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Correr na Cidade

Race Report – IV Ultra Trilhos dos Abutres (Parte II)

 

 

Miranda do Corvo – Vila Nova (0km – 9km): Este troço é realizado uma parte em perímetro urbano, com uma voltinha pela Vila, quase em jeito de desfile, para de seguida rumarmos à Quinta da Paiva (para quem não sabe o que é recomendo uma visita, ainda mais se tiverem crianças, é uma experiência única e bem diferente de Zoológicos ou parques temáticos com animais. Ali para além de muitas atividades poderão ver a fauna e flora das nossas serras).

Na galhofa eu o Tiago Portugal e o Nuno Braga lá fomos em filinha, dado que a corrida ainda estava muito compacta, o que fazia que sempre que houvesse um pequeno obstáculo, todos tivessemos de parar. Esta primeira parte começa com uma bela amostra do que se ia passar a seguir, ou seja mando o meu primeiro “bate cú”, percebo que o caminho, não é um caminho, mas sim um rio de lama onde tinha de se tentar correr e que tinha de me deixar de mariquices pois iria ter de conviver com pés molhados e enterrados em lama até ao fim da prova (confesso que ao principio ainda tentei evitar as poças de lama com alguns atalhos… até que enfiei uma “pata” na lama,e além de um pequeno vernáculo que soltei pensei… “Problema do Ai! isto é lama e está molhada, resolvido”.

Chegado ao primeiro abastecimento, coberto de lama, ali estava a comidinha à minha espera. De uma forma farta (que se manteve em todos os abastecimentos) havia marmelada, mel, tostas, amendoins, banana, laranja, batatas fritas, isotónico e água).

 

Vila Nova – Parque das Mestrinhas (9km – 17km): Sabia que a partir daqui iria começar a doer, dado que até ao próximo abastecimento eram cerca de 550 metros de D+. O cenário não mudou muito, continuamos a correr com muita lama e água, mas agora num cenário mais aberto de floresta.
Aqui comecei a perceber que não só o Nuno Braga estava com muito mais pedalada do que eu (basicamente estava a rebocar um camião) como também deu para perceber que as cinco horas dadas pela organização para se chegar ao 25km iriam ser escassos para muita gente). A subida foi-se fazendo, não me senti nem bem nem mal, foi um esforço continuado numa altura em que o corpo já rolava em modo automático.

 

Parque das Mestrinhas – Sra. da Piedade de Tábuas (17km – 25km): Saí do Parque das Mestrinhas convicto que o caminho até Tábuas era mais “um bocadinho a subir” e a seguir viria uma “desbundada” descida. Não podia estar mais enganado… foi uma descida do inferno, onde todas as minhas fraquezas, vieram ao de cima. Pelo menos caí umas cinco vezes, uma das quais empenou de tal forma um dos meus bastões, que ficou sem qualquer conserto.Foi penoso chegar à Nossa Senhora de Tábuas.

 

Sra. da Piedade de Tábuas – Eólicas (25km – 32km): Ao chegar a Taboas comentei com uma atleta “Xi! finalmente estamos a meio, já só faltam 1000 mt de D+” ao que ela me respondeu “O que vale é que são só 5km a subir” (devo ter respondido com um belo sorriso amarelo). Eu e o Braga, com os pés mais limpinhos dado que tínhamos feito uma limpeza rápida da terra e das pedras que se encontravam dentro das nossas sapatilhas, arrancamos felizes e contentes rumo às eólicas.
Como era expectável, tínhamos à espera uma subida ingreme e difícil (às vezes adorava não correr só para poder ver os primeiros atletas a passar por estes locais) sendo que foi aqui que percebi que o cansaço acumulado dificilmente iria permitir que conseguisse acompanhar o Nuno.

Assim foi, o Nuno Braga fresco que nem uma alface trepou por ali acima e eu em piloto automático penosamente e lentamente arrastei-me. Pensei: “então isto é a famosa parede!”. Sozinho, sem ninguém para me abstrair das dores e do penoso caminho tive de apelar a todo o espirito de sacrifício para não parar. Por volta do km 29 começei a sentir uma fome gigante, sendo que ainda ponderei esperar até ao próximo abastecimento, mas estava tão desgastado que ataquei um gel, uma barra energética e os frutos secos. Soube pela vida!! (possivelmente a minha inexperiência de nutrição em corridas foram determinantes para ter chegado aquele estado)

 

