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Correr na Cidade

Race report: 1º Albufeira Night Trail

Por: Luís Moura

 

Em Portugal associamos o trail running a correr no meio da montanha, entre árvores, rios e grandes declives verticais.Mas uma boa parte do país tem outras características geológicas que podem ser aproveitados para também se praticar trilhos.

Neste caso especifico a costa algarvia, onde não existindo nenhum ponto de elevação muito alto, tem algumas serras e permite umas voltas engraçadas.

 

Foi neste espírito que no passado fim-de-semana participamos na primeira edição do Albufeira Night Trail, a convite dos organizadores,  a INATEL, e da associação O Mundo da Corrida. Ao recebermos as primeiras informações da prova deu para perceber imediatamente que 650D+ numa prova de 47 Km só podia querer  dizer que o ritmo da prova iria ser alucinante comparando com os ritmos normais a que estamos habituados nos trilhos. Diria até mais próximo de um ritmo de estrada elevado do que de um trilho leve.

Tendo em conta essa informação, o planeamento de treinos no ultimo mês foi feito nessa direcção, onde reduzi os treinos com grandes subidas/descidas e privilegiei mais treinos em estradão e alcatrão com vista a subir um pouco a parte cardio. Inclusive fui fazer a Meia-Maratona dos Descobrimentos no fim-de-semana anterior como preparação. Depois da surpresa do tempo final nesse dia, viria o impacto na prova que falo em detalhe mais à frente, mas como é evidente, aquele tempo muito rápido na Meia fez mossa.

 

Prova

Chegamos a Albufeira perto das 21h30m e fomos directos levantar o dorsal  nas instalações fantásticas do Inatel. O Kit estava bem composto com um apito, camisola da prova, revista da praxe e uma lanterna minúscula que deveria ser para alguma emergência na prova, mas a minha por exemplo já vinha quase sem carga na pilha.

Depois de uma boa noite de sono e de um pequeno reconhecimento por Albufeira, fomos almoçar em frente ao mar e relaxar um pouco antes de se iniciar a preparação para a prova que começou pelas 16h.

albufeira_00

O tempo estava um pouco "fechado", com algumas nuvens mas nada de muito pesado. Caiu um pouco de chuva 30 minutos antes do arranque mas já era previsto. Como estávamos no Algarve, com a partida da prova ainda durante o dia e com uma temperatura "menos fria" do que no resto do país, optei por ir um pouco mais leve apenas com um corta-vento, luvas e cinto de hidratação pequeno. Objetivo:  era levar o menos peso possível para o ritmo elevado previsto para a prova.

Quase 50 atletas na box da partida criada na praia em frente ao Inatel e às 16 horas em ponto arrancámos.

albufeira_01

Inicialmente fizemos +/- 650 metros ao longo da praia e depois foram quase 2 km a subir até sairmos de Albufeira e entrarmos em trilhos pelo meio dos terrenos de cultivo e pasto.

albufeira_04

( Partida foi lá ao fundo no edifico azul e percorremos o areal até este edifício branco grande na esquerda )

 

Por esta altura destacou-se um conjunto de 7 atletas que durante os km's seguintes iriam definir 3 grupos distintos. Um corredor que avançou e começou a distanciar-se dos restantes, depois 3 elementos no encalço dele e por fim eu e mais 2 elementos já separados uns metros uns dos outros -  mas sempre com um ritmo similar.

albufeira_02

Até ao primeiro abastecimento aos 6,5km o ritmo andou sempre perto dos 4:05/4:15km, muito rápido para uma corrida tão comprida. Nenhum dos 7 usufruiu deste abastecimento.

De seguida entrámos num sobe e desce por estradões até ao abastecimento dos 15km, a média andou muito perto dos 4:40/km. Por esta altura os 4 primeiros rolavam já longe do meu plano de visão e fui seguindo em 5º.

Parei no abastecimento dos 15km para encher o bidão de água e o atleta que vinha atrás de mim passou-me no minuto que lá estive. Novamente ninguém da frente parou no abastecimento.

Do abastecimento dos 15km até ao abastecimento dos 21km foi um segmento com a altimetria quase sempre a subir de uma maneira ligeira. Por esta altura nada na corrida se passou em termos de ritmos ou classificações, uma vez que que naturalmente os corredores com ritmos diferentes já estavam encaixados.

