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Correr na Cidade

Afinal as sapatilhas devem ter sexo?

Post masculino o ufeminino.jpgPor Tiago Portugal:

 

Através de uma pesquisa na Internet cheguei por mero acaso a um pequeno livro intitulado

“The Best of 2014 – 10 Articles you can’t live without” -  www.bartoldbiomechanics.com.

Este e-book contém artigos resumidos acerca de algumas questões relevantes da medicina desportiva e da biomecânica. A Bartold Biomechanics dedica-se a estudar estes assuntos há cerca de 26 anos. Os artigos podem não ser consensuais mas abordam questões interessantes e nas quais existe pouca literatura em português, pelo menos que seja de fácil acesso ao leitor comum. Irei nas próximas semanas traduzir 2 ou 3 artigos deste pequeno livro, tentando, o mais possível, ser fiel ao seu autor, sendo que o artigo de hoje é intitulado “Gender differences and footwear. Yes folks, there really IS a difference!”

 

 Artigo de Simon Bartold de 26 de março de 2014:

 

Já alguma vez reparou que homens e mulheres são diferentes? Quer dizer, realmente diferentes! A diferença é em todo o tipo de aspetos, e eu já tinha reparado nisto há algum tempo, apesar dos meus muitos anos a trabalhar e a lidar com calçado de desporto, ainda parece que os grandes fabricantes e as maiores marcas são um pouco lentos a assimilaram este fato.

Portanto, agora é o momento ideal para delinear algumas das diferenças básicas entre homens e mulheres corredoras, e para explorar exatamente os modelos que estão disponíveis no retalho especializado das sapatilhas de corrida de forma a por o pé certo – masculino ou feminino - no sapato adequado.

Em primeiro lugar, quais são as diferenças básicas entre homens e mulheres? Bem, eu vou limitar a minha discussão aos contrastes biomecânicos. E estes são muitos e variados. Apesar de o fato de agora existirem mais mulheres a correr do que homens (e tem sido assim desde 2002, Taunton et al 2009) a maioria dos fabricantes ainda fabrica os modelos de sapatos femininos diminuindo o tamanho dos modelos masculinos. Isso coloca problemas em muitos níveis, um dos quais é que a forma de um pé feminino é completamente diferente do pé masculino. Tipicamente, o pé feminino tem uma relação de tamanho entre o calcanhar e o ante pé mais estreita do que o pé masculino. Muitas mulheres têm grandes problemas com o ajuste e estabilidade com modelos de sapatos masculinos, que foram encolhidos, o que causa que o pé deslize e escorregue no sapato e desconforto. A formação de bolhas é uma questão particularmente comum para as mulheres corredoras e, invariavelmente, está relacionada com um mau ajuste do pé ao sapato.

Em seguida, as mulheres têm diferentes tipologias de lesões, não digo mais lesões, apenas lesões diferentes das dos seus colegas do sexo masculino:

  • As mulheres são duas vezes mais propensas a desenvolver dor na banda iliotibial do joelho em comparação com os homens (Ferber et al 2003);
  • As mulheres são três vezes mais propensas a desenvolver lesões no glúteo médio em comparação com os homens (Almeida et al , 2001);
  • Mulheres corredoras têm entre 2 e 9 vezes mais hipóteses de desenvolver dor/lesões na zona anterior do joelho em comparação com os homens (Almeida et al, 1999; DeHaven + Lintner, 1986);
  • Mulheres corredoras são duas vezes mais propensas a desenvolver dor da zona lateral do joelho comparado com os corredores masculinos (Almeida et al, 1999; DeHaven + Lintner, 1986).

Estas estatísticas são contundentes, mas por que será que essas diferenças ocorrem?

Bem, porque o esqueleto feminino é estruturalmente diferente do esqueleto masculino. As atletas femininas correm de forma diferente da dos homens. Isto conduz a diferentes padrões de carga e ao após um longo período de tempo e muitas repetições, este pode contribuir para o aparecimento de alguma lesão. Algumas das diferenças incluem:

  • A bacia mais larga em relação ao comprimento da perna relativamente aos homens, o que resulta numa aparência mais “pernas arqueadas”. Se você der uma olhada às corredoras femininas, especialmente as sprinters, isto pode ser facilmente demonstrada;
  • A tendência para uma maior rotação interna do fêmur (osso da coxa);
  • Uma maior rotação interna da articulação do quadril.

Estas três diferenças combinadas explicam muito o porquê de as lesões mais específicas das corredoras femininas e a demografia das mesmas.

No entanto, para além das diferenças estruturais, existem também diferenças substanciais na distribuição do impacto entre os corredores masculinos e femininos:

A caminhar a postura é semelhante entre os sexos. No entanto, as mulheres apresentam 11° de maior flexão na sua postura. Durante o movimento de corrida, vendo de uma perspetiva frontal, as mulheres têm significativamente maior ângulo de retração no quadril do que os homens. As mulheres possuem uma velocidade da movimentação da anca superior aos homens mas uma frequência de retração similar aos mesmos. (Ferber et al., 2003). Mais importante, as mulheres demonstram menor flexão do joelho e menores alterações do movimento de flexão desde o contacto inicial da passada até ao seu término em relação aos homens (Malinzak et al., 2001) e isto tem um efeito profundo na atenuação do impacto."

sexo 1.jpg

Agora a questão difícil do calçado: O que deveríamos estar a construir/desenvolver nos tênis de corrida das mulheres?

 

As áreas-chave são:

  • As mulheres precisam de maior absorção de choque (amortecimento) do que os homens, porque têm menos flexão do joelho do que os homens (Malinzak et al, 2001). Elas correm com uma passada "mais dura", rígida, e não atenuam/absorvem o choque tão bem;
  • Deve existir uma atenção especial para a forma do sapato feminino e para a configuração da entressola e da sola que é particularmente importante na relação da área de aterragem/contato ao chão (touch-down contact area) durante a corrida (que é diferente de homem para mulher);
  • Existe agora uma boa evidência para sugerir uma plataforma de entressola maior para as mulheres do que os homens com base na nossa pesquisa sobre a flexibilidade do tendão e a sua capacidade de se adaptar às mudanças sobre pressão sem rutura da sua estrutura ou função em atletas do sexo feminino (Bartold et al 2009).

Concluindo, eu creio que as mulheres corredores foram mal tratadas, ignoradas, pelos grandes fabricantes de calçado desportivo, apesar de muitos deles reivindicarem que disponibilizam calçado específico para ambos os gêneros, ainda há muito trabalho a ser feito.

  1. Precisamos de nos concentrar em sistemas que oferecem uma forma de libertar a carga de forma eficaz.
  2. Adaptar a posição de aterragem/contato ao chão, posição de ataque ao chão.
  3. Estabilizar o médio-pé .
  4. Melhorar a posição de decolagem.

Algo a ponderar.

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