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Correr na Cidade

Resumo 2014 e preambulo de 2015

 2014_10

 

Por Luís Moura:

2014 para mim foi o ano da confirmação e estabilização nos trilhos. Houve algumas incursões com bons resultados no alcatrão, mas 80% do tempo foi passado em trilhos e a desfrutar de todo o potencial que o nosso país tem para a prática desta modalidade.

 

"Revenge" de provas de 2013
Muitas das provas que fiz em 2014 já as tinha feito em 2013, e algumas em 2012, o  meu ano de iniciação nos trilhos. E foi altura de avaliar a eficácia de algumas novas metodologias de treino e de preparação para as provas. A maneira como encarei as próprias provas também evoluiu e agora o seu planeamento é muito mais complexo e pormenorizado.


Iniciei o ano 100% direccionado para a Meia Maratona da Ponte 25 Abril em Março antes de entrar em força nos trilhos durante os meses mais quentes. Para isso alterei bastante os meus treinos e comecei a especializar um bocado. Focar em ritmos, distâncias e batimentos cardíacos em diferentes treinos e diferentes estágios da preparação. Optei por passar a maior parte do tempo no alcatrão para ganhar o máximo de melhoria cardio-respiratória possível  e de vez em quando lá fazia um salto a Monsanto para matar saudades. Nesse período era normal fazer muitos quilómetros pelo meio de Lisboa, fosse a direito ou num sobe e desce constante para ganhar força e resistência nas pernas.


Primeira prova onde fui aferir do estado foi na Corrida do Fim da Europa, já a meio de Janeiro. Recebi o convite para ir lá no sábado antes do jantar. Como de manha tinha feito 22km, com alguma renitência aceitei, mas visto que a prova era falada em tudo quanto era noticia na "net", lá fui espreitar. Comecei mais devagar nos primeiros 4kms sempre a subir para ver como estavam as pernas e depois deixei rolar até ao fim. Deu para fazer média de 4:51/km sem qualquer preparação para isso. Parecia estar bom.


Umas semanas depois o Filipe Gil convidou-me para ir fazer o Louzan 1000. Quilómetro vertical na Lousa 1 semana antes da meia-maratona de Lisboa. Ainda pensei umas 4 ou 5x antes de aceitar, mas o desafio de ir correr naquela Serra magnífica e com uma inclinação tão brutal (1000 D+ em 6,5km de extensão) levou a melhor. Lá fiz a prova, com alguma gestão de esforço e correu relativamente bem. Vi que estava com pouca força para aquelas subidas tão íngremes mas o cardio estava bom.

 

Primeiro embate de 2014

16 Março, Meia-Maratona Lisboa. Dia D do inicio de época. Acordei cedo, tomei um bom pequeno almoço q.b., apanhei o comboio e lá fui para a ponte. Com aquele alvoroço todo na entrada, ainda pensei que já tinha prejudicado imenso a prova, mas ainda consegui quase por milagre nos últimos 15 minutos ir passando toda a gente até arrancar bastante na frente. Tanto à frente que quando cheguei a meio da ponte já corria folgado e com pouca gente à volta. Dei quase o meu máximo em termos de esforço e bati o meu recorde da meia maratona por quase 8min. 1:33h... achei aquilo brutal. Média de 4:24/km... Disse na altura para mim mesmo que ia demorar um bom bocado para bater aquela marca... mas como estava errado !

 

De seguida apontei baterias para os 100km de S.Mamede. A Meca do trail em 2014 com o campeonato Nacional de Ultra Trail. Muita expectativa e muito nervoso miudinho durante algum tempo. Nunca tinha feito mais do que 64km seguidos.


Pelo meio, enquanto estava direccionado mais para trilhos, fiz algumas das etapas do BES Challenge. Duas semanas antes de S.Mamede decidi à ultima da hora, literalmente, ir fazer o Ultra Trail Sesimbra. 53km de muito calor e sol !!! Seria um bom teste. Arranquei bem na prova, estabilizei ali pelos 30 primeiros e segui durante uns 20kms com o Stefan Pequito - eu a andar muito depressa e ele a recuperar de uma lesão. Parecia uma parceria equilibrada.

