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Correr na Cidade

Race Report: o que aprendi com o 1º DNF…o rescaldo do Ultra Trail Douro e Paiva 2014

Por Pedro Tomás Luiz:

 

Quando, em crianças, começamos a dar os primeiros passos, rapidamente aprendemos que se queremos andar, o cair e o levantar têm de fazer parte da nossa rotina.

 

Ao crescemos somos moldados para olharmos apenas para os sucessos… escondendo, escamoteando, encapotando tudo o que seja fracasso, perdendo assim a oportunidade de aprendermos e de ajudarmos outros a aprender.

 

Escrever sobre um DNF (Did not Finish) é sem dúvida uma tarefa difícil, penso que não só para mim, mas para a grande maioria da blogosfera e das redes sociais (artigos com este tema são escassos e sua proporção deve ser de 1/500 em relação aos que contam histórias de sucesso).

Daí o tempo que este post  demorou a fazer… foi o exorcizar de alguns demónios.

 

Prólogo

O UTDP, com os seus 62km e +/- 4500 de D+, era para mim o maior desafio do ano. Depois de uns esforçados Abutres e de um bom desempenho no Piodão, quase três meses de treino davam-me a confiança e a certeza que havia de superar com sucesso este desafio.

 

Fui vendo o nascimento da prova e em contato com o André (da organização do UTDP), há já longos meses, dado que o CnC era media partner da prova, pude constatar in-loco a extrema dedicação, carinho e cuidado com que esta estava a ser preparada.

 

A Prova e a Organização

Podia continuar a “bater” no ceguinho, neste caso a organização, e dissertar acerca de como as marcações são vitais para o sucesso de uma prova, mas tudo o que tinha a dizer fi-lo diretamente ao organizador, ou seja:

  • Usar batedores antes do início da prova, dá outra margem de segurança que poderia ter evitado o engarrafamento inicial. Não impede o boicote de gentes locais nem de corredores pouco escrupulosos;
  • Espaçar menos as fitas dá outra segurança aos atletas, bem como o uso de tinta biodegradável poderia ter permitido melhores indicações;
  • Elementos da organização junto dos pontos críticos, como era por exemplo a divisão entre a Ultra e o Trail longo.

De resto, a serra é brutal, a paisagem é arrebatadora, a subida do rio é das mais bonitas que alguma vez fiz, notou-se o empenho e o cuidado na escolha dos caminho e o esforço para se percorrer o máximo de single tracks possíveis. Tenho a certeza que foram abertos uns bons km de trilhos, para simplesmente dar aos atletas a possibilidade de desfrutar de sítios quase inacessíveis.

 

Os abastecimentos, ao contrário de algumas reviews que fui lendo, eram mais do que suficientes, compostos do necessário e nos km previamente divulgados. Abastecimentos ≠ espaços de degustação gourmet onde os atletas podem abancar e enfardar toda a comida que lhes couber no bucho até não conseguirem mais correr.

 

Quando no abastecimento do km52 decidi desistir, esperei 10m por um carro, que me levou até Cinfães… penso que está tudo dito, comparando com algumas provas, onde quem desiste vai no carro vassoura.

 

A minha Prova

A minha prova teve como qualquer Ultra, altos e baixos, “morrimentos” e renascimentos. Com os primeiros 20km bastante difíceis, muito técnicos e com muito D+, optei por uma abordagem mais conservadora, não investindo demasiado neste início. O percurso era como já disse, maravilhoso, inserido numa paisagem de cortar a respiração.

 

O segundo terço da prova foram basicamente estradões, já com o sol bem alto e temperatura a apertar. Segui num ritmo abaixo do que tinha programado (o calor e o pouco descanso do dia anterior não estavam a dar a opção de perdão) mas relativamente confortável, apenas com o estomago a dar umas voltitas, mas sem náuseas.

