríamos 2 a 3 minutos, e parávamos 30 segundos. O cansaço da dor fazia a sua mossa, mas o resto do corpo estava estupidamente bem. Ao fundo via o Eduardo Pinto a correr, o Nuno Alves e o Nuno Espadinha como pontinhos no horizonte. Olhámos para trás para ver se a Rute e a Bo vinham por ali, mas nada.

 

As coisas estavam-se a compor. O Pedro Luís liga-nos, goza comigo, no seu estilo muito próprio. O Tiago diz-lhe que o meu joelho já era, e que só conseguia correr a direito. Entretanto começamos a descer. O Tiago avisou que ainda existia mais  um posto de abastecimento. Acho que ele está a gozar comigo, o meu GPS marca 49 quilómetros, o hotel da Inatel nem à vista ainda estava. Aqui irritei-me, cheguei a falar alto com o Tiago: “Achas que estou a fingir? Achas que estou a ser maricas!?”-  Desculpa Tiago, foram as dores. Se eu não descarregasse em ti, não o podia fazer com mais ninguém.

 

Descemos com dificuldade, eu, ele estava bem, e fomos ultrapassados por mais corredores, uns com mais 20 quilos que eu….em cada perna. Via o Tiago a fechar os olhos de frustração. Senti-me mal. Mas estava a pensar só em mim e no meu joelho. Terminada a descida…nova descida, em caminhos de cabras. Tivesse eu bem e tinha voado por ali com um sorriso nos lábios. Mas fiz aquela última descida da prova de novo com lágrimas nos olhos. O joelho estava mesmo a ceder. Cheguei ao último abastecimento, onde só comi uma laranja, e queria acabar o mais rápido possível. E começava a anoitecer.


Depois do abastecimento e mesmo só a caminhar o meu joelho volta a ceder. Doía tudo, mal me conseguia mexer. Não estava a acreditar que ainda faltavam 3 quilómetros, afinal os 50km passaram a 53km, e ia ficar por ali. Como é que eu diria em casa que não conseguia fazer aqueles kms finais de subida, como iria dizer aos amigos: “berrei a 3 kms do final”. Era uma história dramática de mais para o meu gosto.

 

Ainda pensei pedir ao Tiago para me ir buscar uns bastões algures – e que falta me fizeram! Mas preferi pedir-lhe um Brufen. Comprimido tomado e passados uns minutos a dor amainou. Pude caminhar sem muita dor, o que já não acontecia há mais de 20 minutos. Começou a escurecer, e durante cerca de 1,5km um morcego juntou-se a nós. Voava ao nosso lado com aquele voo nervoso típico dos morcegos. Escurecia ainda mais, mas optamos por não usar frontal. O desejo do Tiago era chegar de dia, o que não foi possível, mas ao menos ninguém nos iria ver de luz na cabeça!

 

Chegamos finalmente à Aldeia do Piódão, faltava uma subida tramada de escadas e inclinações para a meta. Feita a muito, muito custo. Nem me lembro de respirar nessa parte. Chegados ao hotel, olhei para o Tiago para vir comigo, mas ele disse-me para ir sozinho e gozar o momento. Passei o pórtico. Parei vi o Pedro Tomás a vir ter comigo e desatei a chorar. A dor era muita, mas ter passado 8 horas com dores agudas num joelho foi uma conquista tremenda. Masoquismo? Talvez. Mas resiliência, determinação, teimosia, e força de querer, sobretudo.

Finalmente tinha provado a mim próprio que conseguia fazer um feito na corrida, mesmo com muita adversidade. Há muitos corredores, e ainda bem, mas não há muita gente a correr esta distância. Já podia dizer à minha mulher e filhos, e amigos e colegas que tinha corrido 53km. Foram 10h30m. Sei que podia ter feito menos 1 hora, talvez, se estivesse bem, mas isso fica para o próximo ano. Entretanto chegavam a Bo e a Rute. Que campeãs! Sempre no seu ritmo.


Vesti o corta-vento, sorvi duas canjas e liguei para a Natália. Mal conseguia falar de emoção, ela do outro lado preocupada, eu sem conseguir falar. Recompus-me e contei a experiência. Ela estava orgulhosa, e contente, mas preocupada. Disse-me logo que tinha arranjado o contacto de um dos melhores ortopedistas para ver o meu joelho. Depois da conversa para matar saudades, juntei-me aos amigos e celebramos.

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No quarto do hotel, despi-me e fiquei a olhar para os ténis durante um par de minutos. Companheiros fiéis de 53kms sofridos. Sem grandes mazelas nos pés. Nada de fascites, nada de bolhas. Impecáveis. Que jornada. Não sou agarrado a objetos, mas não pude deixar de olhar para eles com emoção. Mas sou despegado, vão agora ajudar o Stefan Pequito nos seus kms do MIUT2015. Estes sapatos foram feitos para andar e não para estarem parados.


Depois tivemos direito a uma massagem pelo Pedro Luís, que devia profissionalizar-se e ganhar dinheiro com isso. Brutal. Juntamo-nos no hotel e jantamos todos juntos, bebemos muita cerveja, e às 22h30m já estava na cama a tentar dormir. Estava exausto, mas com um sorriso na cara.

Hoje, terça-feira, as dores no joelho continuam, sobretudo a descer escadas, mas, dois dias depois o sorriso interno de ser ultra maratonista ainda persiste e vai continuar por algum tempo. Na segunda-feira, ontem,  fui visitar a Drª. Sara Dias ao Espaço Saúde de Corpo e Alma e começámos o tratamento de recuperação do meu joelho.

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Vai demorar, se calhar vou ter que visitá-la mais umas três vezes, mas já sinto melhoras. Devo estar duas semanas sem correr, se tudo correr bem, mas acho que valeu a pena. Fazer uma ultra, e com dor, é muito mental. Foi uma espécie de via sacra que me fez crescer como pessoa. Fiquei apaixonado pela distância dos 50km. Talvez volte um dia ao Piódão e tente fazer a corrida sem dor.  Talvez.

AGRADECIMENTOS

O primeiro para a minha família. Mulher, filhos, mãe, sogros, irmã e cunhado. Sem eles não tinha conseguido ter tempo para preparar isto. Em segundo lugar para o Tiago Portugal que me aturou durante os 53km. Abdicou da sua corrida para me ajudar. Dificilmente tinha terminado se não tivesse a sua companhia dele por perto. Duas vezes vasilei e a presença dele foi importante.

Os amigos e à crew, principalmente aqueles com quem treinei mais nos meses de preparação, o Nuno Malcata, o Nuno Espadinha, o Rui Alves Pinto – espero não me estar a esquecer de ninguém. Um abraço especial ao Pedro Luís, que me ajudou fantasticamente no final da prova. Um luxo!

E à restante crew&friends que me deram conselhos e que seguiram a prova de longe. Somos mesmo uma família! Agradecer também ao Filipe Semedo e à sua marca Puma por terem acreditado num corredor amador, muito amador, e me terem permitido testar material de primeira qualidade.

 

Os próximos objetivos já estão a ser delineados na minha cabeça, já cá andam. Esta viagem e estas crónicas terminam aqui.  Agora vou continuar a fechar os olhos de vez em quando e continuar a ver-me passar a meta do Piódão.

Sou Ultra Trail Runner, porra!

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Ler a 1ª parte desta crónica

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