 

Mas o ritmo imposto e o imenso calor fizeram com que ficasse no abastecimento dos 25kms cheio de cãibras. Depois de alguns minutos de descanso poderia ter retomado a prova mas optei por descansar o corpo para S.Mamede. Esse era o objectivo principal. Só quando parei no abastecimento é que me apercebi do ritmo a que ia. Nem tinha dado fé, pois não estava habituado a fazer provas tão rápidas. Tres minutos depois de parar, passa a primeira mulher que na altura ainda nem sabia quem era a "Rocket Woman". E durante 3 horas, enquanto esperei por boleia para o retorno, vi passar toda a gente, uns em melhores condições que outros.

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16 Maio - 100Km S.Mamede, segunda prova escalada para 2014. Arranquei bem disposto e ligeiramente rápido. Um pouco acima do que queria, pois o piso deixava. Rolei rápido até ao abastecimento dos 19kms e depois mais à frente, por volta dos 23kms voltei a ter cãibras gigantes, em ambos os gémeos. Exactamente como em Sesimbra. Parei uns 30 minutos no meio do frio nocturno e depois andei um pedaço. Ao fim de 1h30m de sofrimento e com frio, decidi adiar o sonho para outra altura. Uma "alma" fantástica deu-me boleia até ao abastecimento dos 30 kms onde comi muita sopa quente e um pouco de sólidos, e depois passei o resto do dia a receber as dezenas de amigos que iam chegando à meta depois daquele esforço brutal. O primeiro classificado chegou com 10h e pouco e o ultimo com 24horas. Brutal a prova e o esforço que se faz.

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Vai ser assim 2014 ?

Nesta altura fiquei um pouco preocupado com o que se passava pela cabeça. Em ambas as provas desisti mais ou menos na mesma distância e com o mesmo sintoma. Má preparação ? Ritmo muito elevado? Falta de químicos na alimentação ?


Muita coisa correu pela minha cabeça durante uns dias. Nada que me demovesse dos meus objectivos para o futuro mas provocou ali uma grande corrente de pensamento interior sobre o que se passava.


Descansei depois da prova e recomecei os treinos, desta vez com mais determinação em termos de resistência e menos velocidade alta. Voltei aos treinos quase diários no centro de Lisboa, onde dá para fazer uma boa mistura de velocidade com ganho de altimétria, e durante umas semanas fui treinando com a meta já antes definida, a participação pela terceira vez em Óbidos no inicio de Agosto. Prova muito rolante.

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( reino na Costa  da Caparica de 40km na areia)

 

Entretanto, em Maio fui fazer o Louzan trail 33km, prova muito boa, com bom traçado, bom tempo e abastecimentos fabulosos. Tudo por 7€ ! Excelente rácio de preço/qualidade. Ao km25 apareceram novamente as cãibras, mas agora de uma maneira um pouco mais suave e aqui durante uns 3 ou 4kms confesso que os fantasmas das últimas duas provas vieram ao de cima. Passei por um mau bocado na parte final da prova, mas tentei ao máximo não parar e não deixar as cãibras ganhar. Cheguei ao fim com um ritmo acima do que tinha planeado mas bem dentro do normal. Parecia que 2014 ia por caminhos que não estava a gostar muito, só complicações nas provas. Isto do cérebro e do que ele provoca é matéria para muitos livros!!!

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D. Sebastião?

2 Agosto Ultra Trail Noturno de Óbidos. 53km com inicio às 21h e a prova onde me iniciei nos trilhos 2 anos antes. Grande maluqueira visto as coisas agora, começar nos trilhos numa prova de 50km em 2012...


Fiz uma boa preparação e arranquei mais devagar do que em Sesimbra e S.Mamede. Fui a gerir o esforço nos primeiros 25kms, até chegar à zona da praia. Sendo a terceira participação seguida na prova, já sabia ao que ia. No primeiro ano, apanhei muito frio e chuva, e cheguei ao fim bem depois das 8h de prova com o corpo muito massacrado.

No ano passado fiz 7:30h já com a prova a ter 52kms a experiencia foi muito melhor. Este ano, com muito mais treino em cima, as aspirações iam muito elevadas, mas o receio do que se estava a passar nos últimos meses em prova afrouxou o meu entusiasmo. Depois de passar na zona da praia, acelerei um pouco mais e mantive o ritmo quase até final. Só nos últimos 2kms comecei a sentir algumas cãibras, mas foi mais por cansaço acumulado. Devido à gestão do esforço e do ritmo não fiz o tempo que pretendia antes, mas deu para pouco mais de 6:30h, um bom tempo para os meus fantasmas antes da prova. Aqui começa o regresso da travessia da zona das cãibras. E começa verdadeiramente a época de 2014 nos trilhos, em força. Com este animo, comecei a treinar com mais qualidade e mais sozinho em Monsanto. Aumentei o ritmo nos treinos e diminui a frequência. Comecei a treinar rápido. Com alguns treinos em grupo pelo meio. Comecei a ver as médias a descer enquanto preparava o segundo grande embate de 2014, Arga...

