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Correr na Cidade

Devemos correr descalços?

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No domingo passado, dia 1 de maio, para além de se ter comemorado o Dia do Trabalhador e o Dia da Mãe, como sabem, também foi dia de comemorar o Dia da Corrida Descalça, ou seu no termo original: International Barefoot Running Day.

A convite do simpático Sylvain Griot (que muitos se recordarão desta entrevista) encontramo-nos às 10h perto do relvado do Café In, ali para os lados de Belém, em Lisboa. Aos poucos os participantes foram chegando. O Sylvain quebrou o gelo e começou a falar de como descobriu a sua paixão por correr descalço.

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Entre os temas, falamos dos benefícios e da abordagem cuidadosa que se deve ter, dos cuidados, etc. Sim, caro leitor, isto de correr descalço requer uma aprendizagem demorada (cerca de um ano ou mais) por isso se quiser experimentar, façam-no com muito cuidado e de forma progeressiva. Pouca distância nos primeiros tempos e aumentando com calma e gradualmente. E por vezes é necessário regredir um pouco na distância e treinar menos tempo e menor distância do que no treino anterior. Há que ouvir o corpo, neste caso os pés.

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Voltando ao workshop, falou-se da forma de aterrar o pé e da cadência do passo (180 bpm é a frequência mínima aceitável, com velocidades mais rápidas as cadencias podem ir aos 200 ou 210 bpm - e usamos este aparelho na imagem para nos guiar na cadência certa das passadas). Abordou-se ainda a forma como incluíndo o treino descalço no nosso esquema de treinos pode ajudar a melhorar a passada e a evitar lesões. Mas, melhor do que estar a inventar sobre uma coisa que não sei, decidi entrevistar o Sylvain para partilhar um pouco mais sobre o que é isto de correr descalço:

 

No passado domingo comemorou-se o Dia Mundial do Barefoot Running. O que comemora ao certo esse dia?

Existe um website chamado The Barefoot Runners Society  que é simplesmente uma comunidade de pessoas que gostam de correr descalço. Muitos americanos, ingleses, franceses e alemães. E alguns portugueses também. Porque somos minoritários no mundo da corrida, e ao mesmo tempo convencidos dos benefícios da nossa prática, uma vez por ano organizamos o nosso pequeno "Dia Mundial da Corrida Descalça" para divulgar e explicar aos outros corredores o que estamos a fazer. Este ano, houve eventos em 20 países e estados diferentes. Em 2015 na Eslovénia foram 200 pessoas a correram juntas!

 

Organizaste um encontro em Portugal, qual foi o objetivo?

Quis comunicar sobre a importância dos exercícios descalços para aprendermos a correr corretamente, para corrigir a técnica de corrida. Vejo que a maioria dos corredores amadores não sabem correr e sofrem muitas lesões. Quis explicar que a primeira coisa antes de tentar correr uma prova é aprender a correr, e que o pé descalço é o melhor professor para esta aprendizagem. Quero ajudar as pessoas a correr melhor com menos lesões e com mais prazer. Tivemos um evento muito giro, com 18 pessoas. Aprendemos a sentir o chão com a sola dos nossos pés e graças a essas sensações, a corrigir a nossa técnica de corrida.

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Há cada mais gente a correr descalça em Portugal ou ainda é muito residual?

Somos mais de 200 pessoas no grupo facebook "Correr Descalço Portugal". Acho que muitas pessoas gostam da ideia, estão interessadas e acreditam nos benefícios da pratica, mas não ousam fazer o primeiro passo, principalmente por falta de informação, e também se calhar por medo das criticas. Nem sempre é fácil fazer algo que a sociedade não percebe nem encoraja.

 

É um modo alternativo de viver a corrida?

Hoje, 90% do meu treino é feito descalço. Sim, para mim é efetivamente uma filosofia de vida alternativa. A cada treino afirmo que quero viver e sentir o meu corpo de maneira completa. Estou a procura de uma certa liberdade, quero um dia poder afirmar "o meu corpo não precisa de plástico para poder avançar". Mas mesmo sem o aspeito filosófico, sei que todos os corredores deviam fazer pequenos exercícios descalços duas ou três vezes por semana, todas as semanas, para sentir a precisão e a precaução necessárias, e assim desenvolver uma técnica de corrida mais fluida e com menos impactos.

 

Que benefícios trás para os corredores?

A corrida sem proteção obriga a perceber o corpo de maneira mais completa. Descalço, percebemos que as sensações, os sensos, fazem parte da experiência e ensinam a correr de maneira mais inteligente, mais precisa, mais respeitosa do nosso corpo, e mais eficiente também. Aprendemos a corrigir a nossa técnica, a nossa postura, e o nosso comportamento também. Aprendemos a perceber e a respeitar a dor. Aprendemos a respeitar os nossos limites. Aprendemos também a ter um corpo mais relaxado, porque os nervos do pé estão ligados ao corpo inteiro. Outra coisa, a corrida descalça permite de desenvolver o pé de maneira completa: força (músculos), flexibilidade (tendões e ligamentos), resistência (os 26 ossos dos pés). Muitos corredores amadores têm pernas muito fortes e pés muitos fracos, o que provoca um desequilíbrio no corpo e acaba por provocar lesões.

