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Correr na Cidade

O meu Ultra Trail du Mont-Blanc (UTMB) - Crónica II

Esta é a história do David Faustino e a sua epopeia no Ultra Trail de Mont-Blanc em 2014. Depois da fantástica crónica 1 que podem reler aqui fiquem com o ínicio da prova do David.

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  A primeira de muitas subidas

Por: David Faustino

 

Início da prova

 

Os primeiros minutos foram estranhos. Estava compactamente rodeado de corredores, o que me fez lembrar a saída da maratona de Boston, mas eram pessoas que pareciam não ir correr, carregadas de mochilas, bastões, a parar para se despedir do filhos, a tirar uma selfie com o grupo de amigos, ou seja transmitindo uma atmosfera que nunca tinha sentido após o tiro de partida. Depois havia aquele olhar estranho que não era o da habitual concentração com algum nervosismo à mistura, este transmitia um medo mal dissimulado. Parecia que algo de mal lhes ia acontecer… Havia muita emoção no ar que se transmitia entre os participantes, mas que também vinha do muito público que, apesar da chuva, estava presente para o pai, a filha, o amigo ou apenas para apoiar esta gente colorida que se lançava numa volta pela montanha… para mais tarde voltar ao mesmo ponto de partida.

 

Após esses momentos iniciais, lentos em progressão, mas ricos em emoção, comecei a sentir o apelo da razão que me lembrou que existiam tempos de corte a cumprir e que, passados 10 minutos, tinha percorrido apenas cerca de 500 metros. Assim, com um passo de corrida em que o ritmo foi gradualmente aumentando, fui passando pelos menos apressados de forma a colocar-me junto dos corredores anónimos que estavam no ritmo que me parecia adequado para a prova que pretendia fazer. Penso que este foi um ponto determinante para o meu desempenho. Estar no grupo certo, com referenciais adequados, permite-nos aferir se estamos rápidos (então mas eles não estão a acompanhar porquê?) ou se estamos distraídos e a ficar lentos (ainda agora estávamos juntos e agora eles já ali vão!). No primeiro ponto de controlo (13 Kms) estava na posição nº666, no final cheguei em 508º. Havendo cerca de 30% de desistências, isso significa que consegui o objetivo de ser regular durante a prova.

 

O percurso inicial é bastante adequado ao natural esticar do pelotão nos primeiros quilómetros. Plano até aos 10 Kms (sim o UTMB tem 10kms planos!), feito em asfalto e estradões, permite correr sem limitações. Após essas facilidades iniciais, apresenta-se a primeira subida da prova, com cerca de 800 m de D+ em 4 Kms. É a primeira de muitas, sente-se pela cautela na abordagem, retiram-se bastões das mochilas e o pelotão estica-se ainda mais. Chove copiosamente e eu opto por não retirar ainda os bastões, dada a pouca tecnicidade do terreno.

 

Percorridos estes primeiros quilómetros, a sensação é de que a prova decorre com muita naturalidade por um percurso lógico e natural, que praticamente dispensa marcações. É o que resulta de estarmos a realizar um caminho pedestre utilizado há várias décadas por caminhantes. Claro que eles demoram um pouco mais, normalmente cerca de uma semana, mas passam pelas mesmas dificuldades carregados com enormes mochilas e por vezes até mesmo com crianças pequenas. Durante a prova cruzamo-nos com eles recorrentemente e trocamos incentivos mútuos. Percebe-se que a organização não arriscou no desenho da prova. Pegou num percurso existente e devidamente implementado no terreno, acrescentando-lhe abastecimentos, suporte logístico e uma vertente competitiva. Estava inventado o UTMB! Simples e apelativo. O sucesso acabou por ser fruto dessa simplicidade, do crescimento da modalidade e da notoriedade que a prova soube angariar. Talvez fosse bom que, por cá, algumas organizações aprendessem também a fazer provas simples e lógicas, aproveitando percursos existentes. Acredito que existe potencial e mercado.