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(Apoiar outros atletas também é importante. Neste caso a Liliana foi fazer os 25km do Monte da Lua)

 

A meio de agosto sou convidado para entrar no Correr na Cidade Running Crew, e aqui algumas coisas mudaram. Não muito, mas algumas relevantes. Fazer parte oficialmente de um grupo de pessoas que partilha o mesmo gosto tem as suas vantagens.

 

Um pouco de velocidade
Duas semanas antes de Serr D'Arga, fui fazer a São João das Lampas. Conhecida "mundialmente" como a meia maratona com mais altimétria das redondezas, 300D+. Por esta altura sentia o corpo muito mais solto e leve. O espírito que levei para a prova foi, abrir "até onde der". Quando sentisse o corpo a ficar cansado ou no limitar do esforço, abrandar, para não comprometer Arga. E assim foi, arranquei rápido, andei no meio rápido e acabei a prova muito rápido. Média final de 4:31/km. Excelente como treino para Arga. O corpo sentia-se bem e aquelas subidas não provocaram grande esforço para serem feitas. Psicologicamente estava muito mais forte e a época das cãibras tinha ido embora. Melhor que isso é que 30 minutos depois de acabar a prova parecia fresco.

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No fim-de-semana seguinte fui fazer o MEO Urban Trail de Lisboa. Sabia à partida pelo traçado e pela altimetria que a prova apesar de ter um bom acumulado, ia ser muito, muito rápida. Afinal de contas treinava na maior parte do percurso quase todas as semanas e isso viria a ajudar imenso. Achei que ia ser um bom teste para ver como as pernas reagiam como antevisão para Arga. E lá arranquei na primeira linha, com um inicio brutalmente forte, com o primeiro km a ser feito a menos de 4:00/km, e depois com um ritmo muito bom. Depois foi sempre a abrir no sobe e desce da cidade. No final deu para 25º lugar e média de 5:14/km e com óptimas referencias para Arga.

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O bicho papão do Norte
28 Setembro, Grande Trail Serra D'arga. 53km de pura montanha no Gerês. Pedra atrás de pedra...Tal como em Óbidos, era a minha terceira participação e já sabia muito bem ao que ia. Subidas e descidas brutais para os pés e pernas. A dificuldade não está na altimétria puxada, mas na maneira como é feita naquela montanha muito ríspida e de temperamento incerto, já que só no próprio dia sabemos bem o tempo que vai fazer lá acima.


Início de prova muito rápido pois sabia do afunilamento ao km 3 e assim decidi saltar para a frente. No primeiro abastecimento pelos 10km passei +/- no lugar 80/90 e depois fui gerindo o esforço. Uma coisa que não se consegue treinar por mais quilómetros que se faça em Monsanto, é aquele piso duro e severo que se apanha em Arga, e acabei por pagar isso mais à frente. Quando cheguei ao abastecimento dos 33 kms, depois de 3 kms sempre a descer em pedra escorregadia, fiquei quase 30 minutos deitado a comer banana e laranja com sal. Ajudou o apoio presencial e positivo da Liliana e lá arranquei. Comecei a andar a pé e só apetecia chorar por não conseguir gerir aquele embate físico. Entretanto fui acelerando e comecei a correr. Cheguei ao abastecimento dos 42 kms e ai tudo mudou. O corpo reagiu bem e comecei a correr, devagar, mas a correr sempre a subir a ultima encosta. E a parte final foi feita sempre muito rápido.

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Mal eu sabia que aqueles 33 kms em Arga seriam o ponto de viragem do ano... "Mind over matter". Cérebro mudou de chip e a partir desse dia as cãibras foram-se.


Comecei a trabalhar na minha loucura de 2014 depois de falhar os 100Km S.Mamede...
Direccionei os treinos quase exclusivamente para Monsanto mas quase sempre com ritmos altos para habituar o corpo a subir e descer pequenos desníveis mais depressa.