 

É possível fazer treinos descalço e usar sapatilhas nas provas? Ou se corres descalço é para abandonar as sapatilhas para sempre?

Sim, é perfeitamente possível fazer treinos descalços e continuar a correr e fazer provas com sapatos. Scott Jurek explica muito bem que "Barefoot running does not have to be an all-or-nothing approach. Like any tool or training technique, it can encourage positive change and benefit the runner whether it is for performance or injury prevention. This in turn can enhance the running experience". Todas as coisas que vamos aprender com a corrida descalça vão continuar de ser muito úteis quando estamos a correr com sapatilhas. Scott Jurek, Mo Farah, Anton Krupicka, muitos campeões calçados, fazem pequenos treinos descalços todas as semanas para sentir, corrigir e aperfeiçoar as suas técnicas de corrida.

 

Que conselhos dás a quem quer começar a correr descalço?

Começar direitamente em pisos duros, tipo alcatrão. Para sentir e perceber que o piso é duro e assim começar a desenvolver uma reposta menos agressiva, mais fluida e mais respeitosa do corpo. Confiar nas suas sensações. Esquecer qualquer objetivo de distância, de velocidade, deixar o GPS e o relógio em casa. Os primeiros meses, não estamos a falar de "treinos", apenas estamos a descobrir o nosso corpo, pesquisar o movimento certo, sentir, jogar, brincar, aperfeiçoar, as vezes falhar, para corrigir e crescer. E bom começar com sessões de apenas 5 ou 10 minutos no máximo. Correr na praia é fixe, da muito prazer, mas a areia é tão permissiva que não vai convidar a corrigir a nossa técnica. Para quem esta à procura de mais informação, deixo a dica que aprendi imenso com o fantástico livro do KB Saxton, "Barefoot Running Step by Step"  - é o livro o mais inteligente que existe sobre a corrida. Estas duas páginas do mesmo autor são muito interessantes também e resumem bem a ideia da corrida descalça. Convido as pessoas a ler essas os seguintes linke varias vezes para bem assimilar todas essas ideias: aqui e aqui

 

Depois de muita prática os termos técnicos de "supinador", "pronador" corredor de passada "neutro" deixam de fazer sentido?

Efetivamente, a questão da supinação/pronação é um problema que nasceu com as sapatilhas. Pouco a pouco o corredor descalço vai aprender a pôr o pé no chão e a tirar o pé do chão com muita delicadeza, e com alta precisão: sem impacto, sem frição, e sem erros de supinação ou pronação. Apenas uma aterragem subtil seguida de uma decolagem.

 

Na tua opinião, a industria de sapatilhas está “toda errada” ou ainda há marcas a fazerem coisas certas?

O grande campeão Gordon Pirie (Running Fast and Injury Free), explica bem que a sapatilha mais inteligente é a sapatilha mais simples, sem amortecimento, nem drop, nem suporte. Apenas uma proteção entre o pé e o chão para evitar as dificuldades do terreno, tipo vidro, pedras, etc. Para mim o problema maior hoje é o discurso das marcas, da televisão, das lojas. Elas estão sempre a afirmar que a corrida é um desporte com impacto e que necessariamente precisamos de amortecimento e tecnologias para suportar o dito impacto. Temos que mudar de ponto de vista e afirmar o contrário: a corrida com uma técnica correta não provoca nenhum impacto nem nenhuma lesão no corpo. Gordon Pirie correu mais de 340.000 km com sapatilhas ultra minimalistas (Guinness Book of Records do homem com mais quilómetros na sua vida) e nunca teve lesões, porque sempre correu com uma técnica lindíssima. E a melhor ferramenta para chegar a esta técnica correta são os exercícios descalços, para sentir precisamente instantaneamente o que estamos a fazer.

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Ninguém esquece a tua imagem na Meia Maratona de Lisboa, em 2014, que fizeste descalço (e vestido de Tarzan), como tem evoluído a tua corrida desde então?

Corri esta meia maratona apenas um ano depois de ter começado a correr descalço, foi a prova mais rápida da minha vida (1h26m) e deu-me muita felicidade. Mas senti também que isso tudo aconteceu demasiado rapido, e não dei  tempo suficiente ao meu corpo e à minha mente para aceitar e assimilar a sabedoria toda da corrida descalça. Pouco a pouco percebi que tinha que ter menos pressa na realização dos meus objetivos. Já são 18 meses sem nenhuma prova, mas  continuo a treinar de maneira intensa todas a semanas e tenho muitos objetivos na minha mente. :)

 

E que objetivos são esses? 

Depois do verão, gostava de correr a Rota Vicentina, de Porto Covo até Sagres em poucos dias com um amigo meu, descalço quando for possível, e calçado quando for necessário para os meus pézinhos ainda demasiado civilizados.

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