 

Pouco depois junta-se a mim outro corredor e ultrapassa-me antes de chegarmos ao abastecimento dos 28km, no topo de Paderne onde a prova de 20km arrancou. Nesta altura chego com cerca de 20 minutos de atraso em relação ao primeiro e novamente fico a encher o bidão de água e comi rmarmelada e um pedaço de banana com sal. Mais atrás na subida tinha ingerido 80ml de magnésio liquido porque as pernas começavam a acusar um pouco o esforço da Meia Maratona do fim-de-semana anterior -  para além de que aqueles 7km iniciais a ritmos elevados não ajudaram em nada.

 

Segunda metade da prova

Arranquei de Paderne em 7º e lá comecei a fazer o ataque para o alto do Castelo. Nesta parte da corrida as marcações estavam muito distantes umas das outras. Adicionando o facto de estar noite cerrada com muitas nuvens, a visibilidade ser muito muito baixa, o que me  obrigou a usar o frontal com muita intensidade. Aqui o  ritmo teve de ser necessariamente  um pouco mais baixo sempre à procura da próxima fita no meio das árvores, com várias opções de caminhos à nossa frente.

 

Pelo km 30 chego ao topo da serra junta ao Castelo. Dois minutos antes passa por mim um jipe da Cruz Vermelha com três elementos de prevenção a perguntar se estava na prova dos 47km. Abanei afirmativamente com a cabeça enquanto seguia porque estava a triturar uma barra de cereais com chocolate... e que bem que me estava a sentir a ingerir aquele  repasto no meio do escuro até ser interrompido por aqueles holofotes do jipe...

Com várias tropelias pelo caminho por causa da lama, fiz 2km a andar nas subidas mais íngremes para descansar um pouco as pernas. Mas mesmo assim ainda deu para passar aos 30km com 2h37m de prova. Muito elevado o ritmo para uma prova tão comprida e logo no fim-de-semana seguinte a um esforço grande da Meia dos Descobrimentos.

Depois do topo da serra, apanhamos uns 2km de trilhos. A única coisa que me passou pela cabeça foi "trilhos !!!!!! ". Ao fim de 30km, o primeiro troço da prova onde nos sentíamos de facto a fazer um trail puro... ui que sorriso apareceu na cara... Aí foi a descer até um riacho grande que tivemos que atravessar, molhando os pés  com água pura e gelada, porque até aqui já tínhamos apanhado vários km's de lama fina e escorregadia e por esta altura os pés andavam frios e húmidos, mas agora era mesmo água em grandes quantidades.

Depois de passar o riacho, uma subida de uns 45D+ em cerca de 300 metros. Uma brutalidade para quem já ia em quebra física. Fui devagar a tentar recuperar as pernas, que por esta altura já começaram a doer bastante. A fatura do esforço inicial e da prova do fim-de-semana passada estava a aparecer e com o meu nome no destinatário.

 

Estradões e frio

Depois entrámos novamente em estradões, mas agora em mistura de pisos, a intercalar com muito alcatrão.

Por esta altura já era noite cerrada, com muito vento frio gélido estava a fazer mossa no meu corpo e na minha mente. A juntar ao cansaço das pernas, comecei a perder o ânimo por estar a tremer de frio.  E, sem pensar, fui abrandando o ritmo. Ao km 33, 34 e 35 andava a rodar bem acima dos 6/km. As pernas pareciam dois blocos de cimento que não se queriam mexer. Foram uns km's muito complicados, sozinho no meio do escuro cheio de frio com dores enormes e a pensar em coisas que normalmente não deixo entrar no meu pensamento enquanto corro. Parecia que tinha recuado dois anos na minha preparação. Fui abaixo e desci muito o ritmo.

 

A seguir ao abastecimento dos 35km, aparece o corredor que vinha em 8º. Era o David Faustino que vinha no seu ritmo tranquilo e estável. Viu-me a sair do abastecimento quando ele estava a chegar e acelerou para apanhar-me mais à frente. Chegou perto de mim e fez aquilo que era preciso. Fez aquilo que "Eu" precisava. Deu-me um novo alento ao longo de 3 ou 4km onde foi sempre a falar comigo e a sentir que eu não estava bem.