 

Até que… surge a malfada dor no arco plantar do pé esquerdo… primeiro uma moinha que me fez baixar o ritmo e ser “graças a Deus” apanhado pelo Paulo Reis do Run Baby Run, que me literalmente rebocou até ao abastecimento do KM47. Aí tomei um bom banho alimentei-me  e segui com o Paulo. Exceção feita à “moinha” fisicamente estava bem, o caminho era sempre a subir, mas o ritmo era bom, a comida tinha-me animado e o ir acompanhado tinha sido melhor que qualquer gel que pudesse ter tomado.

 

Três km feitos e a dor agudiza ao ponto de qualquer movimento quase me levava as lágrimas.

 

Fui gerindo, com a ajuda preciosa do Paulo, aquele entrave e começou a desenhar-se na minha cabeça, que talvez não fosse acabar. A subida a custo foi-se fazendo, mas quando cheguei à descida, tive de tirar os bastões e apoiar-me para descer, a dor ficava 100 vezes pior a descer.

O Paulo foi-me apoiando e animando, mas assim que o abastecimento do km 52 ficou à vista, literalmente obriguei-o a deixar-me e a seguir o caminho dele (não foi fácil).

 

Sozinho, com o abastecimento a sensivelmente 1km… foi a vez de começar a fazer o meu luto da prova… sabia que não ia acabar… a dor era insuportável. Pensei em todo o trabalho que realizei, pensei onde poderia ter falhado… senti-me triste. Obvio, não era o fim do mundo, eu não vivo disto (embora me alimente disto) mas aquele sentimento de ver o fim da linha a aproximar-se… 

 

Em esforço lá cheguei ao km52, sentei-me no banco de pedra, descalcei-me e avaliei o pé… disse: Bom, acabou! Amigo, mande lá vir o carro vassoura e dê-me uma mini que estou cheio de sede.

 

Epilogo

O que aprendi?

  1. Quando se tem que enfrentar 360km e quase quatro horas de viagem é mandatário chegar com pelo menos um dia com antecedência. Ter chegado demasiado “em cima”, ter jantado à pressa e ir a “correr” para o hotel não foram a melhor opção. Valeu efetivamente ter ido para um hotel (consegui dormir umas 4 horas), dado que quem dormiu em solo duro teve, como de resto é expectável, pouco descanso;

  2. O meu biorritmo às 06:00, mesmo tendo realizado um esforço para regular para a hora da partida, não tem nada a ver com o que tenho às 09:00 da manhã. As duas primeiras horas senti-me bem preguiçoso, valeram os “mergulhos” nas águas geladas do rio;

  3. Ter confiança em todo o material foi um fator muito positivo. Valeu cada hora que dispensei a preparar e arrumar tudo o que necessitava. Isto permitiu-me que não houvesse nenhum esquecimento, nem nenhuma surpresa de última hora. Estar familiarizado com todo o nosso material (sapatilhas, meias, calções, t-shirt, mochila, comida etc… ) é meio caminho andado para superarmos os desafios a que nos propomos;

  4. Estar mais do que alertado para o fim-de-semana de calor que se avizinhava, bem como saber que o meu corpo, graças a este Verão esquisito, não estava minimamente adaptado, levou-me a ter reforçado a hidratação nas semanas que antecederam a prova, bem como a carregar mais água ao longo de toda a prova. O resultado foi o esperado, consegui manter a hidratação (ter a capacidade de urinar é um bom sinal :D)  e apesar da lesão: 1) não tive nenhum golpe de calor; 2) não tive de ir para o hospital para ser hidratado por via endovenosa; 3) na segunda-feira dia estava fresco, fofo e a andar de bicicleta como se nada se tivesse passado;

  5. A hipertermia… essa sensação nunca antes experimentada, em que se sente o corpo a explodir de tão quente… valeram uns mergulhos no rio e o famoso banho de mangueira no km 47;

  6. Saber quando desistir é tão importante como saber quando continuar. Em conversa com o meu treinador ele perguntou-me o que eu preferiria “ter forçado, acabado e ficar um ano sem correr? Ou desistir e dali a um mês estar outra vez em força?” Resposta obvia… pelo menos para mim foi…

Lanço o repto… se quiserem partilhar as vossas aprendizagens nos vossos DNF, adoraria ouvir e aprender… 

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