Eólicas – Gondramaz (32km – 38km): Chegar a este abastecimento foi uma benção. Primeiro que tinha sido a parte da corrida que mais me tinha arrancado a alma e depois porque por incrivel que pareca ainda estava cheio de fome.
Bebi chá, comi amendoins, banana e tostas com mel, sendo que quando vou para arrancar vejo um corredor a comer uma entremeada no pão…a minha saliva deve ter sido tanta que um membro da organização me perguntou “queres uma que eu vou assar?” ao que feito estupido respondi “deixe estar, já me contentava só com o pão”. E assim foi comi uma carcaça fresquinha e estaladiça… E renasci…
A partir deste abastecimento começa, na minha opinião, a parte mais bonita de todo o percurso. Primeiro com um single track que serpenteia uma linda floresta e depois com as cascatas e da escalada do penedo dos corvos.

 

 

Gondramaz – Espinho (38km – 43km): Estive pouco tempo no Gondramaz, comi uma sopa e segui. Estava a sentir-me cada vez melhor, com dores é certo, mas com ânimo e com força nas pernas. O percurso até ao Espinho era meu conhecido, o que permitiu um andamento regular naquele zig zag entre as margens da ribeira. Este percurso não teria mais nada a reportar, não fosse eu presenciar o momento insólito do dia (classifico de insólito, pois quero acreditar que foi fortuito e que houve uma extrema necessidade de o realizar):

 

Momento Insólito
Seguia na “cola” de cinco corredores, por um trilho estreito em que do lado esquerdo estava uma parede e do direito uma ribanceira, quando sem que nada o fizesse prever o jovem atleta que seguia na frente decide parar para urinar no meio do caminho. Sim! Parar e urinar, fazendo com que toda a gente que seguia no seu encalce não só parasse como presenciasse o “belo” espetáculo. Confesso só não levou com um bidon na cabeça porque estava demasiado lentificado para tal…

 

Espinho – Miranda do Corvo (43km – 47km): Cheguei ao abastecimento do Espinho feliz… já só faltavam 7km e isto estava terminado, ou seja dificilmente não iria acabar!
Encontro a atleta dos 25km, que me cumprimenta e diz “olha este senhor já está aqui!” (ainda hoje não percebo bem o que ele quis dizer), troco algumas palavras com os membros da organização que me encorajam e dizem “agora é sempre estradão e a descer” e respondo à pergunta “a serra não é linda?” – “acredito que deva ser, mas passei 43km a olhar para o chão”. Sorrio e arranco sozinho.

Estradão fora sigo “feliz” e “contente”, ligo ao Stefan falamos um bocadinho e aviso que já estava a chegar, até que…. Uma m!#?!?!# de uma mini levada repleta de lama… não me conti e soltei um vernáculo bem alto… amaldiçoando a organização pela crueldade de a 5km da meta me fazerem encher de lama.

Chegado ao alcatrão… foi um mimo para as pernas… engatei a quinta e fiz 1km e tal a 5:00/km até ao pórtico do Licor Beirão e depois rumo ao pavilhão.

 

Meta: Cruzo o pórtico da meta, ouço as palavras do speaker de serviço e as palmas do pavilhão… que sensação fantástica!! Brutal! Azamboado cumprimento a família e os amigos. E… dores… oh yeah!! elas voltaram…

Resultado: 361º lugar

PARTIDA 00:00:47
Sra da Piedade 04:13:40
Gondramaz 07:31:00
Espinho 08:29:07
META 09:04:04

 

 

Como termino este post uma semana depois da corrida, há direito a um post scriptum

 

Post Scriptum:

 

Fui ao meu limite físico? Acho que não… estive lá quase? Sim! Sem dúvida. Desdenhei a prova, a lama a água e disse que nunca mais lá voltava, mas depois lentamente começei a pensar “aquilo foi brutal, que sensação, será consigo tirar tempo? E se treinasse de forma diferente?”

Hoje digo… quero lá voltar! foi fantástico, a organização é excelente e a prova duríssima. Continuo a achar que é mais uma prova de aventura do que uma corrida em trilhos, mas isso não me tira a pica de querer melhorar o corpo e a minha mente, para voltar mais forte. Ali correr não basta… é preciso muito, mas mesmo muito mais!

PS: Fui fazer no Domingo os 25km do Trail de Bucelas e apesar de ter feito, para mim, um brilhante 111º lugar de entre os 446 atletas que acabaram, senti claramente que a fatura dos abutres ainda estava a ser amortizada.

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