Por esta altura íamos a médias de 5:35/5:45km e as pernas estavam mesmo KO. Aos poucos com o incremento do ritmo comecei a pensar em outras coisas, já que não estava sozinho agora. A mente voltava a controlar o corpo. O David Faustino a sentir que estava melhor foi embora devagar. Só o voltei a apanha-lo no abastecimento dos 41km. Novamente enchi o bidão de água e comi banana com sal.

 

O retorno à corrida

Parti no encalço dele e apanhei-o cerca de 1km à frente. Sentia-me fresco e coloquei um ritmo bem mais alto. Estava de volta!!! Por esta altura vi um frontal mais ao longe.  Era o espanhol que me tinha passado logo a seguir ao abastecimento dos 15km, mas  que,  naquele momento, seguia à minha frente num passo muito lento. Perguntei-lhe se estava tudo bem, respondeu "Todo Bien" e segui.

 

No espaço de 2min saltei de 8º para 6º novamente. Mas mais importante do que isso, tinha retomado o ritmo e o gosto por estar ali. O facto é que entramos em km's  mais protegidos do vento e o corpo aqueceu um bocado. Comecei a desfrutar do que estava a fazer. Comecei a sorrir para comigo mesmo. Comecei a fazer aquilo que gosto, e era para isso que ali estava. Comecei a rolar e senti que o David Faustino tinha ficado ligeiramente para trás - depois da meta disse-me que ficou a ajudar o Espanhol. Para quem anda sempre a perguntar o que é o espirito do trail, este é o espirito do trail! Ser altruísta e ajudar aqueles que estão a necessitar de um pequeno empurrão ou de um conforto, nem que seja psicológico e momentâneo. Prejudicar um pouco o seu andamento e um tempo final para dar pequenas ou grandes ajudas a quem está a precisar delas.

 

Eu não acredito em ajudas para fazer um trail a 100%. Partir em grupo de 3 ou 4 pessoas e fazer 40 ou 80km sempre em grupo. O trail ou trilhos, como preferirem, tem que ser mais do que isso. Tem que ser uma experiência singular e pessoal. Tem tudo a ver com o que batalhamos, com o que sentimos e com o que ficamos depois da experiência.

 

Em casos particulares faz todo o sentido ter pequenas recargas de energia durante uma prova, mas tem que ser sempre sem retirar a totalidade da experiência que é fazer um trail mais longo. Toda  a parte de autoconhecimento, autosofrimento e autodisciplina tem que ser feita a solo. Com treino, dedicação e humildade. As provas são apenas o reflexo dos treinos.

 

Daqui o meu respeito e sincero obrigado por pessoas como o David Faustino partilharem as suas experiências connosco. Ter alguém que tem muita experiência em  ultras e  corrida, não só é um prazer mas uma regalia podermos ouvir e aprender com quem sabe e já passou por muito mais do que nós.

 

Final do túnel

Começo a ver luzes de uma cidade e percebi estávamos já a chegar a Albufeira. Entramos pela zona da camionagem, seguimos cerca de 2km por um jardim, quase sempre a descer e entramos nas traseiras do Inatel. Pelas ruas por onde passávamos, as poucas pessoas que se cruzavam connosco ficavam a olhar como se alguém com as nossas vestimentas e cheios de lama até meio das pernas fosse uma coisa completamente diferente do habitual.

Avistei a recta final que passa mesmo em frente ao hotel e que estivemos a fazer o reconhecimento antes da prova, passar por baixo do túnel de acesso e entrar na areia. Aqui foi a única surpresa da prova, pois pensei que iria acabar no mesmo ponto onde começou, mas a organização pregou-nos uma partida e moveram a chegada para a esquerda fazendo-nos percorrer quase 100 metros de areia para depois subir para uma escadaria do edifício que permite o acesso à praia.

Muita luz e algumas pessoas à espera. O speaker anuncia o meu nome e apercebo-me da presença da Liliana e do Nuno Malcata, com máquinas nas mãos a eternizar o momento. Um ou outro atleta ainda lá estava mas devido ao frio e ao vento forte e gélido, todos os atletas depois de passarem a meta desapareciam para o conforto do lar ou do hotel para tomar banho e aquecerem.

albufeira_07

 

Afinal e a Meia Maratona ?