De volta à velocidade
25 Outubro, recebemos no CnC, o convite para ir fazer o MEO Urban Trail de Sintra, depois de termos feito no inicio de Setembro o de Lisboa, já sabíamos que a prova iria ser muito, muito rápida. Mas achei que ia ser um bom teste para ver como as pernas reagiam na subida para o Castelo. E lá arranquei na primeira linha, com um inicio brutalmente forte, com o primeiro km a ser feito a menos de 3:30/km, e depois com a subida ao castelo sempre a correr e com um ritmo muito bom. Depois foi sempre a abrir na descida e na volta por Sintra. No final deu para 14º lugar e média de 5:10/km. Boas indicações para a prova em Novembro, para bater o record de distancia.


9 Novembro, prova de 15km em Casainhos. Prova que teve dois objectivos, primeiro fazer uma road trip com o Correr na Cidade e fazermos uma prova com quase todos os elementos da crew a participar e aferir do estado da maquina para a semana seguinte ir fazer o Ultra trail da Arrábida. Depois de toda a complicação inicial, o sinal que veio no final da prova foi excelente. Média final abaixo do vencedor da prova deu bons indícios para o fim de semana seguinte.

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O desafio
16 Novembro, Ultra Trail da Arrabida, 82km de trilhos muito rápidos, com 2 subidas mais complicadas e muito estradão. Todo o treino dos últimos meses aqui teve frutos brutais, transformando uma época que antes do verão teve bastantes problemas e ia num caminho muito perturbado, num final de ano muito positivo.


Sinal de aprendizagem e de maturação nos treinos e de um incremento enorme de confiança e drive mental durante as provas. Gestão de esforço físico e de manter a cabeça sempre alegre e a puxar para a frente...  Prova do ano amplamente superada com o completamente inesperado 10º da geral...

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Fim de 2014 sempre em 5ª
7 Dezembro, Meia dos Descobrimentos. Recebemos o convite para participar como grupo na Meia-Maratona e aceitei ir como preparação para os 47 kms em Albufeira na semana seguinte. O plano era rolar para as 1:30h de prova, sem comprometer as pernas para Albufeira, mas ao mesmo tempo manter um bom ritmo e constante. Acabei por bater o meu record por mais de 5 minutos e deu para chegar ao fim com 1:27:53 e 4:09/km. Depois estive a semana a recuperar calmamente para Albufeira onde as expectativas eram grandes...



13 Dezembro, Trail Nocturno Albufeira. Uma prova de trilhos com 47kms e pouco mais de 650D+ anunciados, seriam indicação de uma prova muito rolante. E dito e feito. Os primeiros 20kms foram feitos a ritmo muito forte similar a de maratona e depois abrandei um pouco. Por volta do km 35 apanhei imenso frio e a desmotivação começou a ganhar peso.Tive a ajuda fantástica de um grande corredor nosso amigo e sempre bem disposto, que me colocou novamente na direcção certa. A partir dai foi rolar rápido até ao final e acabar os 47kms em 4h26m, com um 6º lugar da geral e muito frio na chegada.

 


Expectativas para 2015
Pegando em tudo o que aprendi em 2014, vou tentar planear ainda melhor a época. Estive agora quase duas semanas em dezembro a quase 100% de repouso depois de Albufeira, e agora esta semana vou começar a preparar as provas deste ano.


O objectivo principal já está definido: 100Km de S.Mamede em Maio e os canhões vão estar 100% dirigidos para esse objectivo.

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Pelo meio vou fazer 3 ou 4 provas mais pequenas entre os 21 e 50km, mas ainda nada decidido e durante estes dias vou decidir onde ir para que o planeamento corra sem sobressaltos.


E tal como fiz em 2014, o primeiro trimestre vai ser de elevada carga de cardio e velocidade e depois começar a direccionar aos poucos para os trilhos para tentar estar no pico em Maio. A tentativa de descer das 1:25h na Meia e tentar descer das 3:15h na Maratona podem ser objectivos intermédios mas só se não colocar em causa o resto do planeamento. Por isso é uma situação a acompanhar.


Depois dos 100km de S.Mamede pretendo fazer mais algumas provas até Novembro, algumas onde me sinto muito bem e gosto de as fazer como Óbidos e Arga e tentar colocar novos desafios em novos eventos.

Vamos acompanhando e vamos vendo como corre o ano. Se 2015 for metade do que foi 2014, vai ser um grande ano. Se conseguir manter o ritmo de treinos e evitar lesões, vai ser épico em todos os sentidos, onde efectivamente faço uma coisa que gosto e me dá imensa alegria e tranquilidade.

 

Boas corridas para todos, um grande ano de 2015 e não se esqueçam de planear bem as provas e introduzir o descanso pelo meio :)

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