 

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 Início da primeira noite depois de St Gervais

 

Voltando à prova, a chuva foi a nota dominante do início de prova, dificultando principalmente nas descidas mais ingremes e tornando ainda mais pesada a carga que temos de transportar às costas. Iniciei a minha primeira noite numa subida que nos conduzia de St. Gervais (Km 21) ao Refuge Croix du Bonhomme (Km 45) com 2.000m positivos. Foram quase cinco horas de subida contínua. Estava na hora de retirar os bastões da mochila.

 

Pé ante pé

 

Como já tinham começado as verdadeiras subidas, não havia dúvidas de que estava na hora de utilizar os bastões. É consensual que o UTMB é das provas onde eles são mais úteis, devido ao elevado acumulado e às características dos caminhos, na sua maioria pouco técnicos, que facilitam a sua utilização. Não há ninguém na prova que não os utilize, exceto talvez alguns atletas do top ten. Para todos os restantes, são o equipamento mais importante logo a seguir aos sapatos. Os meus já tinham sido companheiros de várias outras provas de montanha realizadas anteriormente e estavam devidamente experimentados. Retiro o primeiro da mochila e puxo energicamente pelo cordão que vai segurar os três segmentos para garantir coesão ao conjunto. Talvez energicamente esteja aquém da realidade. Deve ter sido mesmo à bruta… Fiquei com o fio partido nas mãos e vejo os segmentos tubulares de carbono a resvalar pelo monte abaixo. E com eles, o meu coração…

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 À noite, após um abastecimento na primeira grande subida

 

Fiquei algum tempo parado para perceber o que tinha acontecido. Depois mais algum tempo para perceber o que deveria fazer. Depois disso estava tudo claro outra vez: os bastões só são úteis quando os temos e os podemos utilizar. A primeira parte era verdadeira, a segunda não. O que não tem remédio, remediado está! No abastecimento seguinte peço fita adesiva para juntar (e não perder) os segmentos que entretanto tinha recuperado, no ponto de troca de roupa em Coumayeur ficaram os bastões, o partido e o outro, que já nem tentei abrir.

 

Quanto a bastões, estávamos entendidos. Vendo as coisas pela positiva, era menos uma coisa a atrapalhar. Agora era só acreditar nisso, continuar pelas subidas e descidas e esquecer o incidente. É certo que por vezes era difícil dado que alguns companheiros de caminho, mais curiosos e faladores, perguntavam porque não trazia bastões, que nesta prova davam muito jeito, que o pior estava para vir…

 

A noite foi-se desenrolando numa lógica de sobe e desce de dimensões a que não estamos habituados por cá. Tudo é maior. Não será forçosamente mais difícil, mas as subidas sobem mais e as descidas descem mais. Estamos agora do lado italiano e a montanha é imponente em tamanho e beleza. Com a primeira manhã e após uma descida longa e sinuosa (talvez aquela de que mais gostei), chega o ponto de troca de roupa, Courmayeur.

 

Estávamos com um pouco menos de 80 Kms e ia com cerca de 14 horas e meia. Salvo os bastões, estava tudo dentro do programado. Recolhido o nosso saco no exterior, entra-se num pavilhão. Aqui troco roupa, sapatos e aproveito para, desta vez, comer sentado. Há muita gente por todo o lado, no chão, nos balneários, junto às portas. Opto por uma paragem rápida para não perder o ritmo e porque acredito que quanto mais tempo se está parado, mais difícil é voltar à corrida. Foram exatamente 30 minutos.

 

À saída vejo um companheiro destas andanças, o Aires Barata, e pergunto-lhe se viu a minha mulher. Diz-me que está um pouco atrás e fico mais reconfortado. Está tudo a correr bem, vamos lá acabar com isto.

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 Novo ânimo depois de Coumayeur

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