Confesso que senti um pouco o peso da Meia-Maratona dos Descobrimentos, feita no fim-de-semana anterior. Não foi feita em esforço máximo, mas foi um grande esforço do ponto de vista cardio e muscular. Passei a maior parte da semana com algumas dores nos bíceps-femoral e tive que controlar e preparar a recuperação para os 47Km.

No fim, confirmou-se o que pensávamos dois meses antes da prova. Foi uma prova muito rápida, talvez rápida demais para se aproveitar muitos dos pormenores com que fomos contemplados. O primeiro classificado fez os 47KM em 3h44m. Isto é ritmo de maratona de estrada! Muito rápido para um trail, mesmo com pouca altimetria. O meu Garmin deu 700D+ no final.

 

No final cheguei com 4h26m e uma média de 5:33/km. Muito acima da média de estrada mas alta para um trilho e para um piso que tinha muitos km's de lama.

albufeira_09

Fica a questão no ar: se não tivesse feito a Meia-Maratona tão rápida na semana anterior, será que não teria feito o Night Trail de Albufeira mais rápido? Talvez. Ou quase de certeza.

 

Estou convencido que seria muito fácil retirar 15/20min ao tempo final devido aos +/-3km que fiz a pé nas subidas mais íngremes enquanto recuperava as pernas. Daí a importância de se planear as provas, os treinos, os períodos de descanso e a alimentação. Daí andar sempre a bater na mesma tecla. O macro planeamento dos ciclos de carga de treino ajuda muito a obter melhores resultados.

 

 

E a 2ª edição da prova ?

A prova no geral foi bem conseguida. O percurso tentou percorrer diversos pisos e os abastecimentos nos 47km foram suficientes. Havia em quantidade e diversidade. Não havia necessidade de mais sinceramente, já que a prova foi muito rolante. No entanto, houve problemas nos abastecimentos da prova dos 20km por terem sido colocados mais tarde do que era suposto, o que fez com que a maior parte dos elementos dos 20km passa-se por eles... sem eles lá estarem. Um ponto muito importante a rever em próximas edições.

 

Quanto às marcações, houve alguns pequenos problemas. Em algumas zonas notou-se que os habitantes literalmente mexeram nas fitas. Tanto arrancadas como cortadas, muitas não estavam no sitio. Em alguns pontos, a distância entre fitas para uma prova nocturna era um pouco elevada e levantou algumas dúvidas sobre o trajecto.

 

Os marcadores tinham na parte inferior um elemento reflector, mas revelou-se pequeno, visto que em alguns sítios onde a fita enrolava ou desaparecia no meio dos ramos dos arbustos onde estavam colocados esse elemento deixava de ser reconhecível. Prender as fitas nas duas pontas ou aumentar ligeiramente o ponto reflector resolve 99% destes problemas encontrados.  O material plástico utilizado também não é a melhor opção durante este período do ano em que a chuva abundante faz com que a fita enrole sobre si mesma mais rapidamente, havendo menor material a ser identificável pelo corredor.

 

Deixo a sugestão para numa próxima edição do evento:  que o grupo dos 47Km saía com maior diferença horária face aos dos 20km. É sempre mais interessante quando os primeiros do longo chegam com outros corredores do curto a chegar e ter mais pessoas concentradas na meta. Se antes de chegarem os dos 47km, os dos 20km chegam e vão às suas vidas, perde-se um pouco da envolvência e do apoio humano.

Aumentar de 30 minutos para 60 minutos a diferença na partida pode ser o suficiente para ajudar neste aspecto e permite também que o dos 20km consigam assistir à partida da prova longa...

 

No geral,  foi um fim-de-semana bem passado com mais três elementos da crew. Deu para passear por Albufeira, pela praia e por sítios muito curiosos de observação, o que aliado às provas é o que de bom tem os trilhos. Percorrer o nosso país e descobrir todas as coisas maravilhosas que tem para nos oferecer e que muitas vezes nos esquecemos que estão ali.

Temos muito o hábito de pensar que a galinha da vizinha dá melhores ovos. O que temos que aprender é a gostar do que temos e do que fazemos para retirar o máximo do que existe nesta vida.

 

Boas corridas, Boas festas e até 2015 que agora é altura de descansar as pernas até Fevereiro/Março.

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